terça-feira, 5 de outubro de 2021

O CHEIRO COM QUE SE NASCE

"Parasitas" é um dos melhores filmes que poderá ver este ano, e certamente o mais louco," Sarah Marrs, em 2019.
Concordo com a opinião desta jornalista. Este é um filme em camadas que se vai digerindo lentamente. Não tem aqueles tiques, clichés e banalidades a que nos vamos (ou não) habituando. É diferente. Entre a comédia, o drama e o thriller, esta feroz crítica à sociedade capitalista coreana adapta-se a todas as outras sociedades capitalistas asiáticas e, mudando ligeiramente o cenário, às ocidentais.
Não, não é um filme de tese ou de rebuscada reflexões em que nos perdemos ou adormecemos!
É uma história que nos prende até pela imprevisibilidade das situações que nos apresenta. É uma história como um bolo, construída em camadas.
Não vou contar o enredo, mas as três camadas são bem visíveis: uma subterrânea, semelhante a um túmulo, o dos vivos-mortos; outra, ainda subterrânea, a cave, com meia janela para a rua, por onde se vêem as pernas das pessoas que passam, o lixo a ser despejado, e alguém que urina a um canto, justamente junto da janela. Finalmente chegamos à camada do sol, da belíssima arquitetura, da música, da arte, das terapias. dos jardins e do ar livre.
Como diz uma personagem do filme: a pobreza enruga-nos. O dinheiro passa-nos a ferro. Liberta-nos daquelas rugas da alma que nos impedem de apreciar uma bela música, um excelente quadro, uma paisagem. em suma, que nos impedem descobrir a beleza da vida.
Mas a pobreza é um cheiro que se agarra às pessoas e que os ricos detetam com apurado olfacto.

Sem comentários:

Enviar um comentário