sábado, 28 de maio de 2016

O POVO DE LORIGA



Homenagem a Jeremias Alves Nunes de Pina, nascido em 1877, filho de João Alves Luís e de Francisca Nunes de Pina.  Tal como muitos outros loriguenses emigrou para o Brasil tendo vindo a fixar residência em Manaus, onde publicou, em 1906, o periódico Echos de Loriga, em 1909, o periódico A Voz de Loriga e, em 1910, O Povo de Loriga. Colaborou ainda com o periódico Echo Luzitano. Através destas publicações noticiosas mobilizou muitos emigrantes a colaborarem na melhoria das condições de vida da sua terra, lutou pela liberdade de expressão e pela importância do conhecimento na formação dos jovens, tendo sido um dos fundadores o Prémio Escolar Loriguense que concedia anualmente prémios aos melhores alunos e livros aos mais pobres. Isto em 1906, numa aldeia recôndita e esquecida do interior de Portugal.
 
Na varanda escancarada sobre a noite, sozinho com os seus pensamentos e com o cigarro.  Está sempre calor, um calor abafado e húmido. O corpo escorre suor. Sente-se sujo como se não houvesse banho capaz de o refrescar.
No imenso céu brilham estrelas diferentes das que os seus olhos de criança tinham aprendido a amar. Este céu é maior, mais leve, mais claro, mas o ar que se respira é pesado e morno. Não tem a frescura do ar da sua terra. A estrela polar ficou lá para o norte e, agora, é o Cruzeiro do Sul que lhe serve de guia. Quando era pequeno a mãe Francisca apontava-lhe uma estrela no céu e murmurava baixinho:  “Aquela é a tua estrela”. Era o ponto mais luminoso do céu e só muitos anos mais tarde descobriu que afinal não era uma estrela. Era um planeta. Mas guardava-a no seu coração como se fosse uma joia e para ele aquela era a estrela polar, a que guiara os navegantes no mar oceano que ele tinha atravessado. Naquelas paragens onde agora vivia, a estrela polar fora substituída por uma pequena constelação, o Cruzeiro do Sul ou Crux, a Cruz, onde brilhavam as duas estrelas Gacrux e Acrux que indicavam o Polo Sul celeste  e, para ele, aquela constelação era um sinal divino.  Quando os seus olhos, como os de tantos outros “expatriados das serras”, olhavam o céu procurando o auxílio divino viam a cruz e sabiam que era através dela que  venceriam.
 Mas a noite tropical é tentadora e voluptuosa e os pensamentos deslizam. É a noite dos sentidos, cheirosa, quente, sensual, onde o corpo arde e o desejo alastra. O fumo do cigarro enrola-se langoroso, desfaz-se em múltiplas espirais que lhe lembram as curvas de um corpo feminino, as carícias de uma mulher. E sabe o quanto é fácil consegui-las naquela terra sempre prenhe. Procura afastar esses pensamentos pecaminosos. Talvez os homens que trabalham na rudeza de amassar o barro lá para as margens do rio Negro, talvez esses consigam resistir à tentação, porque os seus corpos macerados pelo esforço exigem descanso. Como é fácil pecar naquela terra, pensa ele, ouvindo longínquo o eco das vozes das mulheres que, na sua aldeia distante, rezam o rosário no mês de Maio, e uma vez mais as predicações do seu pai, João Alves Luís,  que o incita a uma vida honesta, a construir uma família como ele fizera quando trocara o ofício de sacerdote pelo de criador de um lar. Jeremias sorri e pensa que o pai sentiu tal como ele sente, a tentação mas seguiu o caminho da honestidade.
Naquela terra do hemisfério sul onde agora vive, tudo se expande, tudo é maior, mais forte, mais intenso. Uma mistura de cheiros exóticos e prazerosos inunda a varanda. Aspira esses aromas e sente saudades do cheiro dos pinheiros molhados depois das primeiras chuvas, das giestas, do tojo, dos cheiros vivos e jovens da sua aldeia do outro lado do mundo onde tinha nascido e toda a sua família vivido desde os tempos de Viriato,
