Resisti durante meses e meses a ver esta série da Netflix. Perante a
pobreza que caracteriza a maioria das produções deste canal e as opiniões
positivas que ouvia sobre a verdade, é certo que ficcionada, da dita série,
acabei por ceder e começar a vê.la religiosamente desde o início. Falta-me um
episódio para acabar a segunda season, mas aprendi, aprendi muito.
1. A rainha Isabel era uma senhora inteligente, arguta e virtuosa, tão
virtuosa que só é comparável a Nossa Senhora de Fátima com a vantagem de saber
dançar com elegância e agilidade o fox-trot.
2. A rainha Isabel era o verdadeiro timoneiro do Commonwealth (bem-estar
comum, mais comum a uns do que a outros). A sua ligação ao divino através da
coroa que lhe puseram na cabeça vai se desenhando devagar, mas com
persistência.
3. Os líderes dos países africanos, Egito, Gana, etc. eram uns bandidos e
simultaneamente uns totós ignorantes tal como a população africana que apoiava
as ideias independentistas destes lacaios do comunismo
4. Sobre a independência da India (como se atreveram os indígenas a este
ato desrespeitoso?) e criação do Paquistão, uma das maiores chacinas da
História, nada se diz, nem sobre o papel nessa sangria do primeiro-ministro
Winston Churchill e de lord Mountbatten tio do príncipe Philip, o marido da
rainha.
5. A Austrália e os seus testes nucleares que mataram centenas senão
milhares de aborígenes, nem pio. África e a sua população, vista como um
conjunto saloio ignorante, é o bombo da festa.
6. No campo dos casos do dia, temos o caso da senhora Kennedy, representada
por uma atriz escanzelada, de aspeto doentio e esfomeado, em que as roupas não
assentam nada bem e cujo visual nada tem de charmoso. Além do tudo o mais a
rainha dá-lhe uma lição poderosa sobre qual a mulher mais bonita e inteligente
do mundo (a saber a rainha herself), enquanto recebe a desgraçada senhora
Kennedy, comendo uns scones com manteiga e compota, perdão manteiga com uns
scones e compota, e mandando às urtigas o protocolo. Classe é classe!
7. Não posso esquecer o Príncipe Philip, marido da rainha, desmiolado
mulherengo que a rainha converteu em bom marido e em pai empenhado, com uma
visão muito própria da pedagogia baseada na sua coragem, tenacidade e bravura
juvenis que lhe moldaram o caráter digno de um líder. Pois o bravo Philip que
muito sofreu construiu em jovem um muro à chuva e ao frio gélido, sozinho,
acarretando tijolos de dezenas de quilos e segurando grades de um portão de
peso incalculável. Esta pedagogia baseada na humilhação e na indiferença vai
ser aplicada a seu mando no filho Carlos que descreve estes anos de martírio
como anos de “prisão, viver no inferno”. Um ponto para o Carlos.
8. O Philip que passou à história como um desbocado era simplesmente um
HEROI, completamente
ilibado de um dos maiores escândalos da Inglaterra, o caso Profumo que, para
ele, foi mesmo só fumo.
Pois não sei se tenho coragem para continuar a ver a série embora já me
tenham garantido que a melhor season é a quarta. Para mim, “The Crown” tem sido
uma lavagem da História e uma forma de tornar a rainha uma lenda (sina das
Isabeis inglesas) e mostrar afinal, apesar de todas almofadas que a CROWN é o
Commonwealth, ou seja, o império britânico outrora o mais poderoso da Terra e
que se tem vindo a esfarelar com a ajuda dos seus aliados em geral e com
especial relevo dos EUA. Malhas que o império tece…