domingo, 11 de dezembro de 2016

LAGOA


 Conto inspirado numa história real, publicado na antologia "VI(R)AGEM", colaboração do Grupo de Comunicação Novembro com  ASAS - Associação de Solidariedade e Ação Social de Santo Tirso

Manuel Filipe Lagoa, o seu nome de batismo, fora uma profecia. Calado, de feitio tranquilo, vivia o dia a dia sem preocupação de sucesso ou de luxo. Queria apenas ser livre e olhar as coisas, com o vento a bater-lhe no rosto, tal e qual como uma lagoa.
Uma lagoa é um lago de pequenas dimensões. Quando ele era garoto, conhecia apenas os lagos dos jardins de tamanho tão reduzido que não conseguia imaginar como seria uma lagoa. Talvez fosse parecida com um charco ou com uma poça de água da chuva. Ou talvez com um pântano, embora um pântano possa ser enorme como aquele em que ele próprio se tinha afundado.
Agora que crescera e aprendera e desaprendera tanta coisa na escola da vida fazia ideia do que era uma lagoa e também imaginava um lago. Tinha ouvido falar das lagoas das Sete Cidades, nos Açores, uma azul outra verde, de dimensões muito maiores do que as da sua alma aprisionada. Em pensamento, via-se escondido na vegetação rasteira das margens, deitado no chão, a olhar para o alto. Os seus olhos tornavam-se então lagoas minúsculas ou charcos em que o azul do céu se refletia e compreendia que uma lagoa  mais do que um olho gigantesco em que o céu se reflete é um grito de liberdade paralisado. Não se pode aprisionar uma lagoa, metê-la entre quatro paredes, fazer correr as suas águas como as de um rio, ou emprestar-lhe o ímpeto e a violência do mar. Porque uma lagoa é assim, livre, parada, indolente, sem preocupações. Também sabia que aqueles pedaços de água, felizes e quietos, apenas porque existem e se enamoraram do céu, podem ser invadidos por algas insignificantes mas persistentes e destruidoras como as pragas, ou então por invisíveis águas subterrâneas, infetadas de toda a espécie de germes que lhes alteram a cor da água e a tornam baça, destruindo a ligação amorosa entre um pedaço de água e um pedaço de céu. Sabia tudo isso porque o seu nome era Lagoa e a sua vida fora subtilmente infetada por algas e águas poluídas.

