sexta-feira, 3 de maio de 2019

DOS FALSOS PROFETAS


Sempre houve da parte dos que “chegaram lá cima”, como diria a minha avó, ou como eu digo, dos que a sociedade reconheceu como representantes da cultura – literária, musical plástica – uma certa arrogância em relação aos que procuravam atingir um patamar idêntico. Com os seus pezinhos delicados vão empurrando os que se agarram aos degraus da escada. Se esses trepadores são apaixonados,  persistentes, têm talento e alguém que sustente a sua expressão artística, acontece serem reconhecidos após a sua morte. Van Gogh é o modelo icónico destes artistas. Outros desistem pelo caminho e vão fazer algo de mais rentável. O meu modelo icónico é o de um escultor talentosíssimo e totalmente desconhecido, que deixou a arte para ir plantar kiwis no Alentejo.

Todas estas considerações servem para chegarmos a situações ridículas da sociedade contemporânea (provavelmente tais situações aconteceram noutras épocas) que incensam em gritos de arrebatamento a emergência de um conjunto de parasitas e representantes da mediocridade cultural, com apoio de senhoras dondocas que pintam umas coisas e de políticos falhados ou gente que tem algum dinheiro e certa notoriedade social, mas sobretudo de uma generalizada ignorância.

Esta paracultura pode ser exemplificada através de um indivíduo que conheci num convívio cultural. Apesar de não conseguir escrever uma mensagem sem dar quatro ou cinco erros de ortografia, nem alinhar duas ou três ideias com sentido, intitulava-se, e mais era considerado por um vasto conjunto de “senhoras” e cavalheiros, um poeta e um escritor.

Não vou transcrever aqui os versos sibilinos deste poeta, mas a fórmula mágica que se perpetua ao longo da sua vasta obra. Seleciona um conjunto de palavras, baralha-as em frases curtas e textos herméticos e de uma “grande profundidade poética”.

Palavras como: intemporal, paradigma, vagabundo, existência, solitário crepúsculo, demanda.

Donde saem poemas como este que faço ad hoc para que aqueles que me lêem compreendam as possibilidades infinitas desta fórmula.

POEMA
Na demanda intemporal do absoluto
Vagabundo paradigma de palavras
Um solitário crepúsculo irrompe
Pródigo de ausências e de saudade.

Resulta sempre.

Para um texto um pouco mais longo, podes experimentar a prosa poética. Usar sempre palavras como: o abandono, a ausência, a saudade, a dor, a hesitação, o cansaço, o abraço, o inferno, a combustão, a fantasia, Eros, e todas as que usaste na poesia. O texto deve ter um tom triste.  

Preferes ser pintor para realizar a tua veia artística? Aqui vão alguns conselhos. 

Usa cores puras - vermelho, azul, amarelo -  nada de tons intermédios. Seleciona uma fotografia “inspiradora” do tipo “menino que chora” (Ex: a silhueta de uma mulher com chapéu que olha o mar, os nenúfares do Monet, os céus de Van Gogh, menina de saia rodada, rosto de mulher de cabelos compridos, anelados e sedosos). Carrega bastante nas cores e acrescenta algo que traga uma certa novidade ao tema. Ex: o sol com muitos círculos à volta para mostrar que brilha intensamente, os cabelos da mulher a passarem diante do rosto. 

Tens o sucesso garantido e um conjunto de patetas a chamarem-me a atenção para o requinte da tua obra. Podes crer que é verdade. Já assisti perplexa a uma cena destas, E todos os teus admiradores terão uma licenciatura ou um doutoramento.   

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Francisco dixit

Ontem fui passear com o Francisco à mata. O pequenino não se cala. Fala, fala e nem sempre percebo o que ele diz.
Passamos por uma pavoa. O Francisco gosta muito de pavões e não deve perceber bem o que quero dizer com pavoa. Por isso cala-se discretamente.
Passados uns escassos minutos suspira e diz:
- Mudou de roupa.
E assim explica a minha pavoa.
Hoje telefono para o pai do Francisco. Atende-me o pequenino:
- Estás em casa? - pergunta-me ele
- Estou. E tu?
- Não.
- Estás no carro?
- Não. Estou no YouTube.

domingo, 14 de abril de 2019

SENTIR AS PALAVRAS


Há muitos anos, testei em vários locais um software experimental, que eu tinha imaginado como forma de despertar a sensibilidade dos alunos para a beleza das palavras e que se chamava "Sentir as palavras"..
Hoje quando fazia as limpezas habituais na minha coleção infinita de livros, revistas e documentos, encontrei uma agenda com os poemas que alguns "experimentadores", de cuja idade já não me lembro, fizeram numa sessão na ESE de Setúbal.
O sofware alimentava-se das palavras que os próprios utilizadores iam introduzindo, sendo que como se vê pela amostra em anexo eram ainda muito poucas. Essas palavras obedeciam também a determinados critérios.
Para registo futuro aqui ficam os inspirados poemas destes utilizadores, que demonstram a importância da junção de palavras e o aspeto tantas vezes mecânico da poesia, o que não lhe tira o valor, tal como demonstrou Edgar Alan Poe no seu "Corvo".(The Raven). O Poe que me perdoe a comparação destes pretensos poemas com a sua obra de uma métrica e sonoridade perfeitas.
A agenda vai para o lixo. RIP.


