Sempre houve da parte dos que “chegaram
lá cima”, como diria a minha avó, ou como eu digo, dos que a sociedade
reconheceu como representantes da cultura – literária, musical plástica – uma
certa arrogância em relação aos que procuravam atingir um patamar idêntico. Com
os seus pezinhos delicados vão empurrando os que se agarram aos degraus da
escada. Se esses trepadores são apaixonados, persistentes, têm talento e alguém que
sustente a sua expressão artística, acontece serem reconhecidos após a sua
morte. Van Gogh é o modelo icónico destes artistas. Outros desistem pelo caminho
e vão fazer algo de mais rentável. O meu modelo icónico é o de um escultor
talentosíssimo e totalmente desconhecido, que deixou a arte para ir plantar
kiwis no Alentejo.
Todas estas considerações servem para chegarmos
a situações ridículas da sociedade contemporânea (provavelmente tais situações
aconteceram noutras épocas) que incensam em gritos de arrebatamento a
emergência de um conjunto de parasitas e representantes da mediocridade
cultural, com apoio de senhoras dondocas que pintam umas coisas e de políticos
falhados ou gente que tem algum dinheiro e certa notoriedade social, mas sobretudo
de uma generalizada ignorância.
Esta paracultura pode ser exemplificada
através de um indivíduo que conheci num convívio cultural. Apesar de não
conseguir escrever uma mensagem sem dar quatro ou cinco erros de ortografia,
nem alinhar duas ou três ideias com sentido, intitulava-se, e mais era
considerado por um vasto conjunto de “senhoras” e cavalheiros, um
poeta e um escritor.
Não vou transcrever aqui os versos sibilinos
deste poeta, mas a fórmula mágica que se perpetua ao longo da sua vasta obra. Seleciona
um conjunto de palavras, baralha-as em frases curtas e textos herméticos e de
uma “grande profundidade poética”.
Palavras como: intemporal, paradigma, vagabundo, existência, solitário crepúsculo,
demanda.
Donde saem poemas como este que faço ad
hoc para que aqueles que me lêem compreendam as possibilidades infinitas desta
fórmula.
POEMA
Na demanda intemporal do absoluto
Vagabundo paradigma de palavras
Um solitário crepúsculo irrompe
Pródigo de ausências e de saudade.
Resulta sempre.
Para um texto um pouco mais longo, podes experimentar a prosa poética. Usar sempre palavras como: o abandono, a ausência, a saudade, a dor, a hesitação, o cansaço, o abraço,
o inferno, a combustão, a fantasia, Eros, e todas as que usaste na poesia. O texto deve ter um tom triste.
Preferes ser pintor para realizar a tua
veia artística? Aqui vão alguns conselhos.
Usa cores puras - vermelho, azul,
amarelo - nada de tons intermédios.
Seleciona uma fotografia “inspiradora” do tipo “menino que chora” (Ex: a
silhueta de uma mulher com chapéu que olha o mar, os nenúfares do Monet, os céus
de Van Gogh, menina de saia rodada, rosto de mulher de cabelos compridos,
anelados e sedosos). Carrega bastante nas cores e acrescenta algo que traga uma
certa novidade ao tema. Ex: o sol com muitos círculos à volta para mostrar que
brilha intensamente, os cabelos da mulher a passarem diante do rosto.
Tens o
sucesso garantido e um conjunto de patetas a chamarem-me a atenção para o
requinte da tua obra. Podes crer que é verdade. Já assisti perplexa a uma cena destas,
E todos os teus admiradores terão uma licenciatura ou um doutoramento.
Ri0me bastante com este artigo. Eu ja conheci muitos destes! Portugal ta cheio deles.
ResponderEliminarAdorei o texto! Há pessoas que se sentem poetas e pintores à barda!
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