Nunca gostara da escola, mas aceitava-a como uma espécie de obrigação parecida com as vacinas ou as doenças. Arrastava-se pelas salas de aula. Gostava de olhar o recreio e os eternos prédios por detrás do muro, daquele muro que ele queria pular. O céu, ora cinzento ora azul, às vezes tinha nuvens e ele entretinha-se a fitar aqueles novelos de algodão branco até  adormecer. A professora chamava:
- Filipe, lá estás tu a olhar para ontem. Se não terminares a cópia não vais ao recreio.
E embora ele não soubesse o que era olhar para ontem, sabia que queria ir ao recreio e espreguiçava-se sobre o traço do T que lhe tinha custado tanto a desenhar. Cansado daquela rotina, muitas vezes, fugia à escola.
Em casa, havia a família, a mãe, as quatro irmãs e os três irmãos, família que ia diminuindo, porque todos trabalhavam e alguns já tinham vida independente.  Também havia um pai que um dia adoeceu e, de repente, sem se perceber porquê, partiu para sempre.
“Quero o meu pai”, chorou o garoto e todos choraram.
A mãe, a mais bonita de todas as mulheres, continuara a chorar sempre como se tivesse perdido a alegria depois daquele dia fatídico. Filipe era o  seu menino a quem desculpava tudo, até as fugas à escola. Os irmãos também o protegiam. Afinal ele era o mais novo e viam-no sempre pequenino. Chamavam-lhe Filipe por ser um nome com um sabor a novidade e mais bonito do que Manuel.
Terminada a quarta classe, o que mereceu elogio das irmãs e dos irmãos que não tinham conseguido ir tão longe, continuou a ser o Filipe durante mais um ano, pois era difícil arranjar um lugar na fábrica de têxteis, na Maia, onde os irmãos trabalhavam. Foi um cunhado quem lhe arranjou o primeiro emprego, porque se tem de começar por algum lado e “em casa não aprendes nada”.
Com treze anos passou a ser o Lagoa, e a aprender o ofício de calceteiro. Os colegas eram mais calejados e, se alguns compreendiam a sua situação de aprendiz, outros exploravam o seu trabalho enquanto fumavam um cigarrito encostados ao muro, ou sentados na borda do passeio. Quando as pedras não ficavam bem encaixadas ele tinha de repetir  a tarefa. Mas o que mais o incomodava eram as anedotas e as piadas que não entendia. E então desejava ser um homem como os outros e perceber todos os segredos da vida.
Também lhe chamaram Lagoa no dia em que foi pela primeira vez ao café. Mas como o salário era mais reduzido do que uma poça da chuva, daquelas muito pequeninas e que secam em minutos, nunca mais voltou até porque depressa se viu a fazer outro trabalho que lhe dava mais uns tostões.
Tinha de se levantar cedo para ir da Trofa até à Maia, onde ajudava na limpeza de uma mina. Não guardava saudades dessa época breve, mas lembrava-se muito bem do dia em que a irmã lhe dissera que ele tinha lugar na fábrica de têxteis.
Foi na fábrica que cresceu. Já não era criança, nem  adolescente, considerava-se um adulto com um salário que lhe permitia ir ao café conviver com os amigos, falar de mulheres e de futebol, como uma pessoa crescida. Namoriscava as raparigas e elas gostavam dele, que era novo e bem parecido. Era mesmo feliz, e o copito que bebia ao final da tarde punha-o  bem disposto consigo, com os outros e em paz com o mundo.
Essa época luminosa em que a vida se abria à sua frente como amorosa estrada onde a sombra das árvores protege da canícula e as folhas, as flores e os frutos embelezam e alimentam a caminhada, quebrou-se de súbito, rasgada por um imenso grito de dor. A mãe partiu para sempre, tal como acontecera com o pai. O dia escureceu e o sol nunca mais brilhou com o fulgor dos outros tempos. Depois do funeral, bebeu mais do que o copito habitual, bebeu até a sua dor se desvanecer debaixo da cortina do álcool, bebeu até esquecer completamente o quanto tinha bebido.
Sentia-se órfão. Muitas vezes via a imagem da mãe e sabia-a a seu lado. Foi assim no dia em que conheceu aquela que viria a ser sua mulher. Delicada, pequenina, bem feita, cabelos loiros, sorriso meigo. Foi amor à primeira vista. Passavam o tempo juntos. Ela sabia a mar e era refrescante mergulhar nas suas águas.
Foram dois anos de enlevo até a novidade estalar. Ia ser pai. A notícia deixou-o tonto. Os amigos, uns felicitavam-no, outros diziam-lhe “Vais meter-te num sarilho”. Os irmãos e as irmãs achavam que era tempo de ele ter uma família, de assumir as responsabilidade de um homem. Tinha vinte e dois anos e ela dezanove.
A criança nasceria em breve e já nada podia esconder a barriga redonda e inchada da companheira. Assim, depois de ter enfrentado os sogros, decidiu esperar que o bebé nascesse e, com calma, casar e batizar o filho.
Aprendeu como era importante o sexo de uma criança, embora não atingisse a razão que dava logo à nascença primazia ao masculino sobre o feminino. Mas a verdade é que os sogros aceitaram muito melhor a notícia quando souberam que vinha aí um rapaz. Passaram a tratar o genro com a estima que se tem por alguém que fez um excelente trabalho. Os amigos deram-lhe os parabéns e louvaram a sua virilidade, pretexto para beberem uma rodada gratuita, que ele ofereceu como exigia a tradição.  
Encheu-se de brio e pagou do seu bolso a boda. De braço dado com a sua mulher caminhou até ao altar, repetindo o caminho que uma multidão de homens e mulheres tinha feito antes dele. E nessa fila interminável estavam os seus pais. Depois levaram à pia batismal o filho.
A mulher deixou a fábrica e passou a dedicar o seu tempo ao marido e ao bebé. No início viviam em casa dos sogros, mas depois alugaram uma casa pequenina, enquanto ele ganhava dinheiro para construir a sua própria casa, tal como iam tentando os seus irmãos e se tinha tornado tradição entre  os homens da sua terra. Contudo, e isso ninguém o dizia, as coisas estavam cada vez mais difíceis.
