quinta-feira, 17 de abril de 2025

EU SOU A LENDA

A lenda é precisa, faz-nos falta, alimenta-nos e alimenta o negócio e o turismo. Uma lenda para cada espaço que nos permita sonhar e viajar no tempo.

Martinho da Arcada e ilustre freguesia. Esta foto é um documento. Para que haja um Pessoa em todos os cafés da baixa lisboeta e um Eça em todos os hotéis da mesma baixa, com capítulos em Sintra, em Benfica e lá pràs bandas do Lumiar, para que haja um escritor, um poeta, um artista, para cada café, para cada hotel, para cada jardim.... e, por esse Portugal fora, uma padeira de Aljubarrota escondida atrás de cada árvore, uma Deuladeu Martins no alto de cada torre.
Numa lenda tem de haver uma parte de verdade, que essa parte seja grande, mas que não falte a fantasia, porque a fantasia é como a poesia... alimenta.
E agora vou dormir que o sono já espreita.



quinta-feira, 20 de março de 2025

PAZ

A minha oliveira já foi bonsai. Um dia, libertei-a dos arames que lhe tolhiam as raízes e ela começou a crescer. Este ano tem muitas flores e está cheia de frutos. Vive na minha cozinha e qualquer dia não cabe lá. É a minha herança de paz, porque viverá muitos anos depois de mim, transplantada para um terreno.

Paz é a maior herança que podemos deixar às gerações futuras. A guerra gera o ódio entre os homens. Nós ainda estamos a recuperar das Aljubarrotas e dos 1640s. E ou nos entendemos todos ou esperamos por uma invasão de extraterrestres para sentirmos finalmente que todos somos iguais na forma, na fraqueza e na força, na alegria e na tristeza (isto até parece um casamento).
Fiquem-se com um excerto do Génesis: "E a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra."




segunda-feira, 10 de março de 2025

DO HORROR!

 

Ligo a TV e estampa-se na minha frente o ALMIRANTE, pessoa que desconhecia, mas que me era referida com certeza certa de ser o próximo PR da República Portuguesa.
Invoco-vos, Tágides “minhas”! Para que não fiqueis ofendidas, invoco-vos, Tágides dos poetas lusitanos, nos quais não me incluo. Invoco-vos para conseguir transmitir o estupor que me invadiu ao ouvi-lo.
Que imagem usar: fábrica de clichés, dicionário do lugar-comum, repositório de banalidades, chatgpt do chavão (perdoa-me chatgpt), produtor em série de estereótipos? Tudo somado será que chega? Ó horror!
Cala-se o Almirante aparece o SEGURO! Segurai-me… Aqueles olhos reboludos, com a pálpebra semicerradas e uma expressão dolorosa de criança ferida. Todo ele ternura, todo ele paz, todo ele súplica. Lembram-se da imagem que aqui reproduzo? Era o Seguro em criança, já uma figura trémula, benéfica, amante, todo ele preocupado com os males da sociedade. Ó horror!
E de que falavam estes dois? Da inocência do Montenegro.
Ah, como fiquei comovida. Ainda não recuperei.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

TUDO O QUE IMAGINAMOS COMO LUZ

 

Para mim este filme é poesia: realista e lírico, feito de fragmentos de vida que se perdem numa grande cidade. É Bombaim, mas podia ser qualquer grande metrópole. São três mulheres, mas o filme não pretende ser um testemunho da dureza da vida dessas mulheres ou uma denúncia. É mais. Não quer provar nada e essa ausência de pragmatismo revolucionário fez-me sentir próxima daquelas vidas, daquela cidade, daquele ambiente noturno onde milhares de janelas iluminadas criam um firmamento terrestre, um céu virado ao contrário, negro e coalhado de luzes.
Poesia são essas luzes, esses anseios, esse fluir dos dias, esses sonhos e o som do mar que nos fustiga e embala. É a Índia, mas é mais do que isso, porque não se trata de folclore ou de denúncia, mas de vida e de tudo o que imaginamos como luz em qualquer sítio deste planeta.
Luz que encheu os meus olhos de lágrimas.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

DE SUSKIND AO BICHINHO DA PRATA

Ora, em minha casa, há livros em todas as divisões e alguns guardados com tal devoção que nem eu me lembro já que naquele especial lugar coloquei um grupo de livros também ele especial, para reler.

Foi uma tarde longa e extenuante, à procura de "A história do Senhor Sommer", a pedido do meu neto. Na pista dos livros do Suskind, porque o senhor Sommer devia estar lá no meio, deitei abaixo estantes e estantes, limpei cantos e recantos. Toneladas de pó, livros esquecidos, autores esquecidos.... Tanta coisa para ler. Já não vou ter tempo de ler o que não li nem reler o que adorei. Pelo caminho, encontrei a Dorothy Parker. Abaixo publico um excerto de um conto desta escritora que, nalgumas páginas, me lembra um pouco Virginia Woolf, apenas nalgumas páginas. Fiquei com uma dor nas costas. Mas o Suskind sumiu.

