domingo, 25 de fevereiro de 2024

HAJA DEUS

 Pego no livro. Na capa, o título, o nome da autora e em destaque - "Obra recomendada pelas metas curriculares de Português para o 4º ano de escolaridade. Plano nacional de leitura."

Vamos ler, penso eu. O número de páginas coloridas de entrada não me agrada. Umas frases poéticas de cliché e uma declaração em página com fundo branco: Por vontade expressa da autora, o texto desta obra não adopta as normas do Acordo Ortográfico de 1990. Continuo. Páginas com fundo azul claro, cinzento claro, rosa claro em que texto é aberto em caracteres brancos. O texto é longo e (desculpem) pateta.
Que sorte que eu tive! Quando andava no quarto ano lia textos com letras pretas sobre fundo branco. Os textos eram escritos com a Ortografia que a professora me ensinava. Foi no 4º ano (4ª classe como se chamava então) que me apaixonei pela leitura ao ler textos que falavam de búfalos, de caçadas, de desertos e tinham descrições extensas que me faziam sonhar. Não lia textos patetas sobre a bruxa boa que saltava de flor em flor.
No 5º ano (então primeiro de um novo ciclo) deslumbrei me com o terceiro bloco de "O Suave Milagre", com "A Aia" e com a descrição da subida para Tormes de "A Cidade e as Serras" ("Serra bendita entre as serras!"). As histórias tinham sempre uma ponta de mistério e de aventura que me faziam ler sem parar. O suspense era tanto que às vezes tinha de ir espreitar o fim.
Que sorte que eu tive de não darem a ler estes textos xaroposos, tão mal apresentados que exigem um bom par de óculos ou uma lupa e uma infinita paciência. (Não menciono autor nem editora, mas são proeminentes. Haja Deus!)