"O VERBO LER NÃO SUPORTA O IMPERATIVO”
“É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar», o verbo «sonhar» ...
AS
PRIMEIRAS HISTÓRIAS
É no espaço
familiar que muitas crianças ouvem as primeiras histórias e criam o gosto pelo
mundo mágico da ficção. Os pais e os avós contam ou leem às crianças, as
histórias que consideram mais motivadoras e adequadas ao seu nível etário,
normalmente contos tradicionais ou histórias maravilhosas em que o Bem e o Mal
se cruzam, numa função catártica, e que atuam como motivação para outras
histórias e para futuras leituras. Intuitivamente os pais e os avós sabem que o
seu pequeno auditório só lhes será fiel se a seleção que fizerem das histórias
que vão ler ou contar for motivadora. Daniel Pennac, o autor do livro Como um Romance, recorda assim os
momentos da leitura noturna que fazia ao filho quando ele era pequeno:
“Gratuito. Pelo
menos era assim que ele o entendia. Um presente. Um momento fora de todos os
momentos. Quaisquer que fossem as circunstâncias. A história noturna
aligeirava-lhe o peso do dia. Largavam-se as amarras. Ia com o vento,
levíssimo, o vento que era a nossa voz.”
OS
PRIMEIROS LIVROS
São também os pais quem compra
habitualmente o primeiro livro à criança. O primeiro livro tem grandes
ilustrações e é nelas que lemos a nossa primeira história. Quando enfim
conseguimos decifrar as letras, há também um outro primeiro livro que nos
acompanha e essa relação primeira, tal como o primeiro amor, jamais será esquecida.
A ESCOLA
A Escola não é, pois, um agente exclusivo de intervenção. A Escola recebe e
envia. Entre ela e os outros pólos: a sociedade e a família estabelece-se um
intercâmbio muito forte. Por isso não podemos ignorar que as crianças que vivem
e se desenvolvem em ambiente culturalmente ricos apresentam normalmente maior
predisposição para a leitura do que crianças criadas em ambientes pobres ou
mesmo muito pobres. Todas as exceções que conhecemos a estas regras apenas a
confirmam.
A escola reflete a sociedade na
qual se insere, exprimindo em geral, a abundância ou escassez de meios e de
ideias dessa mesma sociedade. Esta constatação não impede, contudo, outra de
sinal contrário. A escola deve procurar um carácter de excelência que lhe
permita ser um fator de germinação cultural do meio e não se contentar com o
papel acomodatício do “não fazemos porque não temos”; “não fazemos porque os
outros também não fazem”, ou à boa maneira lusitana: “não fazemos porque a
culpa é do Governo.” E com esta frase lapidar nos anulamos como cidadãos
intervenientes e agentes de mudança.
PRÉ-REQUISITOS PARA CRIAR BONS
LEITORES
Quando o aluno atinge o 5º ano de escolaridade, são exigíveis determinados pré-requisitos para interessar as crianças pela leitura e formar bons leitores: o domínio satisfatório dos mecanismos da leitura. Satisfatório não significa bom ou excelente. É claro que, se for bom ou excelente, tanto melhor, mas basta que seja suficiente. A criança precisa dominar os principais mecanismos da leitura, embora ainda o possa fazer com algumas hesitações, porque o seu vocabulário é, por exemplo, muito reduzido. Ora, há que ter em conta que a criança vai crescendo e que certamente a Escola a irá ajudar a ultrapassar essas hesitações e dificuldades ao mesmo tempo que irá alargando o seu vocabulário.
§ Os casos muito
difíceis
Contudo, todos sabemos que se
apresentam no 5º ano de escolaridade e noutros níveis superiores, casos muito
difíceis: crianças que não dominam ainda minimamente os mecanismos da leitura.
Essas crianças necessitam de ter um apoio especial na escola, cujo objetivo seja
o de as ajudar a ultrapassar essa dificuldade. Estas situações são difíceis e
requerem uma explicação, que terá de ser procurada caso a caso. Porém, o
professor normal perante uma turma regular, não se sente capaz de lhes
responder e elas extravasam o âmbito da sala de aula. Os esforços que se
investem em casos destes são enormes e nem sempre recompensados. Mas, se digo
que a resposta a estes casos exige apoio da Escola, fora da sala de aula, isto
não significa que a criança seja privada do estímulo que em termos de incentivo
à leitura vai ser proporcionado às outras crianças dentro ou fora do espaço
letivo: se a criança não lê pode sempre ouvir ler.
