segunda-feira, 26 de julho de 2021

QUANDO O FRANCISCO TINHA DOIS ANOS: NA MINHA BOCA

O Francisco não se cala um minuto. Sentado atrás de mim no carro vai palrando. Às vezes nem compreendo os longos discursos que ele faz. Mas tudo o deslumbra como se o mundo fosse um baú maravilhoso recheado de coisas fantásticas.

Hoje fica encantado ao descobrir que há água para limpar os vidros do carro.
- O teu carro tem água?
- Muita água, Francisco, para lavar os vidros que estão muito sujos.
- Leva à lavagem.
- Claro que sim. Já foste à lavagem com o papá?
Segue-se uma longa e complexa explicação sobre o local onde o papá leva o carro à lavagem que termina com a pergunta:
- E tu?
- A minha lavagem é perto da escola do Francisco.
- Gostas da lavagem verde? - pergunta ele.
Primeiro digo que não, mas como ele insiste na pergunta digo que sim.
- E da encarnada? E da amarela? E da azul? E da preta?
Fico baralhada, mas penso que ele viu lavagens de diferentes cores no YouTube.
- Onde é que o Francisco viu essas lavagens? No YouTube?
- Não.
- Então?
- Na minha boca.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

RESPEITO!

Ontem ao rever mais um episódio das "Inesquecíveis viagens de comboio", voltei à Colômbia. Já lá tinha estado, mas um pouco distraída.

A Colômbia, esse país de má fama, do narcotráfico, dos gangues e dos ladrões, o lado que nós conhecemos e que nos é vendido com meticuloso afã.
A Colômbia, um país de gente trabalhadora, que planta café e bananas em íngremes e deslizantes encostas, que transporta às costas fardos pesadíssimos, que calcorreia quilómetros, que vive subjugado pelo gigante americano que lhe suga a riqueza, o trabalho e o suor, tal como outrora a cristianíssima Espanha destruiu a sua cultura e pilhou as suas terras.
Phillipe não consegue perceber o amor que os colombianos continuam a dedicar a Paulo Escobar. Mas eu acho que os compreendo, apesar de todos os crimes que a traficância de droga provocou. Ele fez frente ao estrangeiro, ele esteve muitas vezes ao lado desta gente pisada e sofredora. E mais ninguém fez isso.
A grandeza dos incas sobreviveu na arte e neste magnífico povo. Quando comeres uma banana da Colômbia, quando beberes uma chávena de café da Colômbia, lembra-te desta gente que dobra "a espinha" e transforma o corpo em guindaste para que te delicies com os seus sabores, degustes as suas ostras cantantes, e ostentes as suas cristalinas esmeraldas.
RESPEITO!



quinta-feira, 1 de julho de 2021

CRIME, DIGO EU

A RTP2 TAMBÈM NOS OFERECE GRANDES PASTELÕES (para não usar uma palavra mais suja mas adequada)

Durante muitos anos deliciei-me com os livros da Agatha Christhie. Talvez fosse uma forma da alienação, dirão os intelectuais puros, mas eu lá me fui alienando.

Histórias com muitas personagens. ambientes sofisticados, casas senhoriais muito British, uma complicada rede de acontecimentos e um assassino insuspeito. A meio da acção lá ia adivinhando ou tentando adivinhar quem seria o escolhido.

Mas nos "Diez negritos", porque o li em espanhol, não consegui.

Passados tantos anos, a RTP2 brinda-nos com a adaptação à época moderna desta história, "No Início, Eram Dez...", feita por um grupo de idiotas franceses.

Numa ilha tropical... vista do céu.

- "Ó pá arranja umas centenas de velas, umas bonecas velhas,, uns terços, umas velharias de vudu, muitas folhas, umas mulheres boas, pelo menos um indivíduo de tez escura para dar um ar cosmopolita, mais uns idiotas, uns tantos bichos tenebrosos: aranhas, escorpiões, cobras, etc., vai aos adereços e traz todo o lixo que encontrares.

Arranja uns sons tenebrosos, gritos, ranger de dentes e de correntes, suspiros e suspeitas, ribombar de trovões... Mistura tudo numa caldeirada.

Aos atores nem precisas de pagar, porque pouco têm a dizer, mas muito têm de correr e o exercício só faz bem. Correm em grupo que assim recebem todos por igual, sendo que temos de considerar o número de episódios em que aparecem. Os que morrem mais cedo ganham menos, percebido?

Tá PRONTO. Manda prò ar!"

Lá se foram os meus diez negritos. Dá-se um prémio a quem conseguir ver todos os episódios.

terça-feira, 29 de junho de 2021

DECIDIR NO MUNDO DOS POKÉMON

Ontem, o Francisco introduziu-me ao mundo dos Pokémon.

