Homenagem a
Jeremias Alves Nunes de Pina, nascido em 1877, filho de João Alves Luís e de Francisca
Nunes de Pina. Tal como muitos outros loriguenses
emigrou para o Brasil tendo vindo a fixar residência em Manaus, onde publicou,
em 1906, o periódico Echos de Loriga,
em 1909, o periódico A Voz de Loriga
e, em 1910, O Povo de Loriga. Colaborou
ainda com o periódico Echo Luzitano. Através
destas publicações noticiosas mobilizou muitos emigrantes a colaborarem na
melhoria das condições de vida da sua terra, lutou pela liberdade de expressão
e pela importância do conhecimento na formação dos jovens, tendo sido um dos
fundadores o Prémio Escolar Loriguense que concedia anualmente prémios aos
melhores alunos e livros aos mais pobres. Isto em 1906, numa aldeia recôndita e
esquecida do interior de Portugal.
Na varanda escancarada sobre
a noite, sozinho com os seus pensamentos e com o cigarro. Está sempre calor, um calor abafado e húmido.
O corpo escorre suor. Sente-se sujo como se não houvesse banho capaz de o refrescar.
No
imenso céu brilham estrelas diferentes das que os seus olhos de criança tinham
aprendido a amar. Este céu é maior, mais leve, mais claro, mas o ar que se
respira é pesado e morno. Não tem a frescura do ar da sua terra. A estrela
polar ficou lá para o norte e, agora, é o Cruzeiro do Sul que lhe serve de
guia. Quando era pequeno a mãe Francisca apontava-lhe uma estrela no céu e
murmurava baixinho: “Aquela é a tua
estrela”. Era o ponto mais luminoso do céu e só muitos anos mais tarde
descobriu que afinal não era uma estrela. Era um planeta. Mas guardava-a no seu
coração como se fosse uma joia e para ele aquela era a estrela polar, a que
guiara os navegantes no mar oceano que ele tinha atravessado. Naquelas paragens
onde agora vivia, a estrela polar fora substituída por uma pequena constelação,
o Cruzeiro do Sul ou Crux, a Cruz, onde brilhavam as duas estrelas Gacrux e
Acrux que indicavam o Polo Sul celeste
e, para ele, aquela constelação era um sinal divino. Quando os seus olhos, como os de tantos outros
“expatriados das serras”, olhavam o céu procurando o auxílio divino viam a cruz
e sabiam que era através dela que
venceriam.
Mas a noite tropical é tentadora e voluptuosa
e os pensamentos deslizam. É a noite dos sentidos, cheirosa, quente, sensual,
onde o corpo arde e o desejo alastra. O fumo do cigarro enrola-se langoroso, desfaz-se
em múltiplas espirais que lhe lembram as curvas de um corpo feminino, as
carícias de uma mulher. E sabe o quanto é fácil consegui-las naquela terra
sempre prenhe. Procura afastar esses pensamentos pecaminosos. Talvez os homens que
trabalham na rudeza de amassar o barro lá para as margens do rio Negro, talvez
esses consigam resistir à tentação, porque os seus corpos macerados pelo
esforço exigem descanso. Como é fácil pecar naquela terra, pensa ele, ouvindo longínquo
o eco das vozes das mulheres que, na sua aldeia distante, rezam o rosário no
mês de Maio, e uma vez mais as predicações do seu pai, João Alves Luís, que o incita a uma vida honesta, a construir
uma família como ele fizera quando trocara o ofício de sacerdote pelo de criador
de um lar. Jeremias sorri e pensa que o pai sentiu tal como ele sente, a
tentação mas seguiu o caminho da honestidade.
Naquela terra do hemisfério
sul onde agora vive, tudo se expande, tudo é maior, mais forte, mais intenso.
Uma mistura de cheiros exóticos e prazerosos inunda a varanda. Aspira esses
aromas e sente saudades do cheiro dos pinheiros molhados depois das primeiras
chuvas, das giestas, do tojo, dos cheiros vivos e jovens da sua aldeia do outro
lado do mundo onde tinha nascido e toda a sua família vivido desde os tempos de
Viriato,
As pequenas, delicadas e
discretas flores da urze, minúsculas campânulas que enfeitam a serra, a giesta
e o tojo amarelos, a carqueja perfumada são plantas humildes mas de uma
requintada beleza. Talvez muitos nem as sintam e se deslumbrem com a dimensão e
variedade das folhas, das árvores e das flores, que crescem na região do
Amazonas. São realmente vistosas, exuberantes e ninguém lhes fica indiferente. Mas
nem a flor nem imensa folha da vitória régia tem a alma que ele pressente na
modéstia das pequenas plantas da sua terra.
