terça-feira, 2 de abril de 2019

ORAÇÃO


Senhor, livrai-nos dos puros,
dos que nunca erraram,
dos que sabem fazer justiça,
dos que fazem declarações de princípio imaculadas,
dos que condenam sem hesitar.
Porque eles são muitos
Porque eles são a incarnação da hipocrisia
Porque neles se perpetua alma dos inquisidores.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A árvore dos lilases

A árvore dos lilases não é uma árvore trepadora e o formato das flores é totalmente diferente do das glicínias. Quando eu era pequena tínhamos uma árvore de lilases no quintal. Alguns cachos despontavam na Primavera.
Os lilases não são exuberantes como as glicínias. São uma árvore delicada que se adapta dificilmente aos solos. Talvez por isso só uma vez encontrei esta flor a vender na Romeira, da Av. de Roma, há muitos anos atrás.
Os lisboetas amigos de flores sabem que esta florista foi durante muito tempo o máximo de chique e de preços exorbitantes. Já não é.

A imagem pode conter: planta, flor, ar livre e natureza

A imagem pode conter: planta, flor, relva, ar livre e natureza

domingo, 31 de março de 2019

LIBERA NOS DOMINE

Quando for grande quero ser um quantificador existencial. Sim, existencial, porque o universal serve para toda a gente e o existencial só para alguma. Quando for grande vou penetrar no âmago existencial deste quantificador, vou chupar-lhe o tutano e aspirar-lhe a essência. Depois vou à procura do f. da p. do linguista que criou esta nova nomenclatura gramatical e, quando o encontrar, prego-lhe dois bofetões relacionais e quatro pontapés nas nádegas, de forma a que fiquem marcadas com vários circunflexos e muitos acentos agudos. Finalmente, prendo-o no alto da torre de Belém onde terá de cantar o hino nacional ao nascer e ao pôr do sol. E só poderá ser libertado por uma parassíntese ou por um composto por morfologia puro. Caso eles não apareçam permito que um composto por morfossintaxe o leve a passear uma vez por semana e um complemento oblíquo lhe faça um bolo 3 vezes ao ano. E antes que apareça outro linguista iluminado que ache que as crianças não escrevem a Língua Portuguesa com correção porque não sabem linguística, recitemos em coro o Exorcismo de Carlos Drummond de Andrade.


EXORCISMO
por Carlos Drummond de Andrade
Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.
Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.
Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.
Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.
Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.
Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.
Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.
Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.
Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista.
Libera nos, Domine.
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

sábado, 30 de março de 2019

JARDIM ZOOLÓGICO - A RELÍQUIA


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As filas de turistas e a de pais e filhos que se acumulam à porta do jardim Zoológico ao fim de semana mostram o dinamismo daquele espaço e SÃO INVENTADAS POR MIM.
Visitar o jardim custa 22 euros por pessoa a partir dos 3 anos de idade. Não há descontos em situação alguma, porque cuidar dos animais custa dinheiro e quanto menos pessoas o visitarem mais calmos estão os bichos e o pessoal que deles cuida e cuida do espaço (o imobilismo é o movimento que mais adeptos tem entre as lusas gentes),
Quando uma família - pai e mãe e dois filhos - o visitam pagam 88 euros (OITENTA E OITO EUROS). Se forem três filhos (como é o caso da família da minha filha) são apenas 110 euros (CENTO E DEZ EUROS),
Toda família gostaria (o Condicional aqui entra muito bem) de poder visitar o jardim de vez em quando. Mas essa visita é um acontecimento que, tal como o cometa Halley, só ocorre de X em X anos.
O jardim Zoológico foi feito para ser visitado por meninos da escola. A família é um conceito que não existe naquele espaço. Por isso, também não há um BILHETE FAMILIAR. Quando o Francisco quer visitar o jardim (porque de automóveis, e todo o tipo de transportes está em vias de apresentar o doutoramento) tem de se selecionar cuidadosamente quem vai com ele para não arruinar o orçamento familiar.. Isto porque o Francisco ainda está longe dos 3 anos. Quando isso acontecer, põe-se o Francisco à porta do jardim e vai sozinho.
Este jardim é um verdadeiro modelo de imobilismo - o local onde se despejam os meninos das escolas quando chega a Primavera. O local do vazio absoluto fora desses momentos. Nas visitas das escolas esgota-se todo a missão social do jardim - UMA AUTÊNTICA RELÍQUIA DO PASSADO.
Nunca a palavra RELÍQUIA foi mais apropriada. Eu creio mesmo que foi inventada a pensar neste local de cultura e de lazer e noutros que cheiram a mofo tal como ele.
ORGULHOSAMENTE VAZIO!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A FELICIDADE OU O DESTINO DA BATATA


You know you work hard, try to provide for the family, and then for one minute everything's good. Everyone's well, everyone's happy. In that one minute, you have peace.

