"Um teatro, uma literatura, uma expressão
artística que não fale do seu próprio tempo não tem relevância." Dario Fo
Quem sou eu para contrariar o teu ímpeto
revolucionário, ó Dario, mas, para mim, tudo fala do "seu próprio
tempo", nem que seja através da mediocridade ou da banalidade. A
literatura de cordel, os textos gongóricos e inflamados do séc. XIX (e não só),
o Dantas, os dantinhas e os dantescos, as telas poeirentas e esquecidas, as
partituras que as traças vão devorando ou já devoraram, o teatro das feiras e
do adro das igrejas, tudo fala da sua época.
Pois tudo que o ser humano produz, e que é ou pretende
ser arte, espelha uma vivência, uma inspiração, um desejo de comunicar, uma
vaidade, ou um pedido de ajuda.
Conhecida ou ignorada, a produção “artística” de uma
época traduz a realidade de uma forma subtil, mordaz, incisiva, ou sem força
ou interesse, mas nela tanta informação sobre uma comunidade, uma cultura, um
lugar, um período no tempo.
O mérito de um legado requer o reconhecimento dos que o
observam, dos que o analisam, promovem ou ignoram. Só alguns conseguem atingir o alvo com tal
impacto que permanecem e cabem na tua frase, Dario.
Mas se muitos alcançam relevância mesmo que assente na
mediocridade, (morra o Dantas! Pim!), outros vivem na obscuridade apesar do
brilho do que produzem. Talvez venham a ser descobertos mais tarde, ou não. Não
é verdade, ó Vincent?
E, no entanto, ambos “falam do seu próprio tempo”, ó
se falam!
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