quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

LEONARDO, O PINTOR DA GRAÇA DIVINA

Nos esboços e desenhos de Leonardo Da Vinci que servem de estudo a muitas das suas célebres pinturas, o sorriso e a inclinação da cabeça derramam interioridade sobre os rostos. Mais do que na pintura é neles que o pintor traduz a chama delicada e breve, o fulgor da filigrana dourada da alma humana, tal como traduz igualmente a perversidade e a bestialidade noutros. Por isso, estes esboços e desenhos são retratos da condição humana no que ela tem de divino e de bestial.

Este homem que viveu numa Itália e numa época que os filmes não conseguiram ainda traduzir vai sendo a chave para o sucesso de uma série de banalidades de que é exemplo "O Código Da Vinci". Espero que a biografia que Walter Isaacson acaba de publicar consiga trazer até nós um pouco da  genialidade sublime deste homem singular e não se trate apenas de mais um conjunto de suposições ao gosto da época contemporânea e sem qualquer respeito pela época em que o pintor viveu.

Espero porque algumas observações deste biógrafo deixaram-me na dúvida. Em primeiro lugar, a sua obra favorita é "Dama com Arminho". Sem dúvida, um belo retrato. Mas como ignorar "A Virgem e o Menino com Santana", ou "A Virgem dos Rochedos", as obra-primas de Leonardo. Depois, Isaacson fala de A Última Ceia, que se tornou uma verdadeira fixação ou moda dos tempos modernos. Um pintura tão degradada, tão restaurada, tão alterada que deve ser uma imagem pálida do original. Nem Isaacson, nem ninguém que eu conheça, se refere  aos esboços para o rosto dos apóstolos, feitos pelo pintor que se inspirou nos da gente do povo que encontrava nos mercados de Milão, quando fazia as compras para os banquetes do seu patrono,
Ludovico Sforza. Esses esboços são não só belíssimos como extremamente importantes porque revelam o carácter andrógino de vários apostolos e não apenas de João, como é propalado com ar científico em livros de rigor mais do que duvidoso. Mostram também a constância desse traço nos seus retratos, entre os quais se destaca o da Mona Lisa. 

O Leonardo pintor é como a graça divina: ou fala connosco ou jamais o compreenderemos.









domingo, 5 de novembro de 2017

A FUNDAÇÃO GULBENKIAN



 OS JARDINS

O número de pessoas que frequenta as instalações e os fantásticos jardins desta Fundação cresce todos os dias. No Verão chega a ser desagradável tanta gente. Mas é assim mesmo. Gonçalo Ribeiro Telles criou ali os jardins do paraíso e passear através daquela combinação vegetal é estabelecer um diálogo com a harmonia e limpar a alma do cimento e do pó da cidade.
Imagino que os tais jardins do Paraíso cristão e os do paraíso muçulmano, com ou sem dezenas de virgens, sejam assim acolhedores, fragantes e luminosos.
Depois há ainda os concertos ao entardecer quando a noite cobre a beleza radiante dos jardins, e o interior se ilumina e enche de melodia. E ainda as exposições.
A sua colocação num ponto tão central da cidade, com excelentes acessos e com uma garagem às suas ordens, tornam esta Fundação um exemplo dos espaços que precisamos para sobreviver à rotina e à dureza da cidade.

 OS RESTAURANTES

Depois da minha declaração de incondicional amor por este espaço citadino, venho manifestar o meu pesar com os locais de restauração públicos da dita Fundação. Todos? Não.


O restaurante self-service do CAM continua o mesmo ao longo dos anos. Até as infindáveis filas de espera ao fim de semana são as mesmas. O pessoal é o mesmo. Gente muito simpática A comida é a mesma e o serviço também. Chamava-lhe a carinhosamente a "sopa dos pobres", mas não imaginam o quanto eu gosto da relação qualidade/preço do local. Como é agradável comer sentada, num espaço com muita madeira e muita luz, a olhar as árvores do jardim. O meu voto positivo para a resiliência (uma palavra muito na moda) deste restaurante. Um caso (quase) único. 

