sábado, 9 de janeiro de 2021

DE SUSKIND AO BICHINHO DA PRATA

Ora, em minha casa, há livros em todas as divisões e alguns guardados com tal devoção que nem eu me lembro já que naquele especial lugar coloquei um grupo de livros também ele especial, para reler.

Foi uma tarde longa e extenuante, à procura de "A história do Senhor Sommer", a pedido do meu neto. Na pista dos livros do Suskind, porque o senhor Sommer devia estar lá no meio, deiteil abaixo estantes e estantes, limpei cantos e recantos. Toneladas de pó, livros esquecidos, autores esquecidos... Tanta coisa para ler. Já não vou ter tempo de ler o que não li nem reler o que adorei. Pelo caminho, encontrei a Dorothy Parker. O post abaixo tem um excerto de um conto desta escritora que, nalgumas páginas, me lembra um pouco Virginia Woolf, apenas nalgumas páginas. Fiquei com uma dor nas costas. Mas o Suskind sumiu.

Ao ver passar, opulentos e refulgindo, tanto bichinho da prata, percebi o destino do Suskind. Atirei-me a eles e foi uma matança. Mas ouço rir os sobreviventes. Afinal, eles já cá estavam quando os homens ainda eram um projeto. E cá vão continuar quando os homens forem apenas memória. Memória dos bichinhos de prata que entretanto se tornaram uns valentes sabichões..




CAMILLE CLAUDEL: UM MODELO DE COMO NÃO SE DEVE FAZER TELEVISÃO

"Camille Claudel", um documentário, que passou na RTP2, sobre a genial escultora.

Um modelo de como não se deve fazer televisão. Um modelo de pedantismo serôdio.
Pretensamente erudito, cheio de música sacra, de fragmentos de uma peça de teatro (que talvez fosse interessante) mas totalmente descontextualizada, entre frases patéticas e hipócritas.
As mulheres, naquela época (finais do séc. XIX), não tinham direito a exprimir o seu génio e, embora o documentário quisesse redimir Rodin, a verdade é que ele foi um dos inimigos de Camille, sua ex-amante e rival artística. Rodin sentiu-se ameaçado pelo talento dessa mulher que não conseguiu transformar em eterna discípula e serva e pressionou o ministro de Belas Artes a cancelar os pagamentos das suas obras em bronze, condenando-a à miséria.
Camille era odiada pela família, pela sua piedosa mãe e pelo seu piedoso irmão, Paul Claudel. Mantiveram-na sem dinheiro, até a levarem à loucura. Depois, encerraram-na num hospital psiquiátrico onde viveu 30 anos, proibida de modelar, de esculpir, de se exprimir. Até ao extremo de a proibirem de escrever cartas. Um médico, o Dr. Brunet, ainda mandou uma carta à mãe de Camille pedindo que tentasse reintegrar a filha no convívio familiar, porque ela não estava louca, mas nunca recebeu resposta.
Camille era um gênio, mas era mulher e nunca conseguiu afirmar-se em vida. Apenas o seu pai a ajudava e compreendia. Morreu cedo e deixou-a exposta ao preconceito. As 90 peças da sua obra que lhe sobreviveram permitem-nos, graças a Deus, reconhecer o seu génio, apesar de Paul Claudel, apesar de Rodin.
Não será este documentário pretensioso e pedante que limpará o crime desses dois homens, porque felizmente ficaram provas. Quantas mulheres não terão sido sufocadas, quantas não terão visto o seu talento destruído, sem que o crime dessa destruição tivesse deixado rasto?