sábado, 24 de outubro de 2026


                      "O VERBO LER NÃO SUPORTA O IMPERATIVO”

 “É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar», o verbo «sonhar» ...

 

AS PRIMEIRAS HISTÓRIAS

É no espaço familiar que muitas crianças ouvem as primeiras histórias e criam o gosto pelo mundo mágico da ficção. Os pais e os avós contam ou leem às crianças, as histórias que consideram mais motivadoras e adequadas ao seu nível etário, normalmente contos tradicionais ou histórias maravilhosas em que o Bem e o Mal se cruzam, numa função catártica, e que atuam como motivação para outras histórias e para futuras leituras. Intuitivamente os pais e os avós sabem que o seu pequeno auditório só lhes será fiel se a seleção que fizerem das histórias que vão ler ou contar for motivadora. Daniel Pennac, o autor do livro Como um Romance, recorda assim os momentos da leitura noturna que fazia ao filho quando ele era pequeno:

“Gratuito. Pelo menos era assim que ele o entendia. Um presente. Um momento fora de todos os momentos. Quaisquer que fossem as circunstâncias. A história noturna aligeirava-lhe o peso do dia. Largavam-se as amarras. Ia com o vento, levíssimo, o vento que era a nossa voz.”

 

OS PRIMEIROS LIVROS

    São também os pais quem compra habitualmente o primeiro livro à criança. O primeiro livro tem grandes ilustrações e é nelas que lemos a nossa primeira história. Quando enfim conseguimos decifrar as letras, há também um outro primeiro livro que nos acompanha e essa relação primeira, tal como o primeiro amor, jamais será esquecida.

 

A ESCOLA

A Escola não é, pois, um agente exclusivo de intervenção. A Escola recebe e envia. Entre ela e os outros pólos: a sociedade e a família estabelece-se um intercâmbio muito forte. Por isso não podemos ignorar que as crianças que vivem e se desenvolvem em ambiente culturalmente ricos apresentam normalmente maior predisposição para a leitura do que crianças criadas em ambientes pobres ou mesmo muito pobres. Todas as exceções que conhecemos a estas regras apenas a confirmam.

    A escola reflete a sociedade na qual se insere, exprimindo em geral, a abundância ou escassez de meios e de ideias dessa mesma sociedade. Esta constatação não impede, contudo, outra de sinal contrário. A escola deve procurar um carácter de excelência que lhe permita ser um fator de germinação cultural do meio e não se contentar com o papel acomodatício do “não fazemos porque não temos”; “não fazemos porque os outros também não fazem”, ou à boa maneira lusitana: “não fazemos porque a culpa é do Governo.” E com esta frase lapidar nos anulamos como cidadãos intervenientes e agentes de mudança.

 

PRÉ-REQUISITOS PARA CRIAR BONS LEITORES

  Quando o aluno atinge o 5º ano de escolaridade, são exigíveis determinados pré-requisitos para interessar as crianças pela leitura e formar bons leitores: o domínio satisfatório dos mecanismos da leitura. Satisfatório não significa bom ou excelente. É claro que, se for bom ou excelente, tanto melhor, mas basta que seja suficiente. A criança precisa dominar os principais mecanismos da leitura, embora ainda o possa fazer com algumas hesitações, porque o seu vocabulário é, por exemplo, muito reduzido. Ora, há que ter em conta que a criança vai crescendo e que certamente a Escola a irá ajudar a ultrapassar essas hesitações e dificuldades ao mesmo tempo que irá alargando o seu vocabulário.

 

§  Os casos muito difíceis

   Contudo, todos sabemos que se apresentam no 5º ano de escolaridade e noutros níveis superiores, casos muito difíceis: crianças que não dominam ainda minimamente os mecanismos da leitura. Essas crianças necessitam de ter um apoio especial na escola, cujo objetivo seja o de as ajudar a ultrapassar essa dificuldade. Estas situações são difíceis e requerem uma explicação, que terá de ser procurada caso a caso. Porém, o professor normal perante uma turma regular, não se sente capaz de lhes responder e elas extravasam o âmbito da sala de aula. Os esforços que se investem em casos destes são enormes e nem sempre recompensados. Mas, se digo que a resposta a estes casos exige apoio da Escola, fora da sala de aula, isto não significa que a criança seja privada do estímulo que em termos de incentivo à leitura vai ser proporcionado às outras crianças dentro ou fora do espaço letivo: se a criança não lê pode sempre ouvir ler.