Agora aquele restaurante da Fundação propriamente dita, que tem vindo a mudar de gestão, de tempos a tempos, não se recomenda nem ao pior inimigo. Quem foi que escolheu aquela decoração de mau gosto, cheia de alumínios? Quem foi que escolheu aqueles gestores que ganham dinheiro a servir inenarráveis comes e bebes? Quem foi que inventou aquele processo de servir com bandeirinha? Quem foi que entregou aquele espaço a um bando de levianos sugadores do dinheiro alheio, que sabem que haverá sempre alguém que cai naquela esparrela? O meu voto negativo para esta espelunca. Sugiro que coloquem um escaparate com pastilhas Gorila, chupa-chupas e seus afins.

O terceiro espaço foi criado há poucos anos no meio do jardim. No início as atenções com a clientela eram imensas. Gostou? Não gostou? Temos isto. Temos aquilo. Quer provar? Os fregueses eram poucos, porque o restaurante da Gulbenkian, o tal atualmente "aluminizado", estava ativo. Mas agora chovem clientes no meio do jardim. E lá se foi toda a atenção. E lá se foi um bom serviço à mesa. Os preços não são propriamente baratos, atendendo ao que é servido.

Há dois anos, há um ano, havia mais requinte. Agora, toca a despachar. Até percebo, quando a clientela é tanta que me lembra a diligência do Ramalho Ortigão. Mas não é sempre assim. E também se procuram soluções para esta abundância.

AS EXPOSIÇÕES

É claro que não posso deixar de falar de duas exposições atualmente patentes na Fundação: "Ana Hatherly e o Barroco" (no rés-do-chão, frente ao restaurante "aluminizado") e "Do Outro Lado do Espelho" (salão principal do 1º andar).

Vou tentar explicar o que penso sobre estas exposições. Ambas estabelecem diálogo com o público. E isto é o maior elogio que se pode fazer a uma exposição. Porque as pessoas precisam de cultura como as fechaduras enferrujadas de óleo. E servir-lhes a dita cultura de uma forma muito hermética, muito erudita e com o seu quê de sagrado, afasta as pessoas. Divulgar uma obra tão delicada e interessante como a de Ana Hatherly é necessário, como é essencial que tal seja feito da forma inteligente e apelativa como esta exposição o faz. 

O mesmo se pode dizer da obra do andar superior. Atraente, apresentada de uma forma que suscita o diálogo e nos faz pensar no conceito que preside à reunião daquelas belíssimas obras, que nos faz pensar em nós e na nossa identidade.

E enquanto passaeava por aquelas salas só pensava: "É obrigatório trazer os meus netos a verem estas exposições. A Matilde vai adorar a delicadeza e a minúcia dos trabalhos da Ana Hatherly. Vai ter uma epifania."

Vão ver.




terça-feira, 19 de setembro de 2017

Ate-se como quiser


Em 2014, o juiz Rui Teixeira, que conduziu a instrução do processo "Casa Pia" e que agora está colocado no Tribunal de Torres Vedras, não quer os pareceres técnicos sociais com o novo Acordo Ortográfico. Na altura publiquei no Facebook a resposta que abaixo transcrevo:


Meu caro Juiz,
A ignorância continua a ser uma coisa mal-cheirosa, com ou sem acordo ortográfico. Agradecia que me explicasse o que têm os cágados a ver com o acordo ortográfico. Como certamente devia saber até porque tem formação que a isso obriga, as palavras esdrúxulas, é o caso de cágado, continuam a ter um acento gráfico obrigatório na antepenúltima silaba. Portanto, deverá continuar a colocar obrigatoriamente acento em palavras tais como história, última, número, sílaba, cágado, etc. Não sabia o senhor magistrado que era uma pilhéria (palavra também esdrúxula) dos detratores do referido acordo, a história do cágado bem como muitas outras. Por outro lado, antes de proibir seja o que for, deverá tal como nós o fazemos honrar os acordos que nós, Portugueses, assinamos, e não é a patente de juiz que lhe confere o direito a ter leis especiais na sua comarca. Quando foi discutido o referido acordo não me lembra de ter ouvido a sua voz erguer-se. Acha que agora que as editoras mudaram os livros, os dicionários, os prontuários, e que os alunos aprendem de acordo com o referido acordo V. Ex. cia pode fazer lei em contrário? É que o exemplo vindo de quem devia cumprir a lei, anima-me a mim e espere que a muitos outros a entrar num processo revolucionário de fazer as minhas próprias leis, mandando a um certo sítio a dívida que temos. Eles que a paguem e os mercados que se lixem, o mesmo em relação a multas, coimas e outras atribulações que o cidadão comum tem de cumprir.
Por iso, ate-se como quiser.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A SENHORA VIZINHA