Ao ver passar, opulentos e refulgindo, tanto bichinho da prata, percebi o destino do Suskind. Atirei-me a eles e foi uma matança. Mas ouço rir os sobreviventes. Afinal, eles já cá estavam quando os homens ainda eram um projeto. E cá vão continuar quando os homens forem apenas memória. Memória dos bichinhos de prata que entretanto se tornaram uns valentes sabichões.

 

Excerto de "A VALSA", de Dorothy Parker, escritora americana do séc. XX. Este conto tem a duração de uma valsa.😀

O que pensa a mulher que se vê obrigada a dançar (protocolo da época) com um homem que detesta. Aqui vão umas migalhas do seu pensamento.

"................. Quando um homem nos pede que dancemos com ele, o que se há de dizer? Não vou, primeiro havemos de nos encontrar no inferno? Ora essa, muito obrigada, gostava imenso, mas estou com as dores de parto? Oh, sim, dancemos — é tão agradável encontrar um homem que não se importa de ser contagiado pelo meu tifo?

Não, não podia fazer outra coisa senão dizer: estou encantada.

Bem, vamos acabar com isto. Pois bem, Cannonball, vamos por esses campos fora. Ganhaste a partida; és tu quem guia." (…)

UM MODELO DE COMO NÃO SE DEVE FAZER TELEVISÃO

 "CAMILLE CLAUDEL", um documentário, que passou na RTP2, sobre a genial escultora.

Um modelo de como não se deve fazer televisão. Um modelo de pedantismo serôdio.
Pretensamente erudito, cheio de música sacra, de fragmentos de uma peça de teatro (que talvez fosse interessante) mas totalmente descontextualizada, entre frases patéticas e hipócritas.
As mulheres naquela época (finais do séc. XIX) não tinham direito a exprimir o seu génio e, embora o documentário quisesse redimir Rodin, a verdade é que ele foi um dos inimigos de Camille, sua ex-amante e rival artística. Rodin sentiu-se ameaçado pelo talento dessa mulher que não conseguiu transformar em eterna discípula e serva e pressionou o ministro de belas artes a cancelar os pagamentos das suas obras em bronze, condenando-a à miséria.
Camille era odiada pela família, pela sua piedosa mãe e pelo seu piedoso irmão, Paul Claudel. Mantiveram-na sem dinheiro, até a levarem à loucura. Depois, encerraram-na num hospital psiquiátrico onde viveu 30 anos, proibida de modelar, de esculpir, de se exprimir. Até ao extremo de a proibirem de escrever cartas. Um médico, o Dr. Brunet, ainda mandou uma carta à mãe de Camille pedindo que tentasse reintegrar a filha no convívio familiar, porque ela não estava louca, mas nunca recebeu resposta.
Camille era um gênio, mas era mulher e nunca conseguiu afirmar-se em vida. Apenas o seu pai a ajudava e compreendia. Morreu cedo e deixou-a exposta ao preconceito. Aa 90 peças da sua obra que lhe sobreviveram permitem-nos, graças a Deus, reconhecer o seu génio, apesar de Paul Claudel, apesar de Rodin.
Não será este documentário pretensioso e pedante que limpará o crime desses dois homens, porque felizmente ficaram provas. Quantas mulheres não terão sido sufocadas, quantas não terão visto o seu talento destruído, sem que o crime dessa destruição tivesse deixado rasto?



domingo, 29 de dezembro de 2024

PONTO DE VISTA


Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
(…)
Na obra “Non (Nu)”, Ionesco (dramaturgo nascido na Roménia, naturalizado francês) expressa, com humor e teatralidade, as suas opiniões sobre a crítica literária. Para ele, no campo da crítica literária todas as opiniões são válidas. Sem o humor deste dramaturgo, sinto que todos os acontecimentos maiores ou menores da atualidade permitem interpretações diversas e podem ser observados em diferentes ângulos mais ou menos visíveis.
Esta condição que permite uma subjetividade tantas vezes orientada por uma objetividade premeditada é cada vez mais evidente para o cidadão em geral que pressente, por trás do que lhe é transmitido como a verdade das verdades, múltiplas nuances e múltiplas inverdades. Este fenómeno que sempre existiu, mas que se tornou numa autêntica praga gera a dúvida e a descrença, nuns casos desejada por fazedores de opinião, noutros frustrada. Caso para concluir como Ionesco que no campo da realidade social e política todas as opiniões são válidas? Ou como diz de uma forma tão clarividente Gedeão: “eu vejo no mundo escolhos onde outros, com outros olhos, não veem escolhos nenhuns”.

Talvez não seja esta a conclusão que eu pretendia. Na verdade, preferia que a perplexidade perante as variadas leituras de determinados acontecimentos levasse as pessoas a uma busca em diferentes fontes de informação, já que observar “in loco” é impossível para quase todos nós e para a maioria senão totalidade dos acontecimentos.