OX CALLAGHAN, negociante de mobília



Escrever sobre estados de alma, como é o caso da felicidade, acarreta uma propensão vertiginosa para o terreno do lugar-comum e da banalidade. Concorrente da felicidade nesta propensão está a lusitana saudade sobre a qual se escreveram já milhares de linhas sem qualquer interesse para quem sente saudade, mas muito interessantes para registar num postal, numa porta, ou num epitáfio.
Se percorreres a Internet, caro leitor, encontras um manancial de citações e de textos sobre a felicidade que teriam sido escritos, de acordo com as pessoas que lá os colocaram, por renomados nomes da literatura, os suspeitos do costume na calda “incultural” ou se quiseres da “cultura fake” dessa rede que a todos nos une.[1]
 Platão, Mário Quintana, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Rousseau, Marco Aurélio, Oscar Wilde, e muitos outros nomes que a memória humana consagrou como “universais”, a par de outros que a minha ignorância desconhecia, como Van Dyke (creio que não é o pintor), Geraldo Eustáquio de Souza. Carmen Sylva (pseudónimo literário de uma rainha consorte romena, que me foi apresentada ad hoc) são alguns dos autores dessas pérolas. Para este efeito, jamais me darei ao trabalho de verificar se realmente o são ou não. Nessa abundância de citações encontramos desde o bacoco ao surpreendente. Transcrevo algumas para que tu, esforçado leitor, avalies o seu mérito, sem te deixares influenciar pelas minhas palavras. 
 “A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”, retirada indubitavelmente de um diálogo ou de uma carta de Platão que se perdeu e que o citador encontrou e autenticou. Não se refere esta citação propriamente à felicidade, mas a uma das chaves platónicas da mesma.

“O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” teria escrito Alexandre Herculano, mas Bernanos plagiou a mesma citação, trocando apenas a ordem das palavras: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Como percebes facilmente, estas citações são todas autênticas e retiradas de fontes legítimas. De qualquer modo, esta merece o título da mais banal, por se repetir e repetir a ideia mais repetitiva deste mundo de citações.

