sexta-feira, 12 de julho de 2013

Saudades de um passado que nunca existiu: 1. Explicadores e explicações

Ligo a televisão e ouço elogios à escola do passado, aos alunos do passado, aos professores do passado. Uma escola que produzia excelência,  graças a programas de excelência e a professores de excelência. Onde a disciplina era exemplar, os pupilos cantavam o hino nacional e tiravam o boné, se o traziam, ao passar em frente à bandeira, respeitavam a ordem e os mestres.

Eu que sou do passado não conheci essa escola e tenho muita pena porque devia ser mesmo uma experiência que poderia ajudar-me a educar os meus netos e a falar-lhes desse passado glorioso.

Lembro-me que depois da chamada quarta classe, os alunos podiam seguir três caminhos. Três, muito mais do que agora que só podem seguir um.

O primeiro e mais concorrido dos caminhos era o trabalho. Costureira, bate-chapas, marçano, moço de recados e uma infinidade de hipóteses do mais largo alcance social e cultural.  Muitos que o faziam não escolhiam este caminho por vocação ou por falta de jeito para os estudos, mas por pura necessidade. Por isso, alguns floresciam como autodidatas, o que hoje muito se aprecia. Os autodidatas do antigamente.

O segundo caminho era a escola técnica que dava direito a tirar um curso técnico. Aqui havia uma maior variedade de hipóteses para explicar a escolha. Os alunos mais fracos eram aconselhados pelos respetivos professores e pela voz corrente a escolherem um curso comercial ou um curso industrial porque era mais fácil e mais curto. É claro que também era mais barato e daí haver alguns alunos excelentes que davam entrada nestes cursos por falta de meios para escolherem a terceira via. Sobre estas escolas falarei um dia.

O terceiro caminho, o mais digno e cobiçado era o liceu. Em princípio era apenas destinado a bons alunos mas, é claro, que podemos acrescentar e a gente rica.  Contudo com a tal exigência de que tanto se fala atualmente, como poderiam estes alunos aguentar?

Muito melhor do que aqueles que entravam apenas por mérito. Com os explicadores. Ser explicador era uma carreira profissional muito estimada e concorrida. Havia quem vivesse muito bem uma vida inteira desta profissão. Para isso, era necessário ganhar fama. Assim, se um aluno tinha dificuldades em determinada matéria e não tinha em casa quem o pudesse ajudar, os pais iam informar-se quais os melhores e mais conhecidos explicadores de matemática, de latim, de física, de francês, de inglês, de tudo.

Eu própria, que nasci numa família de muitos irmãos, fui pontualmente ajudada, com grande sacrifício dos meus pais,  nas áreas mais abstrusas, nomeadamente em francês.  A qualidade de um explicador media-se pelos truques que ele ia adquirindo com a experiência e que se resumiam a conseguir que o aluno passasse de ano e/ou tivesse um bom resultado no exame. Os exercícios eram sempre do mesmo tipo e eu própria que também dei explicações (que remédio) para ajudar os meus irmãos, consegui a proeza de as dar em todas as áreas, das humanidades às ciências, e fazer que uma das minhas explicandas, boa menina mas com a cabeça à prova de ideia, entrasse no curso de engenharia, que concluiu ao fim de alguns anos de trabalho e muito esforço.

O truque era adivinhar o que poderia sair nos exercícios, a forma como as perguntas poderiam ser redigidas e a resposta adequada a cada caso. O empinanço fazia furor. E notem que nada tenho contra o empinanço no sentido de memorização de alguns conteúdos e até lamento que se tenha descuidado este aspeto no ensino das línguas, porque decorar textos (interessantes ou bonitos como dizíamos) dava-nos um sentido do ritmo da frase, permitia-nos saborear as palavras e gostar enfim da nossa língua e doutras que íamos aprendendo. Decorar, como se dizia e ainda diz com desprezo, é importante em muitas situações académicas e em muitas outras de caráter mais prático e rotineiro. Mas o empinanço era um exercício que apesar de treinar a memória era meramente transitório e puro desperdício. Enchia-se a cabeça na ânsia de a esvaziar mal o objetivo estivesse cumprido. Porque o que se empinava não fazia sentido.