 

O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DO GOSTO PELA LEITURA 

  A Escola é, em muitos casos, o tal último reduto, ou seja, o único espaço em que a criança terá oportunidade de ler ou de ouvir ler, o único espaço em que terá oportunidade de conhecer histórias tradicionais, poemas, obras de escritores portugueses e não só, textos ditos literários. A escola é, pois, para muitas a única oportunidade de contactar com um mundo diferente e aliciante, a única oportunidade de se enriquecerem culturalmente. Por isso, a escola é um espaço tão responsável e a disciplina de Língua Portuguesa suporta grande parte dessa responsabilidade.

 

  Por tudo isto, a Escola não pode limitar a sua ação à análise do discurso do quotidiano normalmente pobre dos nossos alunos. A escola tem obrigação de ir mais além: dando a conhecer discursos diferentes.

 

·         Estratégias de apoio e de incentivo à leitura

   A preocupação prioritária da escola será a de praticar com os alunos uma leitura para compreender e uma leitura para aprender. Estas formas de leitura, muitas vezes designadas como leitura orientada ou leitura metódica, exigem um percurso do texto que leva à identificação de tópicos e à sua interpretação, ao estudo do vocabulário, etc. Visa-se alargar o contacto do aluno com diferentes géneros de texto e uma compreensão cada vez mais alargada dos seus conteúdos e intencionalidade. Mas simultaneamente a escola tem também de se empenhar na promoção de hábitos de leitura, desenvolvendo uma atuação em que determinados aspectos são de realçar.

a)   Selecção de textos e obras

   Tal como os pais e avós intuitivamente fazem uma selecção motivadora para o seu público, também o professor deve escolher livros e textos capazes de despertarem o interesse pelo que se lê. E isso passa pelo género e pela linguagem dos livros. A idade e o desenvolvimento dos alunos aconselha a ir progredindo gradualmente quer em termos de linguagem, quer em termos de assuntos. (O professor deveria conhecer os livros que aconselha aos alunos). Isto não implica facilitismo ou entrarmos em cedências medíocres e empobrecedoras. O melhor modelo que conheço de um texto motivador para todos os alunos bons e maus é sem dúvida o Ulisses, de Maria Alberta Menéres, que reúne o gosto da aventura, um certo mistério, exotismo e suspense, aliados a uma linguagem coloquial, clara e muitas vezes poética extremamente motivadora. Por outro lado, é um texto que permite enriquecer culturalmente os alunos e pô-los em contacto com a mitologia grega, com grande relevo no uso de recursos poéticos e expressivos próprios da linguagem literária. 

b)   Género de livro e temática

Os jovens leitores com idades compreendidas entre os 10 e 13 anos revelam preferência pelas: 

  •   histórias de aventuras, mistério e suspense, com heróis e heroínas em que eles projetam os seus sonhos;
  • histórias que falam de jovens da sua idade que vivem situações idênticas às suas e em que, por vezes, está presente uma certa irreverência em relação aos mais velhos (A malta do 2º C; Um bom diabrete; O menino Nicolau).

     Os livros com preocupações moralistas devem ser banidos sob pena de afastarmos os jovens da leitura. Muitos jovens interessam-se também pelos livros de divulgação científica sobre as grandes invenções da Humanidade, acontecimentos de carácter histórico, a forma como viviam povos antigos, dinossauros, cosmos, etc. Estes livros desvendam mistérios e apresentam a História da humanidade como uma aventura (a aventura do Homem).

c)    Os textos do manual

  Os textos que integram o manual do aluno devem também funcionar globalmente como incentivo à leitura. Muitos são histórias curtas e outros excertos de livro. A sua leitura e análise têm, contudo, outros objetivos tais como melhorar a compreensão do que se lê, progredir na leitura de textos com linguagem cada vez mais elaborada, despertar o gosto e curiosidade por histórias e assuntos, em suma, alargar gradualmente o campo de interesses e permitir o conhecimento de outras realidades. Ora esses objectivos contribuem para o grande fim que procuramos: o gosto pela leitura.

d) A leitura recreativa

   Nos diferentes tipos de leitura que os programas de Língua Portuguesa de todos os níveis de ensino aconselham, encontra-se a leitura recreativa. Esta expressão “leitura recreativa” alerta-nos para o facto de que esta leitura tem de ser um espaço de liberdade.