Freud não podia ser ignorado até porque a sua pesquisa teve, em última análise, o objetivo[2] de descobrir as razões da infelicidade humana, a qual resultará das contradições entre os impulsos sexuais e a vida em sociedade, ou, prosaicamente, entre o homem natural e o homem civil, aqui entendidos de forma totalmente oposta à de Rousseau. O famoso neurologista teria escrito: “A felicidade é a realização de um desejo pré-histórico da infância. É por isso que a riqueza contribui em tão pequena medida para ela. O dinheiro não é objeto de um desejo infantil.” Não sei se ele escreveu isto ou não, mas a ideia de que o dinheiro não gera felicidade tem sido glosada ad infinitum por gente endinheirada. Infelizmente o conceito está um pouco distorcido, porque se é verdade que o dinheiro não é fonte de felicidade, a sua falta então é uma quase garantia de infelicidade.
Shakespeare teria escrito esta surpreendente declaração: “É muito melhor viver sem felicidade do que sem amor”, que pode candidatar-se desde já ao prémio da mais bacoca de todas.
Finalmente, vamos a esta de Érico Veríssimo, segundo a Internet, que dará entrada à minha teoria da batata: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”
Preparava eu uma sopa quando verifiquei que as batatas redondas, de pele lisa e polpa firme, que tinha comprado há uma semana, apresentavam agora uma consistência mole e a pele emurchecida. Ora conheço perfeitamente este fenómeno. É que os músculos rijos do meu corpo, que um dia uma massagista comparou à dureza da pedra, também amoleceram com os anos e, em muitos locais, formam rugas e pregas, de acordo com a dimensão do vinco. Comparei, pois, o meu destino ao das batatas.
Olhando para o cesto vi outras meio apodrecidas que, numa tentativa derradeira e desesperada, lançavam rebentos por todo o lado, pedindo para se transformarem noutras batatinhas. Imediatamente a frase atribuída a Veríssimo me veio à cabeça. Estas batatas tinham ainda esperança de tornarem útil a sua vida. Tal como eu, projetavam os seus anseios no futuro. A verdade é que outros homens, consciente ou inconscientemente, interferem muitas vezes com as minhas projeções, tal como eu interferia naquele momento com o destino daqueles tubérculos quer decidisse semeá-los, quer metê-los na panela.
Senti-me, por breves instantes, a omnipotente deusa das batatas. Passaram diante dos meus olhos as citações sobre felicidade que eu tinha lido na Internet e que constituem um abrégé do pensamento humano sobre o assunto. Se “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” o destino destas batatas seria o de irem para a panela, onde encontrariam a sua felicidade na alegria de me servirem de alimento. Destino idêntico ao de muitos homens que nasceram apenas para servirem outros, libertando-os da imposição de ganharem o pão com o suor do seu rosto - uma fila imensa de crianças, homens e mulheres de todos os tempos e lugares, que nasceram e morreram sem conhecer nada mais do que a servidão. Há quem diga e escreva que isto é também uma forma de felicidade, sobretudo quando alguém lhes mete na cabeça as frases da Internet, mas eu duvido e chamo a atenção para o apenas que destaco na minha afirmação. Recusei, portanto, a visão pragmática e cruel de usar as batatas na sopa.
Dei-me, então, a pensar no que teria sido a vida destes tubérculos, antes de eu os conhecer. Viveram no quente ninho do húmus materno, foram apanhados da terra, tratados com desvelo, lavados porque eram de boa qualidade, colocados num saco, enviados para o supermercado. Um percurso monótono, idêntico ao de milhões de outras desconhecidas batatas.
Neste ponto, alguém me falou sobre o stress da batata que “… é uma cultura sensível à seca e a sua produção sustentável está ameaçada devido a frequentes episódios de seca” … “A escassez de água durante o período de crescimento dos tubérculos diminui o rendimento em maior extensão do que a seca durante outros estágios de crescimento”.
Ora o stress hídrico é uma grande metáfora para o Homem. O nosso sangue contém 95% de água, a gordura corporal 14% e o tecido ósseo 22%. O Homem precisa de água para o corpo e de água para o espírito e a produção sustentável de homens está ameaçada devido a frequentes ataques de ignorância e de imbecilidade e a toda a espécie de calamidades que o flagelam. O stress afeta de forma danosa o homem no seu período de desenvolvimento inicial, gestação e infância, e também fora desse período de crescimento. E tu, amigo leitor, que já sofreste, na idade adulta, todo o tipo de stress, ou quase todo, sabes que ele pode ser, em pequenas doses, um motor de ação positivo e que, em fartas doses, se transforma em algemas que te impedem de seres feliz.
Cada vez mais indecisa sobre o destino a dar às batatas, poisei a que tinha na mão. Peguei noutra de pele lisa e esticada e, sem dó nem piedade, comecei a descascá-la. Por baixo, da sua pele escondiam-se manchas castanhas, algumas que tinham penetrado fundo na polpa. Também ela era vítima, tal como o Homem, de um mal oculto e invisível que a destruía lentamente. E tanta semelhança com os humanos conduziu-me à minha primeira decisão. Não usar nunca mais batatas na sopa.
Atravessei a rua e, num arroubo lírico, fui plantá-las na horta urbana que fica a poucos metros de minha casa, enquanto pensava com os meus botões: “Podeis ter tido uma vida pouco agradável, com muita luz, quando gostais do escuro, mas vou fazer-vos felizes. Ides voltar ao seio materno, reviver a vossa infância e dar fruto. Ides transformar-vos noutras batatinhas. Sereis a semente e eu o agricultor que de vós cuida. Far-vos-ei felizes e vocês a mim, pois poderei ver este meu gesto dar fruto.” (Lá estava eu a projetar a minha esperança no futuro.)
Meti-as bem fundo na terra, que é o sítio onde as batatas são felizes. E todos os dias as rego, para evitar o stress hídrico. O meu problema é que elas vão multiplicar-se e a superfície de semeadura terá de aumentar. A Terra tornar-se-á um imenso campo de batatas, tal como já é um imenso campo de homens.
No fundo, no fundo, eu sei que este meu gesto de nada adiantará e que as batatas vão continuar a ser mastigadas, deglutidas e digeridas pelos homens, se o stress hídrico as não fizer desaparecer.
Agora, caro leitor, vais dizer-me que em vez de uma batata eu podia ter escolhido uma cebola, uma cenoura, ou um nabo, para ilustrar este desabafo sobre a minha impotência perante tantas situações do mundo que me tornam infeliz a mim e a milhões de homens.
Mas não podia! Primeiro porque não teria nenhuma história “verídica” para te contar. Depois, onde estaria a lógica da batata da minha teoria? Finalmente, porque a vida de um homem não vale, a maior parte das vezes, mais do que a de uma batata.  
Todos aqueles a quem contei esta história me exigiram uma conclusão, moralidade ou mensagem, em suma, o caroço deste fruto. Sou generosa. Aqui deixo duas conclusões: uma sobre a felicidade, outra sobre a batata. Só espero que não as copiem num mural ou na Internet atribuindo-as a Aristóteles ou a Karl Marx.
Sobre a felicidade: Por mais infeliz que te sintas, nunca a tua infelicidade poderá comparar-se à das crianças que nascem, vivem e morrem sem saber que a palavra felicidade existe.
Sobre a batata: Explicar a felicidade ou a infelicidade a partir de uma batata é tentador, mas nela não cabe a complexidade do Homem. Não cabe na batata e, se queres que te diga, amigo leitor, não consegui imaginar nenhum sítio onde essa complexidade caiba.





