Hoje,
dia 7 de Maio, um dos meus netos, transido de medo foi fazer o EXAME do
quarto ano. Solenemente, porque frequenta um colégio de muito bom nome
que, é claro, não vou nomear, e foi deslocado para uma escola secundária.
Pompa e circunstância.
Antes de entrar, depois de uma noite sem dormir, foi três vezes à casa de banho. Os pais nervosíssimos e os professores e as diretoras, não menos agitados, acompanharam a caravana até à escola.
Como tenho pena do meu neto e dos colegas que tremiam ante a solenidade do ato. Venho, pois, publicamente agradecer ao, por vezes tão elogiado, ministro da educação, esta lição que está a dar aos alunos deste país. Enquanto a violência cresce nas escolas, este senhor vai ressuscitando gradualmente o passado. O passado porque tantos aspiram e de que eu tão bem me lembro.
Tal como o meu neto com menor pompa e menos circunstância também fui fazer o meu exame da quarta classe a uma escola pública, porque frequentava um colégio. Era uma escola situada num prédio antigo do Porto e fomos só nós, 30 alunos, os recebidos nesse dia solene para fazer prova dos nossos conhecimentos. Mais familiar o acontecimento e com muito menos aparato. Mas o sistema de ensino era parecido. Acumulávamos, e falo apenas de Língua Portuguesa, conhecimentos gramaticais. A gramática era literalmente empinada. Começava assim: "A gramática divide-se em fonologia, morfologia e sintaxe..." Seguiam-se as definições de cada uma das áreas, e logo os respetivos conceitos que íamos debitando em coro quando era o momento adequado. Por exemplo: "Substantivos são os nomes das pessoas, animais e coisas, acções, qualidades e estados." Não havia explicações e era comum os alunos andarem a vida inteira a confundir substantivos, adjectivos e advérbios. Não que fosse muito importante para o bom uso do Português falado ou escrito. Andei todo o liceu às voltas com a tal de gramática que só percebi finalmente no sexto ano, quando, por magia, comecei a estudar Latim e a traduzir textos de escritores latinos. Confesso que foi um dos grandes prazeres da minha vida académica estudar esta língua morta.
Hoje, a nomenclatura gramatical assume contornos gigantescos e a falta de preparação de muitos professores conduz ao proliferar de livros mágicos para apoio às dificuldades dos alunos. Apertados neste espartilho de uma nomenclatura diferente e cada vez mais complexa, os professores recorrem em larga escala ao método do empinanço enquanto o tempo lhes escasseia para pôr os alunos a escrever, a ler e a gostarem do que lêem, a interpretar o que leram. Os linguistas esfregam as mãos, porque chegou o reinado deles. Nada de explicações, a semântica enterra-se debaixo de um gramática seca e sem sentido. Depois, a experiência destas crianças, futuros adolescentes é a de descobrirem tarde, se tiverem essa oportunidade, que os alunos dos países anglófonos têm um treino de escrita e de leitura com o qual eles se vêem obrigados a competir. Se tiverem pernas, correm, esfalfam-se e esquecem a tal nomenclatura, porque dela só meia dúzia de noções são realmente necessárias.
Mas vamos lá ao exame. Nada de difícil. Fazer cruzes e no fim a tal composição. Vinte a vinte e cinco linhas. E aqui é que elas doem. Com tanto conteúdo gramatical, não tiveram tempo para escrever, nem para ler histórias divertidas e motivadoras, porque o texto instrucional, o texto informativo e quejandos se diluiram perante esta premência. O texto narrativo posto em causa, também obscurece. E ler, ler por prazer, ter vontade de ler mais, desaparece por completo.
Meus queridos meninos, que hoje estais a prestar provas dos vossos conhecimentos, desejo-vos muita sorte, e quero dizer-vos que estudar a nossa língua é bom, porque ela nos permite ler coisas maravilhosas, dá-nos acesso ao sonho e ao prazer, porque ela nos permite escrever e deitar cá para fora o nosso mundo, as nossas experiências, porque ela é a nossa pele e não uma camada de nomes complicados que vos vão metendo na cabeça com um funil.
