sexta-feira, 13 de outubro de 2023

E, NO ENTANTO, AMBOS “FALAM DO SEU PRÓPRIO TEMPO

 

"Um teatro, uma literatura, uma expressão artística que não fale do seu próprio tempo não tem relevância." Dario Fo

 

Quem sou eu para contrariar o teu ímpeto revolucionário, ó Dario, mas, para mim, tudo fala do "seu próprio tempo", nem que seja através da mediocridade ou da banalidade. A literatura de cordel, os textos gongóricos e inflamados do séc. XIX (e não só), o Dantas, os dantinhas e os dantescos, as telas poeirentas e esquecidas, as partituras que as traças vão devorando ou já devoraram, o teatro das feiras e do adro das igrejas, tudo fala da sua época.

 

Pois tudo que o ser humano produz, e que é ou pretende ser arte, espelha uma vivência, uma inspiração, um desejo de comunicar, uma vaidade, ou um pedido de ajuda.

 

Conhecida ou ignorada, a produção “artística” de uma época traduz a realidade de uma forma subtil, mordaz, incisiva, ou sem força ou interesse, mas nela tanta informação sobre uma comunidade, uma cultura, um lugar, um período no tempo.

 

O mérito de um legado requer o reconhecimento dos que o observam, dos que o analisam, promovem ou ignoram.  Só alguns conseguem atingir o alvo com tal impacto que permanecem e cabem na tua frase, Dario.

 

Mas se muitos alcançam relevância mesmo que assente na mediocridade, (morra o Dantas! Pim!), outros vivem na obscuridade apesar do brilho do que produzem. Talvez venham a ser descobertos mais tarde, ou não. Não é verdade, ó Vincent?

 

E, no entanto, ambos “falam do seu próprio tempo”, ó se falam!

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Novíssima Cartilha Ilustrada", uma sátira à "Cartilha Escolar (Ler, Escrever e Contar), de Domingos Cerqueira,(1912).

Uma paródia, de Pedro Monteiro e de Rodrigo Monteiro, ao método designado analítico-sintético, usado nas cartilhas de de aprendizagem da leitura e da escrita adotadas no início do séc. XX para alunos da 1ª classe. O conceito de livro único ainda não existia. Vai chegar no tempo de Salazar com o célebre "Livro da Primeira Classe". No período da República havia pois várias cartilhas e todas enfermavam dos aspetos ridículos que Pedro e Rodrigo Monteiro satirizam de uma forma excelente. 

Como hoje é o dia em que se celebra a implantação da República, queria apenas lembrar que, apesar dos aspetos realmente absurdos destes livros, foi feito, neste período, um esforço notável de construção de escolas e de alfabetização de um país praticamente constituído por analfabetos. Este esforço foi depois continuado no período salazarista com uma mais bem montada estratégia de separação de classes e de formação de um grupo de trabalhadores submissos e disciplinados. "O Livro da Primeira Classe", publicado em 1941 (apesar de haver tanta gente, incluindo o próprio Ministério da Educação que ignora a data exata dessa publicação) é um exemplo de um livro que serve de uma forma certeira e despudorada um objetivo. Até as maravilhosas ilustrações de Raquel Roque Gameiro, a quem presto a minha homenagem, contribuem de uma forma eficaz para jamais o esquecermos. Mas, na verdade, e aprendi a ler por esse livro, o que nos fica na memória são essas imagens belíssimas e alguns poemas ingénuos. Só muito mais tarde me apercebi do conteúdo ideológico do livro. E isso talvez se deva ao facto de as pessoas viverem de tal modo imersas na beleza estética do próprio livro que ficavam indiferentes ao seu conteúdo. Eu andava num colégio de freirinhas que nos levavam a desfiles e paradas. Içava a bandeira nacional, vestida com a farda da mocidade portuguesa, no dia 1 de dezembro, porque era loirinha e bonita e isso condizia melhor com o aparato do momento. Mas, questões de feitio, nada daquilo me tocava, nem as missas, nem as paradas, nem os hinos. Ficava tudo à flor da pele. 




DE NOVO "PARASITAS" OU A TECNOLOGIA COMO UMA ARMA


Vou voltar aos "Parasitas". Insólito e profundamente "metafórico" (uma das palavras mais usadas neste filme). O telemóvel aparece como uma arma - uma pistola ou uma metralhadora que te manieta e te impede de fugir.
Imaginem dizer "Mãos ao ar!", apontando um telemóvel.