[1] Não sou de modo algum avessa à consulta da internet como fonte de informação, bem pelo contrário, considero-a um poderosa e rápida ajuda. Sou contra, sim, a utilização indiscriminada de tudo que nela se encontra como verdadeiro. Em suma, é preciso uma certa atenção para não comer gato por lebre, o que, aliás, hoje em dia é um preceito que se aplica a tudo o que tem a ver com informação - digital ou em papel.
[2] A autora escreve de acordo com o último Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ESTOU ESPANTADA! (texto escrito no tempo do Nuno Crato)

ESTOU ESPANTADA!
"Os alunos do 2.º ano de escolaridade têm dificuldades em interpretar um texto, escrever de forma coerente e sem erros ortográficos, não compreendem o conceito de igualdade na matemática e têm dificuldades em contar dinheiro, revela um relatório."
Como é possível semelhante prova de ignorância? Quando eu tinha 6/7 anos lia Camões, Shakespeare, Platão, Aristóteles, comentava os textos sagrados e, em termos matemáticos, os trabalhos de Dubinsky, Sfard, Tall e Vinner que permitem uma caracterização mais profunda das noções de conceito definição e conceito imagem, que se tornam conceitos chave para a compreensão dos conceitos matemáticos.
Agora grassa a ignorância, e o senhor ministro da educação que tem tentado fazer dos alunos vagões de mercadorias não consegue que as crianças de seis ou sete anos escrevam sem erros, interpretem os textos com a limpidez luminosa de um Santo Agostinho e, miséria das misérias, não dominem o conceito matemático de igualdade num mundo em que a desigualdade é cada vez maior.
Sugestão: aumentar ainda mais os conteúdos curriculares, torná-los mais complexos, instituir de novo a palmatória e os castigos corporais, porque os resultados serão garantidos e teremos uma geração de génios em ascensão. Além disso ser criança tem limites. E aos seis ou sete anos estamos perante pequenos adultos disfarçados de crianças, que já tiveram uma longa oportunidade de gozar a vida e acreditar em sonhos. Vamos a isso, pela rentabilidade, pela necessidade de criar escravos dos senhores que podem escrever com erros, não ter nunca aberto um livro, não compreenderem o conceito de igualdade, mas que sabem contar dinheiro!
PS. Já agora na televisão podem exibir-se erros ortográficos, escrever frases sem sentido, não respeitar a pontuação? E nas legendas dos filmes também?
Pois, aí não tem importância, porque os espectadores estão distraídos com as imagens e a verem se compreendem o tal conceito de igualdade.

domingo, 6 de janeiro de 2019

UM HOSPITAL CONTRANATURA


O hospital de São José, um dos pilares da saúde pública em Lisboa, está instalado numa encosta íngreme, num edifício antiquíssimo. Não tem cabimento.
Já alguém teve de ir diariamente àquela unidade hospitalar, durante meses como tanta gente faz? Seria interessante que todas as pessoas sentissem o caos e a dificuldade de acesso. E parabéns se aguentarem. Posso dar algumas dicas.
1. Deixar o carro num parque do Campo Mártires da Pátria (desce-se até ao hospital; sobe-se a pique até ao parque);
2. Deixar o carro no parque do Martim Moniz (sobe-se a pique até ao hospital; desce-se até ao parque).
3. Metropolitano do Martim Moniz (ver 2.).
4. Alugar ou comprar uma casa na zona.
Não contabilizo aqui os gastos de quem não mora ali perto. Quem acompanha um doente, gasta entre 10 a 15 euros diários de parque no Martim Moniz. No parque do Campo Mártires da Pátria pode gastar um pouco menos, mas sempre na ordem das dezenas.. Tudo isto se estiver com cuidado em não exceder cerca de 3 horas. Finalmente, depois de umas semanas terá de ser examinado por um cardiologista para ver se aguentou o esforço.
A maioria das pessoas vai à Urgência e outras a consultas. É um acontecimento pontual ou quase. Mas há quem tenha familiares acamados, durante meses. Conheço um caso em que o doente está acamado desde Agosto, com necessidade de apoio diário. E esses podem confirmar o que aqui digo. Um hospital contranatura.