  A leitura recreativa não deverá ser nada mais do que isso: ler pelo prazer de ler. Não abordar o livro “como se se tratasse de um problema de investigação”, pois, transcrevendo as palavras de Daniel Pennac: a reconciliação com a leitura obedece a uma única condição: não pedir nada em troca. Absolutamente nada. Não erguer qualquer barreira de conhecimentos prévios em torno do livro; não colocar a mais ínfima questão; não obrigar a fazer trabalhos de casa; não acrescentar uma palavra que seja às que foram ditas; não fazer juízos de valor, não dar explicações de vocabulário, nem fazer análise de textos, nem biografias...

e) Leitura orientada de obras completas: leitura faseada

   O programa sugere algumas obras para leitura integral. Habitualmente a sua leitura é faseada, ou seja, o livro é dividido em partes ou capítulos e procede-se à sua análise num conjunto de aulas. Porém, há que ter em conta que a leitura destas obras não se deve arrastar ao longo de um grande número de aulas. Leituras muito demoradas e dissecadoras destroem habitualmente a relação do aluno com o livro e por arrastamento com o próprio escritor. Desnecessário será citar o nome de autores portugueses que são rotulados de difícil leitura, sinónimos de tédio, uma vez terminada a escolaridade, porque foram analisados ao longo de uma interminável série de aulas, de forma fastidiosa.

f) Importância da leitura em voz alta

   Como já referi, a motivação pela leitura passa em grande parte pelo ouvir ler e pelo contar, pelo momento mágico em que as palavras são capazes de transportar o ouvinte, de o deslocar para um plano mais amigo, mais quente e mais tranquilo. A leitura em voz alta é efetivamente muito importante, porque realça as qualidades melódicas da linguagem de muitos textos e habitua o aluno às sonoridades da língua. 

  Este tipo de leitura ocorre (ou deveria ocorrer) muitas vezes quando se apresenta um novo texto. Os alunos podem ter os livros fechados e treinar a audição de textos e,deste modo, a sua própria atenção e memória.  Seria ideal que essa leitura fosse um modelo de entoação e que a sua expressividade estimulasse os alunos a lerem também em voz alta. Mas nem todos os professores se sentem capazes de o fazer e isso inibe-os. Porém, isso não deve funcionar como um impedimento. Quaisquer que sejam as qualidades de dicção do professor, ele deverá ler em voz alta perante os seus alunos porque além de permitir a toda a classe inteirar-se rapidamente do assunto do texto que vai ser analisado e treinar a atenção e memória do que se ouve, vai permitir aos tais alunos que são os casos difíceis, ouvir e conhecer histórias e assuntos de que ficará privado de outro modo.  

  Outras formas de leitura em voz alta praticadas pelo aluno: a leitura a duas vozes, a leitura coral, a leitura com fundo musical, etc.

Direito de ler em voz alta, COMO UM ROMANCE, Daniel Pennac

f)      Decorar textos

   Decorar textos curtos, habitualmente poemas, implica ler e reler o texto, procurando estratégias de memorização e sentindo as palavras com todo o seu peso e carga emotiva. Decorar leva os alunos a memorizar estruturas de construção frásica, formas de dizer, novos vocábulos. Decorar textos é um jogo que ajuda a gostar da língua.

g)   A biblioteca de turma: leitura faseada

    A criação de uma biblioteca de turma e de um tempo letivo dedicado à animação dessa biblioteca permite também organizar atividades de incentivo à leitura. Uma delas será a leitura faseada de capítulos de uma obra. O professor interrompe a leitura num momento de maior suspense e interesse (tal como acontece com as telenovelas) e guarda a continuação para outro espaço idêntico na semana seguinte: “Quem se lembra?”; “Em que parte íamos?”, e continua procedendo a nova paragem estratégica. Pode também fazer isto em relação a um livro numa semana, a outro livro na semana seguinte e assim sucessivamente. Estes livros podem ser requisitados para leitura. Se a estratégia funcionou, esses livros serão disputados durante algum tempo.

    Na aula de biblioteca poderá haver também um espaço em que o aluno pode falar daquilo que leu, se assim o entender. Esta necessidade de trocar impressões sobre o lido tanto pode existir como será liminarmente rejeitada pelo aluno. E o direito de não falar sobre o que se leu é também um Direito Inalienável do Leitor.

