Hoje, dei umas boas gargalhadas a ler a "Novíssima Cartilha Ilustrada",
de Pedro Monteiro e de Rodrigo Monteiro, uma sátira à "Cartilha Escolar
(Ler, Escrever e Contar), de Domingos Cerqueira, publicada em 1912, ou
talvez um pouco antes.
Seguindo o método de aprendizagem da leitura e da
escrita designado analítico-sintético, esta é uma das cartilhas
adoptadas então para os alunos da 1ª classe. O conceito de livro único
ainda não existia. Vai chegar no tempo de Salazar com o célebre
"Livro da Primeira Classe". No período da República havia pois várias
cartilhas e todas enfermavam dos aspetos ridículos que Pedro e Rodrigo
Monteiro satirizam de uma forma excelente.
Como hoje é o dia em que se
celebra a implantação da República, queria apenas lembrar que, apesar
dos aspetos realmente absurdos destes livros, foi feito, neste período,
um esforço notável de construção de escolas e de alfabetização de um
país praticamente constituído por analfabetos. Este esforço foi depois
continuado no período salazarista com uma mais bem montada estratégia de
separação de classes e de formação de um grupo de trabalhadores
submissos e disciplinados.
"O Livro da Primeira Classe", publicado em
1941 (apesar de haver tanta gente, incluindo o próprio Ministério da
Educação que ignora a data exata dessa publicação) é um exemplo de um
livro que serve de uma forma certeira e despudorada um objetivo. Até as
maravilhosas ilustrações de Raquel Roque Gameiro, a quem presto a minha
homenagem, contribuem de uma forma edicaz para jamais o esquecermos. Aprendi por esse livro, o que me fica na memória são
essas imagens belíssimas e alguns poemas ingénuos. Só muito mais tarde
me apercebi do conteúdo ideológico do livro. E isso talvez se deva ao
facto de as pessoas viverem de tal modo imersas na visão social do
próprio livro que ficavam indiferentes ao seu conteúdo. Eu andava num
colégio de freirinhas que nos levavam a desfiles e paradas. Içava a
bandeira nacional, vestida com a farda da mocidade portuguesa, no dia 1
de dezembro, porque era loirinha e bonita e isso condizia melhor com o
aparato do momento. Mas, questões de feitio, nada daquilo me tocava, nem
as missas, nem as paradas, nem os hinos. Ficava tudo à flor da pele.
Então, ainda não existia uma técnica de marketing que é a do efeito
surpresa.


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