You know you work hard, try to
provide for the family, and then for one minute everything's good. Everyone's
well, everyone's happy. In that one minute, you have peace.
OX CALLAGHAN, negociante de mobília
Escrever sobre
estados de alma, como é o caso da felicidade, acarreta uma propensão
vertiginosa para o terreno do lugar-comum e da banalidade. Concorrente da
felicidade nesta propensão está a lusitana saudade sobre a qual se escreveram
já milhares de linhas sem qualquer interesse para quem sente saudade, mas muito
interessantes para registar num postal, numa porta, ou num epitáfio.
Se percorreres
a Internet, caro leitor, encontras um manancial de citações e de textos sobre a
felicidade que teriam sido escritos, de acordo com as pessoas que lá os
colocaram, por renomados nomes da literatura, os suspeitos do costume na calda “incultural”
ou se quiseres da “cultura fake” dessa rede que a todos nos une.[1]
Platão, Mário Quintana, Clarice Lispector,
Fernando Pessoa, Rousseau, Marco Aurélio, Oscar Wilde, e muitos outros nomes
que a memória humana consagrou como “universais”, a par de outros que a minha
ignorância desconhecia, como Van Dyke (creio que não é o pintor), Geraldo Eustáquio de Souza. Carmen Sylva (pseudónimo literário de uma rainha consorte romena,
que me foi apresentada ad hoc) são alguns dos autores dessas pérolas. Para este
efeito, jamais me darei ao
trabalho de verificar se realmente o são ou não. Nessa abundância de citações encontramos
desde o bacoco ao surpreendente. Transcrevo algumas para que tu, esforçado leitor,
avalies o seu mérito, sem te deixares influenciar pelas minhas palavras.
“A amizade é
uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da
felicidade um do outro”, retirada indubitavelmente de um diálogo ou de uma carta
de Platão que se perdeu e que o citador encontrou e autenticou. Não se refere
esta citação propriamente à felicidade, mas a uma das chaves platónicas da
mesma.
“O
segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” teria
escrito Alexandre Herculano, mas Bernanos plagiou a mesma citação, trocando
apenas a ordem das palavras: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é
o segredo da felicidade”. Como percebes facilmente, estas citações são todas
autênticas e retiradas de fontes legítimas. De qualquer modo, esta merece o
título da mais banal, por se repetir e repetir a ideia mais repetitiva deste
mundo de citações.
Freud
não podia ser ignorado até porque a sua pesquisa teve, em última análise, o objetivo[2]
de descobrir as razões da infelicidade humana, a qual resultará das
contradições entre os impulsos sexuais e a vida em sociedade, ou,
prosaicamente, entre o homem natural e o homem civil, aqui entendidos de forma
totalmente oposta à de Rousseau. O famoso neurologista teria escrito: “A
felicidade é a realização de um desejo pré-histórico da infância. É por isso
que a riqueza contribui em tão pequena medida para ela. O dinheiro não é objeto
de um desejo infantil.” Não sei se ele escreveu isto ou não, mas a ideia de que
o dinheiro não gera felicidade tem sido glosada ad infinitum por gente
endinheirada. Infelizmente o conceito está um pouco distorcido, porque se é
verdade que o dinheiro não é fonte de felicidade, a sua falta então é uma quase
garantia de infelicidade.
Shakespeare teria
escrito esta surpreendente declaração: “É muito melhor viver sem felicidade do
que sem amor”, que pode candidatar-se desde já ao prémio da mais bacoca de
todas.
Finalmente,
vamos a esta de Érico Veríssimo, segundo a Internet, que dará entrada à minha teoria da
batata: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está
se passando inutilmente.”
Preparava eu uma sopa quando
verifiquei que as batatas redondas, de pele lisa e polpa firme, que tinha
comprado há uma semana, apresentavam agora uma consistência mole e a pele
emurchecida. Ora conheço perfeitamente este fenómeno. É que os músculos rijos
do meu corpo, que um dia uma massagista comparou à dureza da pedra, também amoleceram
com os anos e, em muitos locais, formam rugas e pregas, de acordo com a
dimensão do vinco. Comparei, pois, o meu destino ao das batatas.
Olhando para o cesto vi
outras meio apodrecidas que, numa tentativa derradeira e desesperada, lançavam
rebentos por todo o lado, pedindo para se transformarem noutras batatinhas. Imediatamente
a frase atribuída a Veríssimo me veio à cabeça. Estas batatas tinham ainda
esperança de tornarem útil a sua vida. Tal como eu, projetavam os seus anseios
no futuro. A verdade é que outros homens, consciente ou inconscientemente,
interferem muitas vezes com as minhas projeções, tal como eu interferia naquele
momento com o destino daqueles tubérculos quer decidisse semeá-los, quer metê-los
na panela.
Senti-me, por breves
instantes, a omnipotente deusa das batatas. Passaram diante dos meus olhos as
citações sobre felicidade que eu tinha lido na Internet e que constituem um abrégé do pensamento humano sobre o
assunto. Se “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos
outros” o destino destas batatas seria o de irem para a panela, onde
encontrariam a sua felicidade na alegria de me servirem de alimento. Destino
idêntico ao de muitos homens que nasceram apenas
para servirem outros, libertando-os da imposição de ganharem o pão com o suor
do seu rosto - uma fila imensa de crianças, homens e mulheres de todos os
tempos e lugares, que nasceram e morreram sem conhecer nada mais do que a
servidão. Há quem diga e escreva que isto é também uma forma de felicidade, sobretudo
quando alguém lhes mete na cabeça as frases da Internet, mas eu duvido e chamo
a atenção para o apenas que destaco na minha
afirmação. Recusei, portanto, a visão pragmática e cruel de usar as batatas na
sopa.
