Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
não veem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
(…)
Na obra “Non (Nu)”, Ionesco (dramaturgo nascido na Roménia, naturalizado francês) expressa, com humor e teatralidade, as suas opiniões sobre a crítica literária. Para ele, no campo da crítica literária todas as opiniões são válidas. Sem o humor deste dramaturgo, sinto que todos os acontecimentos maiores ou menores da atualidade permitem interpretações diversas e podem ser observados em diferentes ângulos mais ou menos visíveis.
Esta condição que permite uma subjetividade tantas vezes orientada por uma objetividade premeditada é cada vez mais evidente para o cidadão em geral que pressente, por trás do que lhe é transmitido como a verdade das verdades, múltiplas nuances e múltiplas inverdades. Este fenómeno que sempre existiu, mas que se tornou numa autêntica praga gera a dúvida e a descrença, nuns casos desejada por fazedores de opinião, noutros frustrada. Caso para concluir como Ionesco que no campo da realidade social e política todas as opiniões são válidas? Ou como diz de uma forma tão clarividente Gedeão: “eu vejo no mundo escolhos onde outros, com outros olhos, não veem escolhos nenhuns”.
Talvez não seja esta a conclusão que eu pretendia. Na verdade, preferia que a perplexidade perante as variadas leituras de determinados acontecimentos levasse as pessoas a uma busca em diferentes fontes de informação, já que observar “in loco” é impossível para quase todos nós e para a maioria senão totalidade dos acontecimentos.