Antes de entrar, depois de uma noite sem dormir, foi três vezes à casa de banho. Os pais nervosíssimos e os professores e as diretoras, não menos agitados, acompanharam a caravana até à escola.
Como tenho pena do meu neto e dos colegas que tremiam ante a solenidade do ato. Venho, pois, publicamente agradecer ao, por vezes tão elogiado, ministro da educação, esta lição que está a dar aos alunos deste país. Enquanto a violência cresce nas escolas, este senhor vai ressuscitando gradualmente o passado. O passado porque tantos aspiram e de que eu tão bem me lembro.
Tal como o meu neto com menor pompa e menos circunstância também fui fazer o meu exame da quarta classe a uma escola pública, porque frequentava um colégio. Era uma escola situada num prédio antigo do Porto e fomos só nós, 30 alunos, os recebidos nesse dia solene para fazer prova dos nossos conhecimentos. Mais familiar o acontecimento e com muito menos aparato. Mas o sistema de ensino era parecido. Acumulávamos, e falo apenas de Língua Portuguesa, conhecimentos gramaticais. A gramática era literalmente empinada. Começava assim: "A gramática divide-se em fonologia, morfologia e sintaxe..." Seguiam-se as definições de cada uma das áreas, e logo os respetivos conceitos que íamos debitando em coro quando era o momento adequado. Por exemplo: "Substantivos são os nomes das pessoas, animais e coisas, acções, qualidades e estados." Não havia explicações e era comum os alunos andarem a vida inteira a confundir substantivos, adjectivos e advérbios. Não que fosse muito importante para o bom uso do Português falado ou escrito. Andei todo o liceu às voltas com a tal de gramática que só percebi finalmente no sexto ano, quando, por magia, comecei a estudar Latim e a traduzir textos de escritores latinos. Confesso que foi um dos grandes prazeres da minha vida académica estudar esta língua morta.
Hoje, a nomenclatura gramatical assume contornos gigantescos e a falta de preparação de muitos professores conduz ao proliferar de livros mágicos para apoio às dificuldades dos alunos. Apertados neste espartilho de uma nomenclatura diferente e cada vez mais complexa, os professores recorrem em larga escala ao método do empinanço enquanto o tempo lhes escasseia para pôr os alunos a escrever, a ler e a gostarem do que lêem, a interpretar o que leram. Os linguistas esfregam as mãos, porque chegou o reinado deles. Nada de explicações, a semântica enterra-se debaixo de um gramática seca e sem sentido. Depois, a experiência destas crianças, futuros adolescentes é a de descobrirem tarde, se tiverem essa oportunidade, que os alunos dos países anglófonos têm um treino de escrita e de leitura com o qual eles se vêem obrigados a competir. Se tiverem pernas, correm, esfalfam-se e esquecem a tal nomenclatura, porque dela só meia dúzia de noções são realmente necessárias.
Mas vamos lá ao exame. Nada de difícil. Fazer cruzes e no fim a tal composição. Vinte a vinte e cinco linhas. E aqui é que elas doem. Com tanto conteúdo gramatical, não tiveram tempo para escrever, nem para ler histórias divertidas e motivadoras, porque o texto instrucional, o texto informativo e quejandos se diluiram perante esta premência. O texto narrativo posto em causa, também obscurece. E ler, ler por prazer, ter vontade de ler mais, desaparece por completo.
Meus queridos meninos, que hoje estais a prestar provas dos vossos conhecimentos, desejo-vos muita sorte, e quero dizer-vos que estudar a nossa língua é bom, porque ela nos permite ler coisas maravilhosas, dá-nos acesso ao sonho e ao prazer, porque ela nos permite escrever e deitar cá para fora o nosso mundo, as nossas experiências, porque ela é a nossa pele e não uma camada de nomes complicados que vos vão metendo na cabeça com um funil.
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