Este homem que viveu numa Itália e numa época que os filmes não conseguiram ainda traduzir vai sendo a chave para o sucesso de uma série de banalidades de que é exemplo "O Código Da Vinci". Espero que a biografia que Walter Isaacson acaba de publicar consiga trazer até nós um pouco da genialidade sublime deste homem singular e não se trate apenas de mais um conjunto de suposições ao gosto da época contemporânea e sem qualquer respeito pela época em que o pintor viveu.
Espero porque algumas observações deste biógrafo deixaram-me na dúvida. Em primeiro lugar, a sua obra favorita é "Dama com Arminho". Sem dúvida, um belo retrato. Mas como ignorar "A Virgem e o Menino com Santana", ou "A Virgem dos Rochedos", as obra-primas de Leonardo. Depois, Isaacson fala de A Última Ceia, que se tornou uma verdadeira fixação ou moda dos tempos modernos. Um pintura tão degradada, tão restaurada, tão alterada que deve ser uma imagem pálida do original. Nem Isaacson, nem ninguém que eu conheça, se refere aos esboços para o rosto dos apóstolos, feitos pelo pintor que se inspirou nos da gente do povo que encontrava nos mercados de Milão, quando fazia as compras para os banquetes do seu patrono, Ludovico Sforza. Esses esboços são não só belíssimos como extremamente importantes porque revelam o carácter andrógino de vários apostolos e não apenas de João, como é propalado com ar científico em livros de rigor mais do que duvidoso. Mostram também a constância desse traço nos seus retratos, entre os quais se destaca o da Mona Lisa.
O Leonardo pintor é como a graça divina: ou fala connosco ou jamais o compreenderemos.