 

CONCLUSÃO

   Gostaria de terminar, voltando ao verbo LER. Se é certo que ele não admite o imperativo, também é certo que ele tem de ser em primeiro lugar sinónimo de compreender. E só depois e por extensão sinónimo de amar e de sonhar. Sinónimo de amar, porque é uma relação íntima de carinho com o livro que queremos criar nos nossos alunos e de sonhar, porque os livros são sempre, mas especialmente na juventude, a porta para a evasão e o sonho. E como tudo isto exige muita aceitação e liberdade, termino com a leitura de mais uma citação dos DIREITOS DO LEITOR do livro de Daniel Pennac, Como Um Romance, recomendando vivamente a leitura desta obra: O direito de não ler.



 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

EU SOU A LENDA

A lenda é precisa, faz-nos falta, alimenta-nos e alimenta o negócio e o turismo. Uma lenda para cada espaço que nos permita sonhar e viajar no tempo.

Martinho da Arcada e ilustre freguesia. Esta foto é um documento. Para que haja um Pessoa em todos os cafés da baixa lisboeta e um Eça em todos os hotéis da mesma baixa, com capítulos em Sintra, em Benfica e lá pràs bandas do Lumiar, para que haja um escritor, um poeta, um artista, para cada café, para cada hotel, para cada jardim.... e, por esse Portugal fora, uma padeira de Aljubarrota escondida atrás de cada árvore, uma Deuladeu Martins no alto de cada torre.
Numa lenda tem de haver uma parte de verdade, que essa parte seja grande, mas que não falte a fantasia, porque a fantasia é como a poesia... alimenta.
E agora vou dormir que o sono já espreita.



quinta-feira, 20 de março de 2025

PAZ

A minha oliveira já foi bonsai. Um dia, libertei-a dos arames que lhe tolhiam as raízes e ela começou a crescer. Este ano tem muitas flores e está cheia de frutos. Vive na minha cozinha e qualquer dia não cabe lá. É a minha herança de paz, porque viverá muitos anos depois de mim, transplantada para um terreno.

Paz é a maior herança que podemos deixar às gerações futuras. A guerra gera o ódio entre os homens. Nós ainda estamos a recuperar das Aljubarrotas e dos 1640s. E ou nos entendemos todos ou esperamos por uma invasão de extraterrestres para sentirmos finalmente que todos somos iguais na forma, na fraqueza e na força, na alegria e na tristeza (isto até parece um casamento).
Fiquem-se com um excerto do Génesis: "E a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra."




segunda-feira, 10 de março de 2025

DO HORROR!

 

Ligo a TV e estampa-se na minha frente o ALMIRANTE, pessoa que desconhecia, mas que me era referida com certeza certa de ser o próximo PR da República Portuguesa.
Invoco-vos, Tágides “minhas”! Para que não fiqueis ofendidas, invoco-vos, Tágides dos poetas lusitanos, nos quais não me incluo. Invoco-vos para conseguir transmitir o estupor que me invadiu ao ouvi-lo.
Que imagem usar: fábrica de clichés, dicionário do lugar-comum, repositório de banalidades, chatgpt do chavão (perdoa-me chatgpt), produtor em série de estereótipos? Tudo somado será que chega? Ó horror!
Cala-se o Almirante aparece o SEGURO! Segurai-me… Aqueles olhos reboludos, com a pálpebra semicerradas e uma expressão dolorosa de criança ferida. Todo ele ternura, todo ele paz, todo ele súplica. Lembram-se da imagem que aqui reproduzo? Era o Seguro em criança, já uma figura trémula, benéfica, amante, todo ele preocupado com os males da sociedade. Ó horror!
E de que falavam estes dois? Da inocência do Montenegro.
Ah, como fiquei comovida. Ainda não recuperei.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

TUDO O QUE IMAGINAMOS COMO LUZ

 

Para mim este filme é poesia: realista e lírico, feito de fragmentos de vida que se perdem numa grande cidade. É Bombaim, mas podia ser qualquer grande metrópole. São três mulheres, mas o filme não pretende ser um testemunho da dureza da vida dessas mulheres ou uma denúncia. É mais. Não quer provar nada e essa ausência de pragmatismo revolucionário fez-me sentir próxima daquelas vidas, daquela cidade, daquele ambiente noturno onde milhares de janelas iluminadas criam um firmamento terrestre, um céu virado ao contrário, negro e coalhado de luzes.
Poesia são essas luzes, esses anseios, esse fluir dos dias, esses sonhos e o som do mar que nos fustiga e embala. É a Índia, mas é mais do que isso, porque não se trata de folclore ou de denúncia, mas de vida e de tudo o que imaginamos como luz em qualquer sítio deste planeta.
Luz que encheu os meus olhos de lágrimas.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

DE SUSKIND AO BICHINHO DA PRATA

Ora, em minha casa, há livros em todas as divisões e alguns guardados com tal devoção que nem eu me lembro já que naquele especial lugar coloquei um grupo de livros também ele especial, para reler.

