sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

AS TRÊS SOMBRAS DE GREY

JÁ AGORA TAMBÉM POSSO SER COMENTADORA E NÃO RECEBO NADA

Um programa de rádio e de televisão que é o espelho perfeito da mediocridade que grassa neste país, e provavelmente noutros. O Governo Sombra replica a famosa trilologia FADO, FUTEBOL e FÁTIMA, herdada do longo período da ditadura portuguesa. Três ícones representados pelos três comentadores que integram o programa e se desdobram num afã de provar que o único caminho que nos resta é aquele que foi seguido "quase" magistralmente pelo governo de Passos Coelho, que a austeridade pura e dura é a única via. 

FÁTIMA representada por P. M., fiel da balança e reconhecido intelectual da nossa praça, o que em português corrente equivale a dizer que é um grande leitor e não há livro que lhe escape. Émulo do M. R. S., este comentador esforça-se por dar um ar sério e respeitável (coisa que os Portugueses adoram) ao programa, e de uma forma encapotada ir abençoando as farpadas e graçolas dos outros dois. 

O FUTEBOL e o FADO são um pouco arbitrários, mas vou atribuir ao J. M. T. o pelouro do futebol, porque sabe dar pontapés sempre na mesma direção à procura da imaginária baliza e de um golo. As intervenções lamentáveis deste dito "jornalista" (pelo menos tem uma licenciatura na área e numa excelente Universidade) envergonham qualquer verdadeiro jornalista. 

O FADO é mais um RAP, mas, como todos sabemos, o fado pode cantar-se de muitos modos e é diariamente assassinado em numerosas tascas. O RAP, que nem se dá ao trabalho de se preparar para o programa, entristece-me porque se esperava dele algo mais do que a trístissima figura que faz semanalmente. Mas os 10 mil euros, que estes três ilustres comentadores recebem, são dez mil euros, e a "austeridade" é para todos, assim em nome destes chorudos milhares se vai degradando RAP, num programa degradante.

PS. Para escrever este "comentário" sujeitei-me a ver a gravação de vários programa, mas alguns não consegui vê-los até ao fim.

APERFEIÇOANDO O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

As vozes contra o Novo Acordo Ortográfico foram-se erguendo mais e mais alvoroçadas à medida que o tempo ia passando. Como um tiro que se tornasse mais nítido quanto maior fosse a distância que percorria. Aos vagos murmúrios que se ouviram durante o seu processo de aprovação seguiu-se um bramido que aumentava nítida e velozmente porque se propagava nas entranhas da pátria e o meio de propagação mais rápido do som é o meio líquido.

Gastemos, pois, uns milhares de euros e paguemos a uma comissão de "sábios" para salvar a Língua Portuguesa e inocular de novo nos aprendizes um acrisolado amor pela mesma. Assim como assim já pagamos a outra comissão para fazer o Acordo. Acrescentemos 7 Ps, 5 Cs, dois acentos gráficos e 3 hífens a cada livro de ensino e os problemas ficam resolvidos. O gosto pela leitura volta, os erros de ortografia desaparecem, a compreensão do que se lê é garantida. Porque realmente o mal está ali no Novo Acordo Ortográfico que perturbou a aprendizagem e confundiu as crianças,

Os "ofendidos" terão finalmente a certeza que não há qualquer relação entre o cágado e o cagado, a minha vizinha deixará de confundir a bactéria com a bateria, e os jovens vão substituir os livros velhos por livros novos e imaculados, sob o altissonante  aplauso e os gritos de júbilo das editoras, a bênção dos "sábios"  e dos "entendidos" que se de tudo sabem porque não hão-de saber de uma coisa tão simples como é a educação, ou melhor dizendo, uma ínfima parcela desse processo, o ensino do Português.

Efetivamente, todas as pessoas que conheço sabem o que se "devia" fazer para erradicar a pobreza cultural, os erros de ortografia, a ausência de vocabulário e de ideias de um quantidade "enorme" de alunos,  E jamais se esqueceriam que esse problema começou com o AO, que introduziu montes de coisas novas (que nada têm a ver com ortografia) e que impedem os pais, mesmo os letrados, de perceberem o que raio é que os alunos aprendem quando aprendem Português.

Um dessas coisas novas é a nomenclatura gramatical. Claro que a palavra "nomenclatura" não está ao alcance de muitos dos peritos do cágado e do cagado e da bactéria e da bateria. Mas isso é de somenos importância.  Para eles existe uma amálgama feita de ortografia e de conceitos gramaticais misturados com recursos estilísticos e mais uns pozinhos de uns quantos escritores que escrevem um Português diferente da norma e que de vez em quando saltam lá do fundo, para confluirem nesse caos linguístico que faz sentir tais peritos perdidos e os leva a declarar: "Eu não percebo nada do que eles estudam".

E não percebem eles e, muitas vezes, não percebo eu. Mas isso nada tem a ver com o Novo Acordo Ortográfico. A questão é muito mais vasta. Por agora, esperemos que acrescentados os tais Ps e os tais Cs que tanto nos humilharam, colocados no sítio alguns acentos e alguns hífenes que os "ofendidos" nunca souberam onde se punham, as crianças e jovens comecem finalmente a recitar um canto dos Lusíadas por cada ano de escolaridade, e para os que vão até ao 12º sugiro ainda "A crítica da razão pura", de Kant e  "Os manuscritos do Mar Morto" (nada mares muito revoltos para não dar ideias aos jovens, que ideias disparatadas já eles têm muitas, coisa que nós, graças a Deus, nunca tivemos).

E viva a Língua Portuguesa!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

HOMENAGEM A MINHA MÃE

AUGUSTA MARIA CABRAL

Vila Nova de Monforte, 21 de Dezembro de 1918 – Porto, 2 de Junho de 2009


Menina, Mãe, Avó, Bisavó Augusta Maria, 


Passeias agora de mão dada com o companheiro da tua vida, o teu José, no souto do teu pai. Os ramos fortes e largos dos castanheiros espalham a sombra tranquila. O chão está coberto de folhas e nos ouriços abertos espreitam as castanhas polidas. Junto ao tronco há cogumelos que tu sabes distinguir e vais apanhando e colocando na cestinha que trazes no braço. O teu irmão Manuel foi à caça e não tarda a chegar. Hoje haverá perdizes para o almoço.
Por entre a ramagem outonal e densa dos castanheiros brincam raios de sol. Ao longe adivinham-se os campos da Primavera cobertos de alfazema. A cerejeira, que o teu pai plantou, inclina os ramos, carregadinhos de cerejas, até ao chão.


Como estás feliz. O teu rosto de pele de veludo brilha ao sol, o verde
dos teus olhos irradia luz e o teu corpo,
finalmente liberto de dor, respira o ar livre da montanha onde nasceste. 


Apertas com mais força a mão do teu companheiro e olhas para trás os que te seguem, os teus filhos Nuno, Alzira, Rodrigo, Eurico e Jorge, os teus netos, Pedro, Joana, Ana, Marta, David e Clara, os teus bisnetos, Rafael, Rodrigo, Orane, Matilde, Francisco. Consegues ver ainda mais longe, os que virão daqueles que nasceram de ti.  

Hoje todos se vão sentar à mesma mesa e celebrar a Vida. Por isso sorris.