Ora, em minha casa, há livros em todas as divisões
e alguns guardados com tal devoção que nem eu me lembro já que naquele especial
lugar coloquei um grupo de livros também ele especial, para reler.
Foi uma tarde longa e extenuante, à procura de "A
história do Senhor Sommer", a pedido do meu neto. Na pista dos livros do
Suskind, porque o senhor Sommer devia estar lá no meio, deitei abaixo estantes
e estantes, limpei cantos e recantos. Toneladas de pó, livros esquecidos,
autores esquecidos.... Tanta coisa para ler. Já não vou ter tempo de ler o que
não li nem reler o que adorei. Pelo caminho, encontrei a Dorothy Parker. Abaixo
publico um excerto de um conto desta escritora que, nalgumas páginas, me lembra
um pouco Virginia Woolf, apenas nalgumas páginas. Fiquei com uma dor nas
costas. Mas o Suskind sumiu.
Ao ver passar, opulentos e refulgindo, tanto bichinho da
prata, percebi o destino do Suskind. Atirei-me a eles e foi uma matança. Mas
ouço rir os sobreviventes. Afinal, eles já cá estavam quando os homens ainda
eram um projeto. E cá vão continuar quando os homens forem apenas memória.
Memória dos bichinhos de prata que entretanto se tornaram uns valentes
sabichões.
Excerto de "A VALSA", de Dorothy Parker,
escritora americana do séc. XX. Este conto tem a duração de uma valsa.![]()
O que pensa a mulher que se vê obrigada a dançar
(protocolo da época) com um homem que detesta. Aqui vão umas migalhas do seu
pensamento.
"................. Quando um homem nos pede que
dancemos com ele, o que se há de dizer? Não vou, primeiro havemos de nos
encontrar no inferno? Ora essa, muito obrigada, gostava imenso, mas estou com
as dores de parto? Oh, sim, dancemos — é tão agradável encontrar um homem que
não se importa de ser contagiado pelo meu tifo?
Não, não podia fazer outra coisa senão dizer: estou
encantada.
Bem, vamos acabar com isto. Pois bem, Cannonball, vamos
por esses campos fora. Ganhaste a partida; és tu quem guia." (…)