sábado, 27 de julho de 2019

NA MINHA BOCA



O Francisco não se cala um minuto. Sentado atrás de mim no carro vai palrando. Às vezes nem compreendo os longos discursos que ele faz. Mas tudo o deslumbra como se o mundo fosse um baú maravilhoso recheado de coisas fantásticas.
Hoje fica encantado ao descobrir que há água para limpar os vidros do carro.
- O teu carro tem água?
- Muita água, Francisco, para lavar os vidros que estão muito sujos.
- Leva à lavagem.
- Claro que sim. Já foste à lavagem com o papá?
Segue-se uma longa e complexa explicação sobre o local onde o papá leva o carro à lavagem que termina com a pergunta:
- E tu?
- A minha lavagem é perto da escola do Francisco.
- Gostas da lavagem verde? - pergunta ele.
Primeiro digo que não, mas como ele insiste na pergunta digo que sim.
- E da encarnada? E da amarela? E da azul? E da preta?
Fico baralhada, mas penso que ele viu lavagens de diferentes cores no YouTube.
- Onde é que o Francisco viu essas lavagens? No YouTube?
- Não.
- Então?
- Na minha boca.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

UMA PEDRADA NO CHARCO - A ORQUESTRA GERAÇÃO

Quando me falarem de Educação falem-me disto. Quando me falarem de inclusão falem-me disto.
Falem-me disto, falem-me de projetos concretos que dão fruto. Não me falem de avaliações trimestrais ou semestrais, de salas de aula em que os alunos são ou não são autónomos na aprendizagem, de métodos inovadores ou de pedagogias com um nome.
Quando me falarem de educação falem-me de iniciativas que mobilizam os alunos, que mobilizam a comunidade e que fazem mesmo a diferença. Deixem descansar o PIaget, a Montessori, e todos os pedagogos da Terra. Não os gastem com palavras.
Transformem o discurso em ação. Falem-me da ORQUESTRA GERAÇÃO, da grande orquestra, das pequenas orquestras, de quartetos, de coros, falem-me de grupos de dança e de espaços onde os jovens se sentem realmente valorizados. Não quero espaços bonitinhos, quero espaços em que os jovens se têm de empenhar para conseguir um resultado verdadeiramente vibrante.
As palavras são piedosas, as palavras são bonitas, as palavras são para os adultos se sentirem bem com a sua consciência. Estes projetos exigem horas de trabalho obscuro, de poucas palavras e muito suor.
Quando me falarem de Educação, falem-me da ORQUESTRA GERAÇÃO.

domingo, 7 de julho de 2019

O BAIRRO

PARABÉNS, JUNTA DE FREGUESIA DE BENFICA!
Depois do arraial do santos populares (do outro lado do parque Silva Porto, no largo e jardim que estão na zona do PIngo Doce) ter trazido metade de Lisboa a Benfica, com concertos muito celebrados, chegou a clássica hora da feira medieval.
A feira medieval começou na quinta-feira. O parque de Silva Porto está uma verdadeira animação. Nunca vi tanta gente. E vejo muito bem o que se passa, porque a feira me entra literalmente pelas janelas dentro. O tempo tem ajudado e tudo está correr de uma forma excelente, Já lá fui com o Francisco para ele dar uma voltinha no carrocel. Mas ele não perde pitada e está sempre lá caído, com a mãe, com o pai, com o irmão ou com a irmã.
Chego às janelas da frente e contemplo o despertar da feira, Vou às janelas das traseiras e, por entre as copas das árvores frondosas, vejo os corredores da meia maratona. A rua da Casquilha está cortada ao trânsito, há polícia. No estádio do Fofó (Futebol Benfica) aguarda-se a chegada dos atletas. Ouço os altifalantes e, pelo rabo do olho, consigo avistar o campo, com bandeiras.
De repente, sinto-me ligada às pessoas cá do bairro. Nunca tinha sentido isto.