Foi uma tarde longa e extenuante, à procura de "A história do Senhor Sommer", a pedido do meu neto. Na pista dos livros do Suskind, porque o senhor Sommer devia estar lá no meio, deitei abaixo estantes e estantes, limpei cantos e recantos. Toneladas de pó, livros esquecidos, autores esquecidos.... Tanta coisa para ler. Já não vou ter tempo de ler o que não li nem reler o que adorei. Pelo caminho, encontrei a Dorothy Parker. Abaixo publico um excerto de um conto desta escritora que, nalgumas páginas, me lembra um pouco Virginia Woolf, apenas nalgumas páginas. Fiquei com uma dor nas costas. Mas o Suskind sumiu.

Ao ver passar, opulentos e refulgindo, tanto bichinho da prata, percebi o destino do Suskind. Atirei-me a eles e foi uma matança. Mas ouço rir os sobreviventes. Afinal, eles já cá estavam quando os homens ainda eram um projeto. E cá vão continuar quando os homens forem apenas memória. Memória dos bichinhos de prata que entretanto se tornaram uns valentes sabichões.

 

Excerto de "A VALSA", de Dorothy Parker, escritora americana do séc. XX. Este conto tem a duração de uma valsa.😀

O que pensa a mulher que se vê obrigada a dançar (protocolo da época) com um homem que detesta. Aqui vão umas migalhas do seu pensamento.

"................. Quando um homem nos pede que dancemos com ele, o que se há de dizer? Não vou, primeiro havemos de nos encontrar no inferno? Ora essa, muito obrigada, gostava imenso, mas estou com as dores de parto? Oh, sim, dancemos — é tão agradável encontrar um homem que não se importa de ser contagiado pelo meu tifo?

Não, não podia fazer outra coisa senão dizer: estou encantada.

Bem, vamos acabar com isto. Pois bem, Cannonball, vamos por esses campos fora. Ganhaste a partida; és tu quem guia." (…)

UM MODELO DE COMO NÃO SE DEVE FAZER TELEVISÃO

 "CAMILLE CLAUDEL", um documentário, que passou na RTP2, sobre a genial escultora.

Um modelo de como não se deve fazer televisão. Um modelo de pedantismo serôdio.
Pretensamente erudito, cheio de música sacra, de fragmentos de uma peça de teatro (que talvez fosse interessante) mas totalmente descontextualizada, entre frases patéticas e hipócritas.
As mulheres naquela época (finais do séc. XIX) não tinham direito a exprimir o seu génio e, embora o documentário quisesse redimir Rodin, a verdade é que ele foi um dos inimigos de Camille, sua ex-amante e rival artística. Rodin sentiu-se ameaçado pelo talento dessa mulher que não conseguiu transformar em eterna discípula e serva e pressionou o ministro de belas artes a cancelar os pagamentos das suas obras em bronze, condenando-a à miséria.
Camille era odiada pela família, pela sua piedosa mãe e pelo seu piedoso irmão, Paul Claudel. Mantiveram-na sem dinheiro, até a levarem à loucura. Depois, encerraram-na num hospital psiquiátrico onde viveu 30 anos, proibida de modelar, de esculpir, de se exprimir. Até ao extremo de a proibirem de escrever cartas. Um médico, o Dr. Brunet, ainda mandou uma carta à mãe de Camille pedindo que tentasse reintegrar a filha no convívio familiar, porque ela não estava louca, mas nunca recebeu resposta.
Camille era um gênio, mas era mulher e nunca conseguiu afirmar-se em vida. Apenas o seu pai a ajudava e compreendia. Morreu cedo e deixou-a exposta ao preconceito. Aa 90 peças da sua obra que lhe sobreviveram permitem-nos, graças a Deus, reconhecer o seu génio, apesar de Paul Claudel, apesar de Rodin.
Não será este documentário pretensioso e pedante que limpará o crime desses dois homens, porque felizmente ficaram provas. Quantas mulheres não terão sido sufocadas, quantas não terão visto o seu talento destruído, sem que o crime dessa destruição tivesse deixado rasto?