A minha mãe dizia muitas vezes, "Não te portes como uma senhora vizinha." E o que era a senhora vizinha? Alguém que se metia na vida dos outros, que comentava o que via e imaginava o que não via, alguém que lançava o boato. A vizinha era uma pessoa simpática e normal, mas uma "senhora vizinha" era alguém pouco recomendável, a fonte da maledicência, que arruinava tantas vezes a reputação das donzelas — o que numa cidade provinciana e naquela época tinha muita importância — e o bom nome dos outros criando uma suspeita que ficava a pairar sobre a cabeça dos pobres visados pela "senhora vizinha".

A comunicação social portuguesa — quase toda, para não dizer toda — é uma "senhora vizinh" ao serviço da direita.

Dizia ela (comunicação social) de políticos de esquerda, "É maricas." Não resultava. "Tem muitas mulheres e gasta todo o dinheiro com elas". Também não resultava. Então descobriu. Vamos dizer que fizeram negócios sujos que são corruptos, que traficaram influências. E aí descobriram a pólvora. Porque demora tempo a provar o contrário. Porque talvez consigamos que nem se prove. E agora aí estão eles de novo a atacar com o mesmo tipo de arma.

Repararam que dos políticos de direita jamais alguém se atreveria a perguntar, "como comprou a sua casa?". Mas os de esquerda têm de se despir na praça pública e mesmo assim haverá sempre os sabujos que dizem que aquilo que eles apresentam é forjado.

Quando teremos coragem de inverter estas infâmias e silenciar estas "senhoras vizinhas". Elas já testaram a maledicência e todos se calaram. Agora, é repetir a receita. Que alguém se indigne, PORRA!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

CARTA A PACHECO PEREIRA (a propósito de um artigo sobre o AO escrito por este homem que respeito não por ter opiniões parecidas ou diferentes das minhas, mas porque é realmente um indivíduo com grande saber e sabedoria)


Alguma vez eu havia de estar em total desacordo com o Pacheco Pereira. Faltam-lhe filhos pequenos ou netos e sobra-lhe dinheiro para renovar a sua biblioteca e apoiar as editoras escolares, as únicas que fazem dinheiro a sério no nosso País.

A ausência de gosto pela leitura (de que ele fala) não acontece por causa do novo acordo ortográfico, não. Mas, entre outros fatores, porque ninguém olha para os programas de Língua Portuguesa feitos expressamente para afugentar qualquer amor pela língua e para favorecer os mais afortunados culturalmente, que têm uma mãe ou uma avó, um pai ou um avô ou toda a família a darem-hes livros, a conversarem sobre o que eles leram, a explicarem-lhes as palavras que não compreendem, a inseri-los em épocas e contextos culturais diversos dos atuais, a levá-los ao teatro, a verem exposições e criarem-lhes situações de escrita, em suma, a romperem-lhes os horizontes culturais.

As crianças oriundas de um meio pobre culturalmente estão privadas de qualquer contacto com a beleza da língua, com as histórias fantásticas que os nossos escritores e os de outros países escreveram, da oportunidade de ganharem o gosto por qualquer tipo de escrita, ou simplesmente de aprenderem, numa perspetiva puramente pragmática, a fazer um relatório, uma carta de apresentação, um currículo, uma reclamação, etc. Porque, meu caro PP, é na escolaridade obrigatória que se lê o que jamais se lerá, que se ouve falar de escritores de que jamais se ouvirá falar, que se ouvem e lêem as histórias tradicionais, não apenas as chatas mas muitas, que se aprende a escrever não como o Camões mas como um cidadão português. E para aprender a escrever é preciso que os professores ensinem e saibam ensinar esta "competência" e não ignorem durante anos seguidos a atividade da escrita, para exigirem nas fichas de avaliação um texto argumentativo, narrativo, dramático, etc, que nunca trabalharam na aula porque não têm tempo e dá muito trabalho. Se dá. Dá mesmo...

