Sinto-me
ofendida quando ouço na televisão notícias sobre os resultados dos exames de Português.
Parece que têm vindo a piorar.
A
notícia é dada com indiferença quando se trata de um apresentador e com uma
expressiva alegria por outras personagens que povoam o mundo televisivo. É como
se falassem sem palavras: “Então? Nós sempre dissemos que os alunos estavam mal
preparados, que não sabem nada, dão erros de meia-noite e não conseguem
perceber nem uma linha do que leem, para lá da falta aterradora de cultura
geral.” Esta é a prova do teorema que apresentavam. (Parece que a palavra “teorema”
começou por significar espetáculo ou festa.) E para estas personagens este é o espetáculo, a festa pela
qual ansiavam. “Ah!” pensam e dizem, “mas as coisas vão entrar nos eixos. Olá
se vão! E o Português vai ser uma disciplina a sério, difícil, temível, que
exige esforço, que tem recantos obscuros, nomenclaturas impenetráveis, em suma
que exige um explicador. Tornar-se-á finalmente a tal disciplina basilar, como
a matemática, pois como os resultados postulam, os alunos ainda falam e
escrevem pior do que resolvem problemas matemáticos.” Neste ponto duas considerações laterais:
- Existe uma linha linguística depurada e seca que parece dar cartas atualmente no ensino do Português. A linha semântica, mais explicativa e exemplificativa está muito abandonada. Os resultados desta visão são ainda pouco perceptíveis, mas permitem adivinhar que realmente os alunos irão mesmo detestar a sua língua.
- A ideia de fazer do Português (escrever e ler) e da matemática (fazer contas) as disciplinas base de qualquer formação e ignorar todas as outras situa o pensamento educativo na época industrial. Mas passemos à frente.
Como
todos percebemos por trás deste afã em exibir, na televisão e nos outros meios
de comunicação, os péssimos resultados obtidos pela população estudantil em
Português, existe um objetivo de natureza política que nos tenta convencer que
a escola está mal, que os resultados estavam a ser inflacionados e, de novo, que
antigamente nada disto acontecia. Pululam nas redes sociais as listas de
disparates escritos por alunos, risíveis porque denotam uma aterradora falta de
cultura geral, os textos com erros grosseiros como se quem os escreveu tivesse uma
noção fonética tão perfeita que os tornou verdadeiramente a transcrição dos
sons que pronunciamos. A falácia destes textos é que ninguém escreve assim, a
não ser que o faça de propósito.
Bem,
eu queria dizer que estas listas são mais antigas do que o Matusalém e comuns a
uma série de países. No fundo, a geração mais velha ri-se da mais nova e
procura valorizar-se como se no seu tempo nada daquilo acontecesse. Engraçado é,
quando nos encontramos em serões com pessoas dos 40 para cima, verificarmos que
todas tiveram colegas cuja ignorância os imortalizou e deu origem a imensas
anedotas. Porque outrora (numa amostra significativamente mais pequena do que a
atual) também havia muitos estudantes a caminho da universidade e outros que já
a frequentavam, cuja cultura geral era fraquíssima e que davam erros de
ortografia. Ao escrever isto a imagem de uns quantos salta lá do fundo da minha
memória. Porque afinal a ignorância não era assim tão diferente. Havia era um
número muito mais pequeno de alunos. Ou será que a ignorância até era
diferente?
Havia
realmente uma diferença, se recuarmos ao tempo da perfeição absoluta. A palmatória! Essa mestra de cinco olhos infundia
o terror necessário para pôr uma população escassa (porque o analfabetismo era
a norma) a escrever com poucos erros de ortografia, havendo aqui também umas nuances
dignas de registo. Como a palmatória resultava para esta e para outras
situações, além de criar no espírito dos castigados aquela submissão natural
que dava tanto jeito a todos, em especial aos que, mais tarde, viriam a
usufruir do trabalho devotado dos passivos cidadãos, vá de se pensar atualmente,
em surdina, em formas ditatoriais de impor disciplina e de transmitir
conhecimentos. Em surdina, pelo menos por enquanto.
Mas
antes de continuar deixem-me só fazer um parêntesis. Escrever sem erros é bom,
mas importante é escrever sem medo. Escrever, escrever em Português. O
computador até nos alerta para as palavras que estão mal escritas...
Estas
ideias sobre a ignorância, o diletantismo dos professores, o descalabro da
escola vão-se semeando lentamente e, se ouvirmos o senso comum, a opinião de
que os alunos agora não sabem nada e só vão para a escola para aprender maus
hábitos alastra como uma mancha de óleo e está arraigada nas classes mais
exploradas, que extravasam o seu mal-estar e a sua revolta não contra os
poderosos, já que não têm poder para isso, mas contra os jovens. Porque são
jovens, porque riem e são felizes, porque têm ou tiveram oportunidades que eles
não tiveram. À medida que escrevo são tantos os subtemas que receio transformar
este post num maçudo tratado desalinhavado sobre problemas educativos e
sociais.
Voltemos
ao tema. Eu pensei, ingénua cidadã, que a notícia dos resultados cada vez
piores nos tais exames de Português tirasse o sono a muita gente, em especial
aos responsáveis pelos assuntos educativos (abstenho-me de referir nomes). Mas
não!
Pois
a mim tira-me o sono e deixa-me completamente frustrada. Então a língua materna
não devia ser um matéria escolar que deixasse lembranças agradáveis? Não nego
que para aprender é necessário o esforço, mas também é necessário prazer. E o
prazer deve anteceder o esforço, porque caminhamos mais depressa quando sabemos
que aquilo que conseguiremos é algo que vale o nosso suor. A memória de páginas
belíssimas escritas na nossa língua, o
som das palavras, o prazer de escrever, a habilidade para o fazer em diversas
situações, a capacidade de compreender, saber expor um pensamento, saber falar,
ir ver uma peça de teatro e apreciá-la, ler um livro e encontrar nele um oásis
no meio das dificuldades do quotidiano. Até me esqueci da ortografia, porque no fundo
acho que ela vem por arrasto quando todas as outras coisas são valorizadas. Eu queria que isso acontecesse com a minha
língua. Não chega já a quantidade de falantes do Português que se escoa para o
estrangeiro e que a breve trecho domina melhor a língua do país para onde foi
do que a sua própria, não chegam já as piadinhas sobre o Português do Brasil,
agora estamos a preparar uma geração que diz. “Não, Português não. Podemos estudar
outra coisa qualquer, mas Português não.”
Terei
sido suficientemente clara sobre o que queria dizer? Não considero que a escola
atual seja um produto acabado e perfeito. Muita coisa há para fazer e, com o
desfazer acelerado de tantas, cada vez há que ter mais cuidado para evitar que
se destrua aquilo que devia ficar. Não olhar o passado seria também muito
tonto. Aquilo que foi feito, o salto enorme que a escola deu nos últimos anos
não pode ser escamoteado, como não podem ser escamoteadas as muitas arestas que
precisam de ser limadas. Há que abrir novos caminhos para o futuro,
considerando que ele é muito diferente do passado, mas preservando o legado do
passado ou dos passados que vale a pena preservar ou ressuscitar.
Hoje
queria fazer algumas considerações polémicas sobre a aprendizagem da língua
materna, mas não consegui esquecer o pasmo com a naturalidade e aceitação com
que se diz que os resultados no exame de Português pioraram de novo este ano.
Não consigo. Que querem? Afinal nós somos na nossa língua, que nos forma e
informa, e não há maior tristeza do que esta de aceitarmos que tantos jovens a
detestem cada vez mais.
Que belo post, e original! ;-)
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