terça-feira, 1 de março de 2016

 VOSSA EXCELÊNCIA

Vossa Excelência, minha cara senhora ou meu caro senhor, anda indignado com as questões do novo Acordo Ortográfico, vulgo AO e, agora, com o facto do governo se preparar para aumentar o número de horas que as crianças passam na escola e com outras coisas que o deixam perplexo.
Sobre a questão do AO já publiquei e republiquei textos da autoria de outros que têm a minha opinião e alguns da minha modesta autoria. Sobre a questão do tal aumento de horas (não são horas letivas, entenda-se) também já dei a minha opinião. 

Agora, queria perguntar-lhe o que é que Vossa Excelência, que certamente também já teve um ataque de histeria quando, aqui há alguns anos atrás, se tocou o hino nacional e se ergueram as vozes patrióticas contra o facto de, supostamente, insisto, supostamente, os alunos não estudarem os Lusíadas de fio a pavio (como Vossa Excelência nunca estudou) e se ficarem por uns excertos da dita obra, o que é que Vossa Excelência sabe sobre os advérbios de frase, os advérbios de predicado, os advérbios conectivos, os adjetivos qualificativos, os adjetivos numerais, os adjetivos relacionais, os hipónimos e os hiperónimos, a anáfora, os deíticos, etc., tudo coisas que uma criança de 12 anos deve aprender para amar a sua língua, para a saber usar e compreender o que lê.

Estou certa que sabe tudo e que está de acordo com a necessidade de toda uma vasta e erudita nomenclatura, de que lhe dei apenas um modestíssima amostra, para que se ame, se venere, se compreenda, se leia e se escreva com competência, com prazer e paixão a Língua Materna.
Por isso, não o preocupa o facto dos seus queridos filhos, parentes, enteados ou amigos, passarem tanto tempo a empinar toda esta vasta nomenclatura, que Vossa Excelência já não domina porque provavelmente se esqueceu. Não o preocupa que essas amadas criancinhas não tenham muito tempo para escrever um texto com pés e cabeça e que não o façam regularmente. Também o não preocupa que lhes escasseie o tempo para ler, que lhes escasseie o tempo para praticar desporto, tocar piano, dançar, enfim para praticar qualquer outra coisa que não pertença ao anafado currículo da Língua Materna ou da Matemática.

Compreendo. Não o preocupa porque esse é o caminho do saber. Atirem-lhes à cabeça com muita nomenclatura, muitos conteúdos, mas não lhe tirem o C da redacção (apesar deles não as fazerem), nem os P dos baptismos, porque o Baptista ficaria muito aborrecido.

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