Mas se toda a nossa atenção se concentra nos tais P e C que saíram das palavras e que as crianças já não conhecem porque aprenderam a ortografia de uma forma ligeiramente diferente da que o meu amigo usa, então realmente a língua portuguesa ficará mais pobre, porque eles aprenderão a grafar essas consoantes com mais um grande esforço, e continuarão a encornar uma nomenclatura hermética, pesada, disparatada para sairem da escola uns perfeitos analfabetos. (Ver com atenção a nova nomenclatura gramatical) Dá-me uma grande fúria esta situação.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

OS PUROS


Estes filósofos de esquerda que acham que entre o Macron e a Le Pen venha o diabo e escolha são os cátaros ou puros. Tão puros, tão puros que me lembram a história daquele homem que era também tão puro que jamais tinha pecado. No dia da sua morte elevou-se diáfano para o céu e todos os anjos e santos do Paraíso o vieram esperar. Mas o homem puro passou pela porta do Paraíso e continuou a subir. E não teria parado se São Benedito não lhe tivesse gritado: “Diz PORRA, homem, diz porra, que estamos à tua espera.”

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

AS TRÊS SOMBRAS DE GREY

JÁ AGORA TAMBÉM POSSO SER COMENTADORA E NÃO RECEBO NADA

Um programa de rádio e de televisão que é o espelho perfeito da mediocridade que grassa neste país, e provavelmente noutros. O Governo Sombra replica a famosa trilologia FADO, FUTEBOL e FÁTIMA, herdada do longo período da ditadura portuguesa. Três ícones representados pelos três comentadores que integram o programa e se desdobram num afã de provar que o único caminho que nos resta é aquele que foi seguido "quase" magistralmente pelo governo de Passos Coelho, que a austeridade pura e dura é a única via. 

FÁTIMA representada por P. M., fiel da balança e reconhecido intelectual da nossa praça, o que em português corrente equivale a dizer que é um grande leitor e não há livro que lhe escape. Émulo do M. R. S., este comentador esforça-se por dar um ar sério e respeitável (coisa que os Portugueses adoram) ao programa, e de uma forma encapotada ir abençoando as farpadas e graçolas dos outros dois. 

O FUTEBOL e o FADO são um pouco arbitrários, mas vou atribuir ao J. M. T. o pelouro do futebol, porque sabe dar pontapés sempre na mesma direção à procura da imaginária baliza e de um golo. As intervenções lamentáveis deste dito "jornalista" (pelo menos tem uma licenciatura na área e numa excelente Universidade) envergonham qualquer verdadeiro jornalista. 

O FADO é mais um RAP, mas, como todos sabemos, o fado pode cantar-se de muitos modos e é diariamente assassinado em numerosas tascas. O RAP, que nem se dá ao trabalho de se preparar para o programa, entristece-me porque se esperava dele algo mais do que a trístissima figura que faz semanalmente. Mas os 10 mil euros, que estes três ilustres comentadores recebem, são dez mil euros, e a "austeridade" é para todos, assim em nome destes chorudos milhares se vai degradando RAP, num programa degradante.

PS. Para escrever este "comentário" sujeitei-me a ver a gravação de vários programa, mas alguns não consegui vê-los até ao fim.

APERFEIÇOANDO O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

As vozes contra o Novo Acordo Ortográfico foram-se erguendo mais e mais alvoroçadas à medida que o tempo ia passando. Como um tiro que se tornasse mais nítido quanto maior fosse a distância que percorria. Aos vagos murmúrios que se ouviram durante o seu processo de aprovação seguiu-se um bramido que aumentava nítida e velozmente porque se propagava nas entranhas da pátria e o meio de propagação mais rápido do som é o meio líquido.