As pequenas, delicadas e discretas flores da urze, minúsculas campânulas que enfeitam a serra, a giesta e o tojo amarelos, a carqueja perfumada são plantas humildes mas de uma requintada beleza. Talvez muitos nem as sintam e se deslumbrem com a dimensão e variedade das folhas, das árvores e das flores, que crescem na região do Amazonas. São realmente vistosas, exuberantes e ninguém lhes fica indiferente. Mas nem a flor nem imensa folha da vitória régia tem a alma que ele pressente na modéstia das pequenas plantas da sua terra.  
Na sua aldeia pequenina, abrigada na serra, tudo se encolhe, tudo é interior, tudo se curva à procura de calor, as mulheres enroladas em grossos xales de lã preta, os homens encerrados nos capotes de lã cardada. Apetece a lareira, um teto ainda que de telha vã para abrigo, apetece à noite estar lá dentro e ouvir as histórias de antigamente enquanto as sombras trémulas se projetam nas paredes. Não há eletricidade e na escuridão vivem fantasmas e mouras encantadas, cavalgam lobisomens. É como se houvesse dois mundos, o das pessoas que como formigas se agrupam à volta do adro da igreja, e o mundo invisível dos seres estranhos que povoam as nascentes, os regatos, as sombras e a noite.
Também a água imensa do Amazonas e dos seus afluentes se espraia como se quisesse alagar toda a terra. A natureza perdeu o pudor ali nos trópicos, rebenta em jorros de vida, domina o homem, arrasta, barrenta e grossa,  a terra, os galhos, os troncos, os animais. A água da sua aldeia despenha-se cristalina e rumorejante nas nascentes. Canta fresca nas tardes de verão e contrai-se em gelo quando chega o inverno. Então adormece enquanto toda a vida repousa debaixo de um manto branco e puro até renascer com os raios primaveris.
Mas foi ali, nos trópicos, que as suas ideias floresceram, foi ali que deslumbrado conheceu os clubes literários, frequentou as tertúlias, o teatro, a ópera, foi ali que compreendeu o quanto era importante a instrução que recebera de um pai letrado, foi ali que compreendeu que o conhecimento não é um conjunto de frases bonitas, feitas para frequentar os salões e os círculos sociais mais endinheirados. Ali, ele compreendeu que o conhecimento é a alavanca do progresso e que o povo da sua aldeia que trabalha há tantos séculos, e se abriga naquela aldeia presépio é um povo que merece o progresso, descobrir o mundo, ter à sua disposição o  conhecimento. Se Deus lhe deu a ele o privilégio de ser bem sucedido em Manaus, com a ajuda dos seus irmãos e parentes que tinham desbravado o terreno, cortado as silvas e alisado o caminho, se Deus lhe deu um pai tão sabedor e uma mãe tão cuidadosa e devotada, ele deve retribuir e ajudar os outros a descobrir o mundo, o conhecimento, o progresso.
Entra na sala onde a máquina de escrever está já preparada. Um ruído fá-lo olhar para trás.
- És tu Emídio? Ainda bem que chegaste.
- Então não tínhamos combinado que era hoje o dia de começar de novo? Vamos lá mostrar aos que nos querem calar, aos que lutam contra o progresso, às mentes obscuras da nossa terra que nós não somos de desistir.
- Tens razão. Hoje vai nascer mais um jornal que há-de chegar à nossa terra tal como os outros chegaram. É pena que o José se tenha casado naquela família de jesuítas. Tenho pena porque ele é bom homem e bem me ajudou quando aqui cheguei.
- Somos irmãos, mas pensamos de forma diferente. O António também acha que estamos a perder tempo e a arranjar sarilhos.
- Às tantas até tem razão, mas cá estaremos para lhes fazer frente. Se o João não tivesse morrido, estava aqui connosco. Vir morrer aqui tão longe. Todos os dias penso nele.
- Eu também – murmurou Emídio com as lágrimas a assomarem nos olhos.  Em nome dele, em nome dos que sofreram e sofrem para ter uma vida melhor, temos de fazer este jornal.
- E faremos. No dia 5 de Junho, exatamente um ano depois de termos publicado o primeiro número de A Voz de Loriga, teremos um novo jornal. Depois dos Echos de Loriga, depois de A Voz de Loriga, não queremos mais sons. Queremos pessoas. Que tal chamar-lhe O Povo de Loriga?

Maria Alzira Cabral, sobrinha–neta de Jeremias de Pina

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