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DO
GOSTO PELA LEITURA
A Escola é, em muitos
casos, o tal último reduto, ou seja, o único espaço em que a criança terá
oportunidade de ler ou de ouvir ler, o único espaço em que terá oportunidade de
conhecer histórias tradicionais, poemas, obras de escritores portugueses e não
só, textos ditos literários. A escola é, pois, para muitas a única oportunidade
de contactar com um mundo diferente e aliciante, a única oportunidade de se
enriquecerem culturalmente. Por isso, a escola é um espaço tão responsável e a
disciplina de Língua Portuguesa suporta grande parte dessa responsabilidade.
Por
tudo isto, a Escola não pode limitar a sua ação à análise do discurso do
quotidiano normalmente pobre dos nossos alunos. A escola tem obrigação de ir
mais além: dando a conhecer discursos diferentes.
·
Estratégias de apoio e de incentivo
à leitura
A preocupação
prioritária da escola será a de praticar com os alunos uma leitura para compreender e uma leitura
para aprender. Estas formas de leitura, muitas vezes designadas como leitura
orientada ou leitura metódica, exigem um percurso do texto que leva à
identificação de tópicos e à sua interpretação, ao estudo do vocabulário, etc.
Visa-se alargar o contacto do aluno com diferentes géneros de texto e uma
compreensão cada vez mais alargada dos seus conteúdos e intencionalidade. Mas
simultaneamente a escola tem também de se empenhar na promoção de hábitos de
leitura, desenvolvendo uma atuação em que determinados aspectos são de realçar.
a)
Selecção de textos e obras
Tal como os pais e avós
intuitivamente fazem uma selecção motivadora para o seu público, também o
professor deve escolher livros e textos capazes de despertarem o interesse pelo
que se lê. E isso passa pelo género e pela linguagem dos livros. A idade e o desenvolvimento
dos alunos aconselha a ir progredindo gradualmente quer em termos de
linguagem, quer em termos de assuntos. (O professor deveria conhecer os livros
que aconselha aos alunos). Isto não implica facilitismo ou entrarmos em
cedências medíocres e empobrecedoras. O melhor modelo que conheço de um texto
motivador para todos os alunos bons e maus é sem dúvida o Ulisses, de Maria Alberta Menéres, que reúne o gosto da aventura,
um certo mistério, exotismo e suspense, aliados a uma linguagem coloquial,
clara e muitas vezes poética extremamente motivadora. Por outro lado, é um
texto que permite enriquecer culturalmente os alunos e pô-los em contacto com a
mitologia grega, com grande relevo no uso de recursos poéticos e expressivos próprios
da linguagem literária.
b) Género de livro e temática
Os jovens leitores com idades compreendidas entre os 10 e 13 anos revelam preferência pelas:
- histórias de aventuras, mistério e suspense, com heróis e heroínas em que eles projetam os seus sonhos;
- histórias que falam de jovens da sua idade que vivem situações idênticas às suas e em que, por vezes, está presente uma certa irreverência em relação aos mais velhos (A malta do 2º C; Um bom diabrete; O menino Nicolau).
Os livros com preocupações
moralistas devem ser banidos sob pena de afastarmos os jovens da leitura.
Muitos jovens interessam-se também pelos livros de divulgação científica sobre
as grandes invenções da Humanidade, acontecimentos de carácter histórico, a
forma como viviam povos antigos, dinossauros, cosmos, etc. Estes livros
desvendam mistérios e apresentam a História da humanidade como uma aventura (a
aventura do Homem).
c) Os textos do manual
Os textos que integram o manual do
aluno devem também funcionar globalmente como incentivo à leitura. Muitos são
histórias curtas e outros excertos de livro. A sua leitura e análise têm,
contudo, outros objetivos tais como melhorar a compreensão do que se lê,
progredir na leitura de textos com linguagem cada vez mais elaborada, despertar
o gosto e curiosidade por histórias e assuntos, em suma, alargar gradualmente o
campo de interesses e permitir o conhecimento de outras realidades. Ora esses
objectivos contribuem para o grande fim que procuramos: o gosto pela leitura.
d) A leitura recreativa
Nos diferentes tipos de leitura
que os programas de Língua Portuguesa de todos os níveis de ensino aconselham,
encontra-se a leitura recreativa. Esta expressão “leitura recreativa”
alerta-nos para o facto de que esta leitura tem de ser um espaço de liberdade.
