segunda-feira, 24 de agosto de 2020

TAXA DA PANDEMIA ou TAXA DA INFÂMIA

 

Num hospital privado, para fazer uma consulta ou para fazer exames o cliente/utente/usuário ou abusado paga aquilo que eles chamam "a taxa da pandemia".

O que é a taxa da pandemia? Um verdadeiro abuso ou as máscaras mais caras do mercado. À entrada, um empregado obriga-me a tirar a máscara que trago e entrega-me outra que tira de uma caixa. Aponta-me o doseador com gel desinfetante. Sirvo-me.

Na recepção pago os exames que vou fazer e CINCO EUROS DA TAXA DA PANDEMIA (a máscara e o gel). Nem quero acreditar no que ouço. Faço um rápido cálculo sobre a quantia diária que o hospital, neste caso, o hospital da Cruz Vermelha recebe diariamente com esta taxa e calculo sem exagero que anda na ordem dos milhares de euros.

Eis como a pandemia se transformou num negócio chorudo, num caça-níqueis de um casino sem vergonha que são os hospitais privados.

Alguém me preveniu que existia esta taxa quando liguei a fazer as marcações? Nem pensar que o informador ia direto para a rua.

Para cereja no topo do bolo, o sistema informático avaria, depois de eu e mais um largo grupo de pessoas termos pago. Não há devoluções. Mas aquilo é boa gente e remarcam-me os exames para daqui a uma semana. São quase 5 da tarde quando chego a casa em jejum.

Este gesto nobilíssimo da medicina privada dá-me vontade de os trincar, mas eles sabem que nem eu nem ninguém os pode trincar, porque o sistema público não tem capacidade de resposta e eles têm a faca, o queijo e até a nossa boca na mão.

Imaginem as ideias fantabulosas que estes escroques dão às pessoas para se assistir a um aumento do custo de vida.

Antigamente gritava-se: "Nem mais um soldado para as colónias", agora deve gritar-se: "Nem mais um cêntimo para a saúde privada."

domingo, 23 de agosto de 2020

NO COMBOIO DESCENDENTE

Ontem revi o programa relativo a Portugal de "As inesquecíveis viagens de comboio". Saímos bem na fotografia sobretudo para “inglês ver”. Mas eu não sou inglesa nem francesa, nem chinesa, etc. Nasci cá na terrinha e por trás daquele programa opulento encontra-se o Portugal de sempre no comportamento das pessoas.

1. O comboio de luxo que faz o percurso do Douro - Tudo muito luxuoso, acompanhado de uma refeição digna do Luís XV. O “chef” (nada de portuguesismos que o homem ficava ofendido), oriundo do chiquérrimo hotel do Guincho é de um pedantismo sem nome. Logo ali começa a tratar por tu o humílimo Philippe que sorri e ri de uma forma educada. Não sei se o tal chef que é um verdadeiro idiota sabe que em Francês tal como em Português existe o “vous” e o “tu”. É capaz de saber mas faz questão em mostrar através do tratamento que ele é o “roi soleil” e o outro um “sans culotte”. Phillipe continua magnânimo a tratá-lo por “vous e “senhor". No comboio “ascendente”, uma camada de gentinha snobe, descendente directa do tal Luís, à moda do norte (desculpem eu também sou do norte), selecionada expressamente para o programa vai mostrando através de poses e do tratamento por “tu” que o apresentador do programa é um plebeu entre la crème des crèmes da sociedade portuguesa. Mesmo MEDÍOCRE e SALOIO.

2. As lavadeiras da Afurada – Esta parte do programa em que se incluem os mergulhos no rio Douro é muito típica e à boa maneira portuguesa faz-se um grande espalhafato para “inglês ver”. Tudo gente feliz. Mas é bonito ver aquele tanque da Afurada onde um grupo de mulheres à “moda do norte” nos transporta directo para o séc. XIX. Caraças é mesmo “genuíno”. Philippe irá referir no final do programa a autenticidade deste pequeno país e a necessidade de o “modernizar”. Pudera!

3. Lisboa – Vão ficar admirados, mas esta parte do programa é para mim a mais autêntica. Destaco os vendedores de bacalhau da baixa de Lisboa, com um comportamento impecável Tratam o apresentador do programa com respeito, explicam sem arrogância e mostram aquela seriedade antiga que nós gostamos de atribuir aos nossos comerciantes. Muito bom. As ruelas e ruazinhas de Lisboa, os enquadramentos. Excelente.

4. Trás-os-Montes – A minha província é representada por um casal de velhos a empurrar uma charrua. Este casal é mesmo representativo da simplicidade natural desta gente. Respeitosos, mas não subservientes. A mulher lembra-nos que existiu outrora um matriarcado na Península. Percebe-se que já teve contactos com o Francês porque vai ganhando confiança e mete a sua colherada francófona de vez em quando. Lembranças da emigração. Só tenho pena que o trabalho que representa Trás-os-Montes nos coloque na Idade Média. Mas lá vem o dentista dos burros. Esta personagem de ficção é protagonista de um dos momentos mais “estranhos” e verdadeiramente únicos de todos os programas. Mas tinha de borrar a pintura. Ele é o “dótor” e por isso o Philippe passa de novo a ser tratado por tu. O apresentador respeitoso trata o “dótor” por “senhor” e é claro o “vous”, tratamento que nós Portugueses vamos esquecendo, influenciados por esses génios que são os brasileiros das telenovelas.

O apelo de Philippe à modernização deste país tão autêntico percebe-se, mas ele jamais compreenderá que esta autenticidade está estreitamente colada às mentalidades medievais lusitanas e que só um milagre nos poderá salvar.