terça-feira, 27 de julho de 2021

A NOVA RENASCENÇA

2000, entrada de mais um século.

Muito se escreveu no patamar e na entrada deste novo século. Os profetas, astrólogos e outros humanos clarividentes saudaram o nascimento da era do Aquário com todas as maravilhas e grandezas que ela arrastaria. O Homem do 21 seria azul, fraterno e pacífico.  

De santo, poeta e louco todos nós temos um pouco. Por isso, passados 21 anos sobre essa majestosa entrada de mais um túnel do corredor do tempo, atrevo-me a comparar este século 21 com uma nova Idade Média, na esperança de que, sob esta capa de mediocridade, violência e fanatismo, forças de luz (linguagem esotérica) e de sabedoria (bis) estejam a fermentar e um novo Renascimento artístico e cultural desabroche. Pois nesta grande paisagem feita de fragmentos e de lixo, a qualidade e a beleza estão soterradas sob a intransigência, a obstinação, a cegueira e a ambição do lucro que ergue em altares bezerros de oiro e queima na fogueira os arautos de um tempo que há-de vir. O som ensurdecedor das palmas contrasta com a fímbria do silêncio dos que não ousam nem podem fazer frente a esta onda gigante.

Qual será a nova Itália que nos trará essa Renascença?  Que Galileu será obrigado a negar o seu pensamento? Que escribas e iluministas continuam seu trabalho em recônditos lugares onde não chegam os jornais, as televisões, nem a internet? Ou será a rede virtual que liga os homens de todos os credos o seu veículo?

Não sei responder. Mas estou certo que ela está em gestação e desabrochará quando de nós só restar o pó.

Onde recolhi esta informação? Na minha bola de cristal, pois claro. 



segunda-feira, 26 de julho de 2021

QUANDO O FRANCISCO TINHA DOIS ANOS: NA MINHA BOCA

O Francisco não se cala um minuto. Sentado atrás de mim no carro vai palrando. Às vezes nem compreendo os longos discursos que ele faz. Mas tudo o deslumbra como se o mundo fosse um baú maravilhoso recheado de coisas fantásticas.

Hoje fica encantado ao descobrir que há água para limpar os vidros do carro.
- O teu carro tem água?
- Muita água, Francisco, para lavar os vidros que estão muito sujos.
- Leva à lavagem.
- Claro que sim. Já foste à lavagem com o papá?
Segue-se uma longa e complexa explicação sobre o local onde o papá leva o carro à lavagem que termina com a pergunta:
- E tu?
- A minha lavagem é perto da escola do Francisco.
- Gostas da lavagem verde? - pergunta ele.
Primeiro digo que não, mas como ele insiste na pergunta digo que sim.
- E da encarnada? E da amarela? E da azul? E da preta?
Fico baralhada, mas penso que ele viu lavagens de diferentes cores no YouTube.
- Onde é que o Francisco viu essas lavagens? No YouTube?
- Não.
- Então?
- Na minha boca.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

RESPEITO!

Ontem ao rever mais um episódio das "Inesquecíveis viagens de comboio", voltei à Colômbia. Já lá tinha estado, mas um pouco distraída.

A Colômbia, esse país de má fama, do narcotráfico, dos gangues e dos ladrões, o lado que nós conhecemos e que nos é vendido com meticuloso afã.
A Colômbia, um país de gente trabalhadora, que planta café e bananas em íngremes e deslizantes encostas, que transporta às costas fardos pesadíssimos, que calcorreia quilómetros, que vive subjugado pelo gigante americano que lhe suga a riqueza, o trabalho e o suor, tal como outrora a cristianíssima Espanha destruiu a sua cultura e pilhou as suas terras.
Phillipe não consegue perceber o amor que os colombianos continuam a dedicar a Paulo Escobar. Mas eu acho que os compreendo, apesar de todos os crimes que a traficância de droga provocou. Ele fez frente ao estrangeiro, ele esteve muitas vezes ao lado desta gente pisada e sofredora. E mais ninguém fez isso.
A grandeza dos incas sobreviveu na arte e neste magnífico povo. Quando comeres uma banana da Colômbia, quando beberes uma chávena de café da Colômbia, lembra-te desta gente que dobra "a espinha" e transforma o corpo em guindaste para que te delicies com os seus sabores, degustes as suas ostras cantantes, e ostentes as suas cristalinas esmeraldas.
RESPEITO!



quinta-feira, 1 de julho de 2021

CRIME, DIGO EU

A RTP2 TAMBÈM NOS OFERECE GRANDES PASTELÕES (para não usar uma palavra mais suja mas adequada)

Durante muitos anos deliciei-me com os livros da Agatha Christhie. Talvez fosse uma forma da alienação, dirão os intelectuais puros, mas eu lá me fui alienando.

Histórias com muitas personagens. ambientes sofisticados, casas senhoriais muito British, uma complicada rede de acontecimentos e um assassino insuspeito. A meio da acção lá ia adivinhando ou tentando adivinhar quem seria o escolhido.

Mas nos "Diez negritos", porque o li em espanhol, não consegui.

Passados tantos anos, a RTP2 brinda-nos com a adaptação à época moderna desta história, "No Início, Eram Dez...", feita por um grupo de idiotas franceses.

Numa ilha tropical... vista do céu.

- "Ó pá arranja umas centenas de velas, umas bonecas velhas,, uns terços, umas velharias de vudu, muitas folhas, umas mulheres boas, pelo menos um indivíduo de tez escura para dar um ar cosmopolita, mais uns idiotas, uns tantos bichos tenebrosos: aranhas, escorpiões, cobras, etc., vai aos adereços e traz todo o lixo que encontrares.

Arranja uns sons tenebrosos, gritos, ranger de dentes e de correntes, suspiros e suspeitas, ribombar de trovões... Mistura tudo numa caldeirada.

Aos atores nem precisas de pagar, porque pouco têm a dizer, mas muito têm de correr e o exercício só faz bem. Correm em grupo que assim recebem todos por igual, sendo que temos de considerar o número de episódios em que aparecem. Os que morrem mais cedo ganham menos, percebido?

Tá PRONTO. Manda prò ar!"

Lá se foram os meus diez negritos. Dá-se um prémio a quem conseguir ver todos os episódios.