O pálido sol do entardecer
Acendia no verde-escuro das árvores
Tons de mel e de âmbar
Teresa Branco
Entardece
O ouro do favo de mel estremece
Na luz pálida
Ana Paula
Na tarde de verão
Ouro dormia nas searas
O trigo exalava suspiros tépidos
Maria João e Francília
As espigas adornam a tarde
O sol estala sobre a paisagem
Acendida de ouro.
Ana Maria e Cristina
A tarde rápida escorre
No terno abraço do sol
Como brincos de oiro os favos.
Helena Vicente
Dormir no pálido acender do teu olhar
Tão saboroso como o favo de mel
Do nosso despertar.
Aurora
Dorme a lâmpada
De luz doirada de mel
A estrela acende a noite.
Virgílio

terça-feira, 2 de abril de 2019

ORAÇÃO


Senhor, livrai-nos dos puros,
dos que nunca erraram,
dos que sabem fazer justiça,
dos que fazem declarações de princípio imaculadas,
dos que condenam sem hesitar.
Porque eles são muitos
Porque eles são a incarnação da hipocrisia
Porque neles se perpetua alma dos inquisidores.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A árvore dos lilases

A árvore dos lilases não é uma árvore trepadora e o formato das flores é totalmente diferente do das glicínias. Quando eu era pequena tínhamos uma árvore de lilases no quintal. Alguns cachos despontavam na Primavera.
Os lilases não são exuberantes como as glicínias. São uma árvore delicada que se adapta dificilmente aos solos. Talvez por isso só uma vez encontrei esta flor a vender na Romeira, da Av. de Roma, há muitos anos atrás.
Os lisboetas amigos de flores sabem que esta florista foi durante muito tempo o máximo de chique e de preços exorbitantes. Já não é.

A imagem pode conter: planta, flor, ar livre e natureza

A imagem pode conter: planta, flor, relva, ar livre e natureza

domingo, 31 de março de 2019

LIBERA NOS DOMINE

Quando for grande quero ser um quantificador existencial. Sim, existencial, porque o universal serve para toda a gente e o existencial só para alguma. Quando for grande vou penetrar no âmago existencial deste quantificador, vou chupar-lhe o tutano e aspirar-lhe a essência. Depois vou à procura do f. da p. do linguista que criou esta nova nomenclatura gramatical e, quando o encontrar, prego-lhe dois bofetões relacionais e quatro pontapés nas nádegas, de forma a que fiquem marcadas com vários circunflexos e muitos acentos agudos. Finalmente, prendo-o no alto da torre de Belém onde terá de cantar o hino nacional ao nascer e ao pôr do sol. E só poderá ser libertado por uma parassíntese ou por um composto por morfologia puro. Caso eles não apareçam permito que um composto por morfossintaxe o leve a passear uma vez por semana e um complemento oblíquo lhe faça um bolo 3 vezes ao ano. E antes que apareça outro linguista iluminado que ache que as crianças não escrevem a Língua Portuguesa com correção porque não sabem linguística, recitemos em coro o Exorcismo de Carlos Drummond de Andrade.


EXORCISMO
por Carlos Drummond de Andrade
Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.
Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.
Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.
Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.
Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.
Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.
Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.
Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.
Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista.
Libera nos, Domine.
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

sábado, 30 de março de 2019

JARDIM ZOOLÓGICO - A RELÍQUIA


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As filas de turistas e a de pais e filhos que se acumulam à porta do jardim Zoológico ao fim de semana mostram o dinamismo daquele espaço e SÃO INVENTADAS POR MIM.
Visitar o jardim custa 22 euros por pessoa a partir dos 3 anos de idade. Não há descontos em situação alguma, porque cuidar dos animais custa dinheiro e quanto menos pessoas o visitarem mais calmos estão os bichos e o pessoal que deles cuida e cuida do espaço (o imobilismo é o movimento que mais adeptos tem entre as lusas gentes),
Quando uma família - pai e mãe e dois filhos - o visitam pagam 88 euros (OITENTA E OITO EUROS). Se forem três filhos (como é o caso da família da minha filha) são apenas 110 euros (CENTO E DEZ EUROS),
Toda família gostaria (o Condicional aqui entra muito bem) de poder visitar o jardim de vez em quando. Mas essa visita é um acontecimento que, tal como o cometa Halley, só ocorre de X em X anos.
O jardim Zoológico foi feito para ser visitado por meninos da escola. A família é um conceito que não existe naquele espaço. Por isso, também não há um BILHETE FAMILIAR. Quando o Francisco quer visitar o jardim (porque de automóveis, e todo o tipo de transportes está em vias de apresentar o doutoramento) tem de se selecionar cuidadosamente quem vai com ele para não arruinar o orçamento familiar.. Isto porque o Francisco ainda está longe dos 3 anos. Quando isso acontecer, põe-se o Francisco à porta do jardim e vai sozinho.
Este jardim é um verdadeiro modelo de imobilismo - o local onde se despejam os meninos das escolas quando chega a Primavera. O local do vazio absoluto fora desses momentos. Nas visitas das escolas esgota-se todo a missão social do jardim - UMA AUTÊNTICA RELÍQUIA DO PASSADO.
Nunca a palavra RELÍQUIA foi mais apropriada. Eu creio mesmo que foi inventada a pensar neste local de cultura e de lazer e noutros que cheiram a mofo tal como ele.
ORGULHOSAMENTE VAZIO!