As vozes contra o Novo Acordo Ortográfico foram-se erguendo mais e mais alvoroçadas à medida que o tempo ia passando. Como um tiro que se tornasse mais nítido quanto maior fosse a distância que percorria. Aos vagos murmúrios que se ouviram durante o seu processo de aprovação seguiu-se um bramido que aumentava nítida e velozmente porque se propagava nas entranhas da pátria e o meio de propagação mais rápido do som é o meio líquido.
Gastemos, pois, uns milhares de euros e paguemos a uma comissão de "sábios" para salvar a Língua Portuguesa e inocular de novo nos aprendizes um acrisolado amor pela mesma. Assim como assim já pagamos a outra comissão para fazer o Acordo. Acrescentemos 7 Ps, 5 Cs, dois acentos gráficos e 3 hífens a cada livro de ensino e os problemas ficam resolvidos. O gosto pela leitura volta, os erros de ortografia desaparecem, a compreensão do que se lê é garantida. Porque realmente o mal está ali no Novo Acordo Ortográfico que perturbou a aprendizagem e confundiu as crianças,
Os "ofendidos" terão finalmente a certeza que não há qualquer relação entre o cágado e o cagado, a minha vizinha deixará de confundir a bactéria com a bateria, e os jovens vão substituir os livros velhos por livros novos e imaculados, sob o altissonante aplauso e os gritos de júbilo das editoras, a bênção dos "sábios" e dos "entendidos" que se de tudo sabem porque não hão-de saber de uma coisa tão simples como é a educação, ou melhor dizendo, uma ínfima parcela desse processo, o ensino do Português.
Efetivamente, todas as pessoas que conheço sabem o que se "devia" fazer para erradicar a pobreza cultural, os erros de ortografia, a ausência de vocabulário e de ideias de um quantidade "enorme" de alunos, E jamais se esqueceriam que esse problema começou com o AO, que introduziu montes de coisas novas (que nada têm a ver com ortografia) e que impedem os pais, mesmo os letrados, de perceberem o que raio é que os alunos aprendem quando aprendem Português.
Um dessas coisas novas é a nomenclatura gramatical. Claro que a palavra "nomenclatura" não está ao alcance de muitos dos peritos do cágado e do cagado e da bactéria e da bateria. Mas isso é de somenos importância. Para eles existe uma amálgama feita de ortografia e de conceitos gramaticais misturados com recursos estilísticos e mais uns pozinhos de uns quantos escritores que escrevem um Português diferente da norma e que de vez em quando saltam lá do fundo, para confluirem nesse caos linguístico que faz sentir tais peritos perdidos e os leva a declarar: "Eu não percebo nada do que eles estudam".
E não percebem eles e, muitas vezes, não percebo eu. Mas isso nada tem a ver com o Novo Acordo Ortográfico. A questão é muito mais vasta. Por agora, esperemos que acrescentados os tais Ps e os tais Cs que tanto nos humilharam, colocados no sítio alguns acentos e alguns hífenes que os "ofendidos" nunca souberam onde se punham, as crianças e jovens comecem finalmente a recitar um canto dos Lusíadas por cada ano de escolaridade, e para os que vão até ao 12º sugiro ainda "A crítica da razão pura", de Kant e "Os manuscritos do Mar Morto" (nada mares muito revoltos para não dar ideias aos jovens, que ideias disparatadas já eles têm muitas, coisa que nós, graças a Deus, nunca tivemos).
E viva a Língua Portuguesa!