domingo, 23 de agosto de 2020

NO COMBOIO DESCENDENTE

Ontem revi o programa relativo a Portugal de "As inesquecíveis viagens de comboio". Saímos bem na fotografia sobretudo para “inglês ver”. Mas eu não sou inglesa nem francesa, nem chinesa, etc. Nasci cá na terrinha e por trás daquele programa opulento encontra-se o Portugal de sempre no comportamento das pessoas.

1. O comboio de luxo que faz o percurso do Douro - Tudo muito luxuoso, acompanhado de uma refeição digna do Luís XV. O “chef” (nada de portuguesismos que o homem ficava ofendido), oriundo do chiquérrimo hotel do Guincho é de um pedantismo sem nome. Logo ali começa a tratar por tu o humílimo Philippe que sorri e ri de uma forma educada. Não sei se o tal chef que é um verdadeiro idiota sabe que em Francês tal como em Português existe o “vous” e o “tu”. É capaz de saber mas faz questão em mostrar através do tratamento que ele é o “roi soleil” e o outro um “sans culotte”. Phillipe continua magnânimo a tratá-lo por “vous e “senhor". No comboio “ascendente”, uma camada de gentinha snobe, descendente directa do tal Luís, à moda do norte (desculpem eu também sou do norte), selecionada expressamente para o programa vai mostrando através de poses e do tratamento por “tu” que o apresentador do programa é um plebeu entre la crème des crèmes da sociedade portuguesa. Mesmo MEDÍOCRE e SALOIO.

2. As lavadeiras da Afurada – Esta parte do programa em que se incluem os mergulhos no rio Douro é muito típica e à boa maneira portuguesa faz-se um grande espalhafato para “inglês ver”. Tudo gente feliz. Mas é bonito ver aquele tanque da Afurada onde um grupo de mulheres à “moda do norte” nos transporta directo para o séc. XIX. Caraças é mesmo “genuíno”. Philippe irá referir no final do programa a autenticidade deste pequeno país e a necessidade de o “modernizar”. Pudera!

3. Lisboa – Vão ficar admirados, mas esta parte do programa é para mim a mais autêntica. Destaco os vendedores de bacalhau da baixa de Lisboa, com um comportamento impecável Tratam o apresentador do programa com respeito, explicam sem arrogância e mostram aquela seriedade antiga que nós gostamos de atribuir aos nossos comerciantes. Muito bom. As ruelas e ruazinhas de Lisboa, os enquadramentos. Excelente.

4. Trás-os-Montes – A minha província é representada por um casal de velhos a empurrar uma charrua. Este casal é mesmo representativo da simplicidade natural desta gente. Respeitosos, mas não subservientes. A mulher lembra-nos que existiu outrora um matriarcado na Península. Percebe-se que já teve contactos com o Francês porque vai ganhando confiança e mete a sua colherada francófona de vez em quando. Lembranças da emigração. Só tenho pena que o trabalho que representa Trás-os-Montes nos coloque na Idade Média. Mas lá vem o dentista dos burros. Esta personagem de ficção é protagonista de um dos momentos mais “estranhos” e verdadeiramente únicos de todos os programas. Mas tinha de borrar a pintura. Ele é o “dótor” e por isso o Philippe passa de novo a ser tratado por tu. O apresentador respeitoso trata o “dótor” por “senhor” e é claro o “vous”, tratamento que nós Portugueses vamos esquecendo, influenciados por esses génios que são os brasileiros das telenovelas.

O apelo de Philippe à modernização deste país tão autêntico percebe-se, mas ele jamais compreenderá que esta autenticidade está estreitamente colada às mentalidades medievais lusitanas e que só um milagre nos poderá salvar.

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