A leitura recreativa não deverá ser nada mais do que isso: ler pelo prazer de ler. Não abordar o livro “como se se tratasse de um problema de investigação”, pois, transcrevendo as palavras de Daniel Pennac: a reconciliação com a leitura obedece a uma única condição: não pedir nada em troca. Absolutamente nada. Não erguer qualquer barreira de conhecimentos prévios em torno do livro; não colocar a mais ínfima questão; não obrigar a fazer trabalhos de casa; não acrescentar uma palavra que seja às que foram ditas; não fazer juízos de valor, não dar explicações de vocabulário, nem fazer análise de textos, nem biografias...
e) Leitura orientada de obras
completas: leitura faseada
O programa sugere algumas obras
para leitura integral. Habitualmente a sua leitura é faseada, ou seja, o livro
é dividido em partes ou capítulos e procede-se à sua análise num conjunto de
aulas. Porém, há que ter em conta que a leitura destas obras não se deve
arrastar ao longo de um grande número de aulas. Leituras muito demoradas e
dissecadoras destroem habitualmente a relação do aluno com o livro e por
arrastamento com o próprio escritor. Desnecessário será citar o nome de autores
portugueses que são rotulados de difícil leitura, sinónimos de tédio, uma vez
terminada a escolaridade, porque foram analisados ao longo de uma interminável
série de aulas, de forma fastidiosa.
f) Importância da leitura em voz
alta
Como já referi, a motivação pela
leitura passa em grande parte pelo ouvir ler e pelo contar, pelo momento mágico
em que as palavras são capazes de transportar o ouvinte, de o deslocar para um
plano mais amigo, mais quente e mais tranquilo. A leitura em voz alta é
efetivamente muito importante, porque realça as qualidades melódicas da
linguagem de muitos textos e habitua o aluno às sonoridades da língua.
Este tipo de leitura ocorre (ou deveria ocorrer) muitas vezes quando se apresenta um novo texto. Os alunos podem ter os livros fechados e treinar a audição de textos e,deste modo, a sua própria atenção e memória. Seria ideal que essa leitura fosse um modelo de entoação e que a sua expressividade estimulasse os alunos a lerem também em voz alta. Mas nem todos os professores se sentem capazes de o fazer e isso inibe-os. Porém, isso não deve funcionar como um impedimento. Quaisquer que sejam as qualidades de dicção do professor, ele deverá ler em voz alta perante os seus alunos porque além de permitir a toda a classe inteirar-se rapidamente do assunto do texto que vai ser analisado e treinar a atenção e memória do que se ouve, vai permitir aos tais alunos que são os casos difíceis, ouvir e conhecer histórias e assuntos de que ficará privado de outro modo.
Outras formas de
leitura em voz alta praticadas pelo aluno: a leitura a duas vozes, a leitura
coral, a leitura com fundo musical, etc.
Direito de ler em voz alta, COMO UM
ROMANCE, Daniel Pennac
f)
Decorar textos
Decorar textos curtos, habitualmente poemas, implica ler e reler o texto, procurando estratégias de
memorização e sentindo as palavras com todo o seu peso e carga emotiva. Decorar
leva os alunos a memorizar estruturas de construção frásica, formas de dizer,
novos vocábulos. Decorar textos é um jogo que ajuda a gostar da língua.
g)
A biblioteca de turma: leitura faseada
A criação de uma
biblioteca de turma e de um tempo letivo dedicado à animação dessa biblioteca
permite também organizar atividades de incentivo à leitura. Uma delas será a leitura faseada de capítulos de uma obra. O professor interrompe a leitura num
momento de maior suspense e interesse (tal como acontece com as telenovelas) e
guarda a continuação para outro espaço idêntico na semana seguinte: “Quem se
lembra?”; “Em que parte íamos?”, e continua procedendo a nova paragem
estratégica. Pode também fazer isto em relação a um livro numa semana, a outro
livro na semana seguinte e assim sucessivamente. Estes livros podem ser
requisitados para leitura. Se a estratégia funcionou, esses livros serão
disputados durante algum tempo.
Na aula de biblioteca poderá haver
também um espaço em que o aluno pode falar daquilo que leu, se assim o
entender. Esta necessidade de trocar impressões sobre o lido tanto pode existir
como será liminarmente rejeitada pelo aluno. E o direito de não falar sobre
o que se leu é também um Direito Inalienável do Leitor.
CONCLUSÃO
Gostaria de terminar, voltando ao
verbo LER. Se é certo que ele não admite o imperativo, também é certo que ele
tem de ser em primeiro lugar sinónimo de compreender. E só depois e por
extensão sinónimo de amar e de sonhar. Sinónimo de amar, porque é uma relação
íntima de carinho com o livro que queremos criar nos nossos alunos e de sonhar,
porque os livros são sempre, mas especialmente na juventude, a porta para a
evasão e o sonho. E como tudo isto exige muita aceitação e liberdade, termino
com a leitura de mais uma citação dos DIREITOS DO LEITOR do livro de Daniel
Pennac, Como Um Romance, recomendando vivamente a leitura desta obra: O
direito de não ler.

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