Encontrei-o a atravessar o parque com o irmão. Segurava nas mãos, com cuidado, uma caixinha de folha.
- Que bonita caixinha, Francisco.
Esta foi a senha de entrada no mundo dos Pokémon!
“São cartas dos Pokémon “preciosas e raras” … etc., etc.
As do arco-íris são as mais valiosas, mas há muitas outras nesse mundo complexo criado pelos japoneses onde sete cartas de Pokémon TCG valem mais do que um carro dos baratos, está claro.
Então já perdida em tanta informação longa e complexa, à mistura com palavras inglesas, ouço o Francisco dizer:
“Mas eu decidi…”
Aquele dez reis de gente que fala que se desunha, que paga em sacos peados e não quer que ninguém o ajude, já decide.
Compreendo. Francisco, queres ser igual aos teus heróis, o pai e o irmão mais velho.



domingo, 27 de junho de 2021

A NOSSA VELHA E QUERIDA ALIADA

Desde a época do Tratado de Methuen que a nossa "aliada" Inglaterra nos tem brindado com dedicação e carinho enternecedores.

Pese embora quem veja aspetos positivos no referido tratado, eu só consigo enxergar o atraso a que este tratado votou o país e como, ironia das ironias, no Tratado dos Panos e Vinho nós ficamos sem os panos e sem o vinho, porque os ingleses logo foram ocupar as opíparas quintas do Douro, bem instalados, nutridos e enriquecidos.

Isto é o que eu enxergo, mas os ingleses enxergaram isto mesmo e mais. Enxergaram um povo de analfabetos governado por um grupo de aristocratas que só queria engordar os seus proventos, e dominado por um clero que lhes ensinava a obediência e o valor do sifrimento para lhes garantir um lugarzinho no céu.

Portanto, esta vida não interessava, só a que vinha a seguir. O 007 ainda não tinha descoberto que só se vive 2 vezes e naquela época só se vivia 1. Portanto era penar e aguardar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SOBRE O DESAPARECIMENTO DAS LIVRARIAS (consaiderações ao correr da pena)

Silenciosamente ou com um discreto ruído há muito tempo que as livrarias têm vindo a fechar. Não é um fenómeno lisboeta ou português. O mesmo acontece em toda a Europa e provavelmente em todo o mundo.

O livro em papel continua, no entanto, a ter o seu lugar de destaque, mas é quase sempre vendido online, através das grandes distribuidoras internacionais e nacionais, enquanto existir público que valorize a sua existência.
A mesma hecatombe atingiu as pequenas e médias editoras, absorvidas pelos grandes grupos ou simplesmente abandonadas. A Europa-América cuja livraria na Av. Marquês de Tomar, em Lisboa, organizou todo o tipo de estratégias para se manter, acabou por sucumbir.
Dar importância ao livro e através dele a de todos os que escrevem passa pela sua divulgação em clubes de leitura, em tertúlias, em feiras, etc.
Para suster esta mortandade cabe a todos nós desenvolver o gosto pela leitura, mas não como é feito na maioria dos estabelecimentos de ensino, que transforma o ato de ler num pesadelo.
O gosto pela leitura nos mais jovens cria-se não através da imposição de livros eruditos mas começando pelos livros de aventuras, policiais, ficção científica, livros humorísticos, insólitos ou surreais, romances com enredos intrincados, mas sobretudo através de uma grande liberdade de escolha e de troca de opiniões e de sugestões.
Na disciplina de Português, sim, cabem alguns clássicos e é importante que os alunos tenham uma noção da nossa história literária e de textos dos nossos grandes autores.
A minha censura vai sobretudo para os chamados livros de leitura obrigatória que a maior parte das vezes não passam de mais um truque para a super-editora vender uma carrada de livros. E se o livro é chato, como tantas vezes acontece, há já um série de resumos e de respostas na Internet que permite contornar o sacrifício. Felizmente parece-me que há já muitas escolas que rompem essas imposições e escolhem com liberdade.
E por favor não se esqueçam da leitura em voz alta feita por uma pessoa de carne e osso. Uma forma de aliciar os jovens para a leitura.

sábado, 1 de maio de 2021

MUGUET, LA FLEUR DE L´AMITIÉ

O muguet é uma flor dicreta, rara em cultivo ao ar livre, pouco apreciada entre nós. É a flor da amizade, dizem os franceses.
Realmente, a amizade é DISCRETA, RARA e PERFUMADA, como esta flor.
O meu comentário não envolve remoque ou censura, porque a amizade, tal como o amor, faz-nos sofrer quando vemos os nossos amigos doentes, ameaçados, tristes. O nosso coração não suporta esse infinito sofrimento. Vamos, pois, selecionando os amigos, aqueles a quem a vida nos foi ligando, através de um cordão tecido no passar dos dias, dos meses e dos anos.