quarta-feira, 29 de março de 2023

ELOGIO DA MEMORIZAÇÃO E DO PRAZER DE LER SEM MORALISMOS NEM BARREIRAS


Naquele colégio de freirinhas onde eu e os meus irmãos fizemos a 4ª classe e a admissão ao liceu, havia por baixo da capela uma sala de teatro razoável, com  palco, cortinas, bambinelas, cenários, etc. Talvez a sala levasse apenas 100 pessoas sentadas, mas era aí que todos os anos se fazia uma festa com uma peça de teatro, declamação de poemas, danças e sketches. Havia mesmo um guarda-roupa que provia às necessidades básicas deste espectáculo anual que era repetido numa sala de teatro na baixa da cidade do Porto.

Isto era o melhor deste colégio, uma inesquecível recordação. Como o meu irmão mais velho tinha sido a estrela da companhia, os que se seguiam deviam apresentar o mesmo talento. Mas não era bem assim. De qualquer modo, eu ainda recitei poemas, animados por danças em background — eram enormes e eu, tal como outras raparigas e rapazes prendados tínhamos de os decorar com esmero e entoação. 

Decorar era um exercício fundamental em muitas situações. Não tinha dificuldade nisso, sobretudo quando lia poemas ingénuos, trágicos ou românticos e textos que falavam de realidades exóticas e coloridas.

Embora já tenha esquecido muitos deles ainda sei de cor poemas da primeira classe (“Andava um dia em pequenino, nos arredores de Nazaré, o bom Jesus, o Deus Menino… “, “Há guerra na capoeira Franga poedeira de crista encarnada encontrou espiga de milho dourada…”, etc. etc.) da segunda classe (“Os passarinhos tão engraçados fazem os ninhos com mil cuidados…”, Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz? Aquelem filha é Jesus…”, etc., etc.) da terceira, da quarta (o deserto de Moçâmedes, a caçada ao búfalo, etc.) e por aí fora poemas trágicos (“Coitado do meu rapaz, ele aí vai de foz em fora na sua barca falaz à procura da ventura que ninguém sabe onde mora…”, Mãe, Que desgraça na vida aconteceu que ficaste insensível e gelada, que todo o teu perfil se endureceu numa linha severa e desenhada?...” os sonetos do Antero, os do Bocage, episódios dos Lusíadas, etc. etc.) Ficavam-me na memória e nem precisava de olhar o livro.

Se as linhas de comboio continentais ou extra continentais desapareceram num ápice, rios, serras e montanhas das colónias ou províncias ultramarinas idem, os textos piegas ou heroicos ficaram, porque como criança e adolescente as palavras mesmo desconhecidas soavam-me maravilhosamente (já agora dentro do espírito romântico que me perseguia também decorei sem esforço “Le Lac”. de Lamartine #Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages, dans la nuit éternelle emportés sans retour, ne pourrons-nous jamais sur l'océan des ages jeter l'ancre un seul jour?”

Memorizar despertou-me o gosto pelas palavras e pela leitura. Gostava de ler histórias de meninos e meninas audaciosos e desobedientes, de crianças que voavam, de meninas que faziam scones, bolos, sanduíches em ambientes confortáveis e felizes, de princesas feias e de princesas bonitas, de viagens por países distantes e imaginadas onde havia canibais que cozinhavam homens em caldeirões, piratas cruéis e piratas simpáticos como o da Ilha do Tesouro, etc. etc.

As palavras faziam-me viajar, mas não me tornavam em pirata nem me faziam atirar da janela pensando que podia voar e também não me tornaram numa dona de casa, nem numa racista.

O que me custou mesmo, mesmo decorar foi o catecismo. Um livro inteirinho sem perceber nada. Porque um rio, uma montanha ou uma linha férrea, eu sabia o que eram. Agora o acto de contrição, os sete pecados mortais, céus! era mesmo difícil. 




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