Na sua aldeia pequenina,
abrigada na serra, tudo se encolhe, tudo é interior, tudo se curva à procura de
calor, as mulheres enroladas em grossos xales de lã preta, os homens encerrados
nos capotes de lã cardada. Apetece a lareira, um teto ainda que de telha vã
para abrigo, apetece à noite estar lá dentro e ouvir as histórias de
antigamente enquanto as sombras trémulas se projetam nas paredes. Não há
eletricidade e na escuridão vivem fantasmas e mouras encantadas, cavalgam
lobisomens. É como se houvesse dois mundos, o das pessoas que como formigas se
agrupam à volta do adro da igreja, e o mundo invisível dos seres estranhos que
povoam as nascentes, os regatos, as sombras e a noite.
Também a água imensa do
Amazonas e dos seus afluentes se espraia como se quisesse alagar toda a terra.
A natureza perdeu o pudor ali nos trópicos, rebenta em jorros de vida, domina o
homem, arrasta, barrenta e grossa, a
terra, os galhos, os troncos, os animais. A água da sua aldeia despenha-se cristalina
e rumorejante nas nascentes. Canta fresca nas tardes de verão e contrai-se em
gelo quando chega o inverno. Então adormece enquanto toda a vida repousa
debaixo de um manto branco e puro até renascer com os raios primaveris.
Mas foi ali, nos trópicos,
que as suas ideias floresceram, foi ali que deslumbrado conheceu os clubes
literários, frequentou as tertúlias, o teatro, a ópera, foi ali que compreendeu
o quanto era importante a instrução que recebera de um pai letrado, foi ali que
compreendeu que o conhecimento não é um conjunto de frases bonitas, feitas para
frequentar os salões e os círculos sociais mais endinheirados. Ali, ele
compreendeu que o conhecimento é a alavanca do progresso e que o povo da sua
aldeia que trabalha há tantos séculos, e se abriga naquela aldeia presépio é um
povo que merece o progresso, descobrir o mundo, ter à sua disposição o conhecimento. Se Deus lhe deu a ele o
privilégio de ser bem sucedido em Manaus, com a ajuda dos seus irmãos e
parentes que tinham desbravado o terreno, cortado as silvas e alisado o
caminho, se Deus lhe deu um pai tão sabedor e uma mãe tão cuidadosa e devotada,
ele deve retribuir e ajudar os outros a descobrir o mundo, o conhecimento, o
progresso.
Entra na sala onde a máquina
de escrever está já preparada. Um ruído fá-lo olhar para trás.
- És tu Emídio? Ainda bem
que chegaste.
- Então não tínhamos
combinado que era hoje o dia de começar de novo? Vamos lá mostrar aos que nos
querem calar, aos que lutam contra o progresso, às mentes obscuras da nossa
terra que nós não somos de desistir.
- Tens razão. Hoje vai nascer
mais um jornal que há-de chegar à nossa terra tal como os outros chegaram. É
pena que o José se tenha casado naquela família de jesuítas. Tenho pena porque
ele é bom homem e bem me ajudou quando aqui cheguei.
- Somos irmãos, mas pensamos
de forma diferente. O António também acha que estamos a perder tempo e a
arranjar sarilhos.
- Às tantas até tem razão,
mas cá estaremos para lhes fazer frente. Se o João não tivesse morrido, estava
aqui connosco. Vir morrer aqui tão longe. Todos os dias penso nele.
- Eu também – murmurou Emídio
com as lágrimas a assomarem nos olhos. Em nome dele, em nome dos que sofreram e
sofrem para ter uma vida melhor, temos de fazer este jornal.
- E faremos. No dia 5 de
Junho, exatamente um ano depois de termos publicado o primeiro número de A Voz de Loriga, teremos um novo jornal.
Depois dos Echos de Loriga, depois de
A Voz de Loriga, não queremos mais
sons. Queremos pessoas. Que tal chamar-lhe O
Povo de Loriga?
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