Floresciam livros de exercícios como o célebre Palma Fernandes que cobria as 1001 hipóteses de problemas e de expressões e de equações matemáticas de diversos graus e dimensões. Aprendi tão bem essas equações e expressões que no sexto ano comecei a dar explicações sobre elas. Era como quem faz um puzzle pelo  gozo de conseguir encaixar mil peças. Nunca percebi para que serviam, mas os meus explicandos, meninos do liceu, tinham positiva nos exercícios e esse era o objetivo final de todo aquele empinanço.

Na verdade, havia ainda outro recurso que era uma espécie de dose reforçada de explicações. O colégio. Era uma vergonha ter de se admitir que se frequentava um colégio, porque só os alunos em risco de perder o ano o faziam. Mas na verdade muitos alunos de boas famílias fizeram esse percurso ínvio e agora são os defensores do passado, da exigência, da escola do antigamente. O que não é de espantar. Não perceberam que o tempo passou, as circunstâncias mudaram, que o tempo não volta atrás nem se repete, não perceberam que frequentaram uma escola que precisava de novos alicerces. O que não é de espantar. Afinal o ensino não era de excelência. De excelência eram algumas cabeças que então como agora passam pela escola. Agora é mais fácil que elas floresçam. Então era bem mais difícil. Mas isso eles nunca vão perceber.


4 comentários:

  1. Belíssimo e rigoroso retrato de uma época e de um sistema. Abraço, António Ferra

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  2. Maria Alzira , obrigada pela informação do seu blog. Concordo inteiramente consigo , a escola do passado não tinha graça nenhuma,também andei lá e não tenho recordações nenhumas de jeito.Fiz um programa na RTP 2 com escolas e fiquei fascinada com as instalações, com o à vontade dos meninos, com o lado afectuoso dos "stores" com a capacidade verbal dos alunos, com a sensação de igualdade entre meninas e rapazes , deslumbrada mesmo.No entanto como entidade empregadora estranho que me apareçam jovens acompanhados dos pais para a entrevista de trabalho quando já têm 23 anos e acabaram de sair da faculdade ( como sabe emprego alguns jovens no final do curso à tarefa) com a incapacidade de lidarem comigo,acho que alguns nem sabem como me tratar , só sabem dizer tia , não sabem tratar os adultos pelo nome próprio nem cumprimentar de aperto de mão, com os pais e mães que ligam a saber a que horas chegam a casa e com alguma ignorância no que diz respeito ao mundo politico e social actaul e ainda com o gosto que têm em ver reality shows que só envergonham sabendo os nomes de todos os concorrentes e falando deles como se aquilo fosse para tomar a sério.Tenho pensado muito nisso e não consigo perceber porque é que a escola é tão mais gira agora e os profissionais são tão fracos. Aceito sugestões !
    Um abraço, Teresa ( paixão )

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    1. Teresa, antes de mais muito obrigada. É de testemunhos vividos,como o seu, que precisamos para repensar a educação. Não fazê-lo com a lamurienta e triste conversa de que no passado era tudo fabuloso, no passado é que era, colocando uma mancha sobre os jovens "ignorantes" e "incapazes" do presente. Matando-lhes a auto-estima. Não retiremos, porém, ao passado aquilo que ele tinha de bom e que pode e deve permanecer. Tenho muitas ideias sobre temas muito variados para escrever. Muitas delas resultam de discussões que tenho com amigas ligadas ao ensino e outras da observação que faço das crianças com quem convivo, entre elas os meus netos. Tudo isso são motivos de reflexão e me sugerem textos. Tenho pena de me sentir tantas vezes cansada, totalmente exausta, e não me dispor a escrever. Mas sinto que há uma necessidade muito grande de expor pontos de vista, vivências, de não nos deixarmos levar por esta perigosa onda nostálgica que nos impede de ver o mundo que se desenha na nossa frente tão diferente daquele em que vivemos no passado, que pede para ser lentamente construído, olhando para a frente, mas no qual devemos plantar o que o passado tinha de bom. E apenas isso.

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