Foram essas dificuldades que o levaram a tentar a vida de estucador, porque se sentia mais livre e ganhava mais do que na fábrica. Foram ainda essas dificuldades que o levaram até Espanha, onde os estucadores eram bem pagos. Vinha a casa todos os meses. Em Espanha começou a beber mais do que aquilo que já ia bebendo regularmente. Quando anoitecia, depois de um dia de trabalho, não lhe apetecia a solidão do quarto. Sentava-se numa esplanada, que as havia por todo o lado, ou num cafezinho simpático, que os espanhóis sabem criar espaços confortáveis, e encontrava os amigos e a família nos copos que ia bebendo. Até lhe parecia normal a quantidade de líquido que ingeria, porque todos os homens e mulheres, conversadores e barulhentos, que se sentavam ao seu lado, enchiam os tampos das mesas de copos e riam alto, sempre felizes.
Mas a vida é como o tempo. Enganadora. O céu parecia limpo e nada fazia adivinhar a tempestade. Ou então talvez ele não soubesse ler os sinais.
Escasseava o trabalho na construção civil e eram cada vez mais frequentes as discussões com a mulher, que não queria que ele bebesse, nem estivesse tanto tempo com os amigos. Sentia-se aperreado, como se vivesse preso num cubículo, sem o vento a bater-lhe no rosto, e talvez por influência da bebida ou talvez porque ele fosse mesmo assim, imenso, largo e parado como uma lagoa, cada vez precisava mais de liberdade, de fazer o que muito bem lhe apetecia. Naquele dia a troca de palavras foi mais azeda. Como um relâmpago, pegou na trouxa e mudou-se para casa da irmã mais nova.
- Nunca vou esquecer o que me estás a fazer – disse-lhe a mulher lavada em lágrimas.
A irmã era carinhosa, amiga, mas também o enchia de conselhos. E muitas vezes não era só ela eram as outras irmãs, os irmãos, era toda uma família muito mais vasta do que a que tinha abandonado. Ninguém conseguia perceber que ele só era feliz quando bebia.
Afundava-se lentamente no seio mole e pegajoso do álcool, esquecia as dificuldades e as humilhações, esquecia aqueles que o tinham amado e sobretudo o rosto luminoso mas sofredor da mãe que deixara a vida sem se despedir, e a memória pálida de um pai que se desvanecera. A bebida era a esponja que apagava lentamente a realidade até o apagar a ele próprio. E quando deixava de existir como pessoa, o peso e o silêncio tornavam-no um elemento, apenas mais um elemento material de um mundo que não entendia. Adormecia no chão, na soleira de uma porta, no passeio ou mesmo no asfalto da estrada.
Depois as suas  memórias iam-se enrolando e sobrepondo, quebradas, esquecidas, maltratadas.
Perdera o nome, as pessoas evitavam olhá-lo. Confundiam-no com as pedras em que ele se deitava. A liberdade total era a pior de todas  as prisões que conhecera.
Quando os vapores do álcool se dissipavam, sentia vergonha de si próprio e reconhecia a verdade dos conselhos que tinha ouvido. Sentia ainda pena de si porque lhe faltava força para dobrar o destino, uma pena tão grande que nela cabiam todos os que como ele dormiam na rua e tinham desistido da vida. Humanamente frágeis, mostravam-se tantas vezes  desumanos e cruéis, mas todos precisavam de ajuda, nem que fosse apenas para confessar a sua culpa e a sua incapacidade.
Para eles e para si arranjava cobertores, preparava comida, uma casa onde se abrigassem. Foram eles a saliência da ravina a que se agarrou,  a saliência que o ajudou a erguer-se lentamente, embora continuasse escravo da bebida e diariamente repetisse os mesmos gestos de submissão e entrega.
No café tinha conhecido uma mulher que lhe falava com boas palavras, que o queria ajudar, que gostava dele. Às vezes estranhava a suavidade do chão em que tinha adormecido e descobria que fora ela quem o trouxera para casa. Não queria dizê-lo em palavras, até porque achava que estava a trair a mulher e o filho, mas sabia-lhe bem aquele aconchego e lembrava-lhe os mimos da mãe.
Um dia, a assistente social levou-o para conhecer um grupo de homens e mulheres que, como ele, tinham perdido o rumo, e que se reuniam para falar. Contavam-se uns aos outros. Tratavam-no por senhor Manuel.
Ora acontece que, quando alguém está muito tempo imóvel pode perder a capacidade de andar e para reaprender a marcha precisa de ser amparado e vigiado como as crianças. O senhor Manuel precisava de reaprender, e nesse movimento para cima, lembrava-se do filho, que tinha agora 14 anos. Queria voltar a andar depressa porque já estivera muito tempo ausente da vida dele. E um rapaz precisa dos conselhos de um pai, e quem melhor do que ele que experimentara a escuridão da vida para o alertar  para os perigos.
No dia, em que arranjou de novo emprego - era coveiro - assentou os pés na terra com firmeza, e sentado no café pegou no último copo de cerveja.  Olhou para a rua. A mãe do seu filho ia a passar. Jurou a si mesmo que jamais voltaria a beber. Isso era o mínimo que podia fazer por ela.
Regressou a casa da nova companheira, deu-lhe um beijo e sentou-se. Agora, ele sabia que tinha força, que a vida estava nas suas mãos e jamais se dobraria aos caprichos do álcool. Sabia também que podia falar com o filhos olhos nos olhos e dizer-lhe:
- O teu pai é um homem limpo, honesto. Podes ter orgulho em mim, que escapei do inferno e regressei à luz.
Todas as manhãs ia para o cemitério. Cada pazada de terra na cova negra era uma pá de cal na parede branca. Coveiro ou estucador, cumpria a sua missão terrena. Os ofícios servem as necessidades dos homens, neste processo de construção a que se chama vida.
Quando alguém te ajuda a descobrir que nas tuas costas podem nascer ASAS, o cansaço ou desconforto da viagem é compensado pelo calor da mão do outro na tua mão, pelo olhar largo e suave sobre o horizonte das montanhas e do infinito mar, e pelo azul que nasce nos teus olhos como um grito de alegria, pois as algas e as  águas poluídas que empestam as lagoas podem ser destruídas e a relação amorosa entre a água e o céu pode voltar a existir.

Lisboa, 31 de Julho de 2015-07-31
Maria Alzira Cabral



  

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