Gastemos, pois, uns milhares de euros e paguemos a uma comissão de "sábios" para salvar a Língua Portuguesa e inocular de novo nos aprendizes um acrisolado amor pela mesma. Assim como assim já pagamos a outra comissão para fazer o Acordo. Acrescentemos 7 Ps, 5 Cs, dois acentos gráficos e 3 hífens a cada livro de ensino e os problemas ficam resolvidos. O gosto pela leitura volta, os erros de ortografia desaparecem, a compreensão do que se lê é garantida. Porque realmente o mal está ali no Novo Acordo Ortográfico que perturbou a aprendizagem e confundiu as crianças,

Os "ofendidos" terão finalmente a certeza que não há qualquer relação entre o cágado e o cagado, a minha vizinha deixará de confundir a bactéria com a bateria, e os jovens vão substituir os livros velhos por livros novos e imaculados, sob o altissonante  aplauso e os gritos de júbilo das editoras, a bênção dos "sábios"  e dos "entendidos" que se de tudo sabem porque não hão-de saber de uma coisa tão simples como é a educação, ou melhor dizendo, uma ínfima parcela desse processo, o ensino do Português.

Efetivamente, todas as pessoas que conheço sabem o que se "devia" fazer para erradicar a pobreza cultural, os erros de ortografia, a ausência de vocabulário e de ideias de um quantidade "enorme" de alunos,  E jamais se esqueceriam que esse problema começou com o AO, que introduziu montes de coisas novas (que nada têm a ver com ortografia) e que impedem os pais, mesmo os letrados, de perceberem o que raio é que os alunos aprendem quando aprendem Português.

Um dessas coisas novas é a nomenclatura gramatical. Claro que a palavra "nomenclatura" não está ao alcance de muitos dos peritos do cágado e do cagado e da bactéria e da bateria. Mas isso é de somenos importância.  Para eles existe uma amálgama feita de ortografia e de conceitos gramaticais misturados com recursos estilísticos e mais uns pozinhos de uns quantos escritores que escrevem um Português diferente da norma e que de vez em quando saltam lá do fundo, para confluirem nesse caos linguístico que faz sentir tais peritos perdidos e os leva a declarar: "Eu não percebo nada do que eles estudam".

E não percebem eles e, muitas vezes, não percebo eu. Mas isso nada tem a ver com o Novo Acordo Ortográfico. A questão é muito mais vasta. Por agora, esperemos que acrescentados os tais Ps e os tais Cs que tanto nos humilharam, colocados no sítio alguns acentos e alguns hífenes que os "ofendidos" nunca souberam onde se punham, as crianças e jovens comecem finalmente a recitar um canto dos Lusíadas por cada ano de escolaridade, e para os que vão até ao 12º sugiro ainda "A crítica da razão pura", de Kant e  "Os manuscritos do Mar Morto" (nada mares muito revoltos para não dar ideias aos jovens, que ideias disparatadas já eles têm muitas, coisa que nós, graças a Deus, nunca tivemos).

E viva a Língua Portuguesa!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

HOMENAGEM A MINHA MÃE

AUGUSTA MARIA CABRAL

Vila Nova de Monforte, 21 de Dezembro de 1918 – Porto, 2 de Junho de 2009


Menina, Mãe, Avó, Bisavó Augusta Maria, 


Passeias agora de mão dada com o companheiro da tua vida, o teu José, no souto do teu pai. Os ramos fortes e largos dos castanheiros espalham a sombra tranquila. O chão está coberto de folhas e nos ouriços abertos espreitam as castanhas polidas. Junto ao tronco há cogumelos que tu sabes distinguir e vais apanhando e colocando na cestinha que trazes no braço. O teu irmão Manuel foi à caça e não tarda a chegar. Hoje haverá perdizes para o almoço.
Por entre a ramagem outonal e densa dos castanheiros brincam raios de sol. Ao longe adivinham-se os campos da Primavera cobertos de alfazema. A cerejeira, que o teu pai plantou, inclina os ramos, carregadinhos de cerejas, até ao chão.


Como estás feliz. O teu rosto de pele de veludo brilha ao sol, o verde
dos teus olhos irradia luz e o teu corpo,
finalmente liberto de dor, respira o ar livre da montanha onde nasceste. 


Apertas com mais força a mão do teu companheiro e olhas para trás os que te seguem, os teus filhos Nuno, Alzira, Rodrigo, Eurico e Jorge, os teus netos, Pedro, Joana, Ana, Marta, David e Clara, os teus bisnetos, Rafael, Rodrigo, Orane, Matilde, Francisco. Consegues ver ainda mais longe, os que virão daqueles que nasceram de ti.  

Hoje todos se vão sentar à mesma mesa e celebrar a Vida. Por isso sorris.