Dei-me, então, a pensar
no que teria sido a vida destes tubérculos, antes de eu os conhecer. Viveram no
quente ninho do húmus materno, foram apanhados da terra, tratados com desvelo,
lavados porque eram de boa qualidade, colocados num saco, enviados para o
supermercado. Um percurso monótono, idêntico ao de milhões de outras
desconhecidas batatas.
Neste ponto, alguém me
falou sobre o stress da batata que “… é uma cultura sensível à seca e a sua
produção sustentável está ameaçada devido a frequentes episódios de seca” … “A escassez de água durante o período de crescimento dos
tubérculos diminui o rendimento em maior extensão do que a seca durante outros
estágios de crescimento”.
Ora o stress hídrico é
uma grande metáfora para o Homem. O nosso
sangue contém 95% de água, a gordura corporal 14% e o tecido ósseo 22%. O
Homem precisa de água para o corpo e de água para o espírito e a produção sustentável
de homens está ameaçada devido a frequentes ataques de ignorância e de
imbecilidade e a toda a espécie de calamidades que o flagelam. O stress afeta de
forma danosa o homem no seu período de desenvolvimento inicial, gestação e
infância, e também fora desse período de crescimento. E tu, amigo leitor, que
já sofreste, na idade adulta, todo o tipo de stress, ou quase todo, sabes que
ele pode ser, em pequenas doses, um motor de ação positivo e que, em fartas
doses, se transforma em algemas que te impedem de seres feliz.
Cada vez mais indecisa
sobre o destino a dar às batatas, poisei a que tinha na mão. Peguei noutra de
pele lisa e esticada e, sem dó nem piedade, comecei a descascá-la. Por baixo,
da sua pele escondiam-se manchas castanhas, algumas que tinham penetrado fundo
na polpa. Também ela era vítima, tal como o Homem, de um mal oculto e invisível
que a destruía lentamente. E tanta semelhança com os humanos conduziu-me à minha
primeira decisão. Não usar nunca mais batatas na sopa.
Atravessei a rua e, num
arroubo lírico, fui plantá-las na horta urbana que fica a poucos metros de
minha casa, enquanto pensava com os meus botões: “Podeis ter tido uma vida
pouco agradável, com muita luz, quando gostais do escuro, mas vou fazer-vos
felizes. Ides voltar ao seio materno, reviver a vossa infância e dar fruto.
Ides transformar-vos noutras batatinhas. Sereis a semente e eu o agricultor que
de vós cuida. Far-vos-ei felizes e vocês a mim, pois poderei ver este meu gesto
dar fruto.” (Lá estava eu a projetar a minha esperança no futuro.)
Meti-as bem fundo na
terra, que é o sítio onde as batatas são felizes. E todos os dias as rego, para
evitar o stress hídrico. O meu problema é que elas vão multiplicar-se e a
superfície de semeadura terá de aumentar. A Terra tornar-se-á um imenso campo
de batatas, tal como já é um imenso campo de homens.
No fundo, no fundo, eu
sei que este meu gesto de nada adiantará e que as batatas vão continuar a ser
mastigadas, deglutidas e digeridas pelos homens, se o stress hídrico as não
fizer desaparecer.
Agora, caro leitor, vais
dizer-me que em vez de uma batata eu podia ter escolhido uma cebola, uma
cenoura, ou um nabo, para ilustrar este desabafo sobre a minha impotência
perante tantas situações do mundo que me tornam infeliz a mim e a milhões de
homens.
Mas não podia! Primeiro
porque não teria nenhuma história “verídica” para te contar. Depois, onde
estaria a lógica da batata da minha teoria? Finalmente, porque a vida de um
homem não vale, a maior parte das vezes, mais do que a de uma batata.
Todos aqueles a quem
contei esta história me exigiram uma conclusão, moralidade ou mensagem, em
suma, o caroço deste fruto. Sou generosa. Aqui deixo duas conclusões: uma sobre
a felicidade, outra sobre a batata. Só espero que não as copiem num mural ou na
Internet atribuindo-as a Aristóteles ou a Karl Marx.
Sobre a felicidade: Por mais infeliz que te sintas, nunca a
tua infelicidade poderá comparar-se à das crianças que nascem, vivem e morrem
sem saber que a palavra felicidade existe.
Sobre a batata: Explicar a felicidade ou a infelicidade a
partir de uma batata é tentador, mas nela não cabe a complexidade do Homem. Não
cabe na batata e, se queres que te diga, amigo leitor, não consegui imaginar
nenhum sítio onde essa complexidade caiba.
[1] Não sou de modo algum avessa à consulta da internet
como fonte de informação, bem pelo contrário, considero-a um poderosa e rápida
ajuda. Sou contra, sim, a utilização indiscriminada de tudo que nela se
encontra como verdadeiro. Em suma, é preciso uma certa atenção para não comer
gato por lebre, o que, aliás, hoje em dia é um preceito que se aplica a tudo o
que tem a ver com informação - digital ou em papel.
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