A limpeza doméstica, ou seja, a limpeza do domus, a casa-lar onde moramos foi evoluindo como todas as coisas com o rolar dos anos. Não vou recuar às calendas gregas, mas apenas a meados do séc. XX, ou melhor a uma época em que os aspiradores e enceradoras eram um artigo de supremo luxo na cidade e nas aldeias portuguesas.
Nessa longa época, porque
temos de recuar no tempo e não avançar, as casas eram limpas à mão. A vassoura
utilizada diariamente não era suficiente para ir à raiz do problema. Isto quer
dizer que a limpeza do soalho, normalmente em tábua de madeira, requeria uma
intervenção com uma escova, água e sabão amarelo. O soalho era esfregado uma ou
duas vezes por mês, por trimestre ou por ano, dependendo do número de pessoas
que habitavam o domus.
Era uma intervenção
verdadeiramente artesanal em que uma mulher de joelhos ia lavando pedaço a
pedaço salas e quartos, cozinhas e quartos de banho. Havia pessoal feminino
especializado neste exercício demorado e minucioso. Depois de seco o soalho era
encerado. Trabalho manual idêntico ao anterior, mas de menor esforço.
E por falar em esforço…
esta tarefa era mesmo árdua, porque requeria força e resistência para deixar a
cheirar a lavado uma habitação pequena, média ou grande. Os saudosos dessas
épocas de limpeza absoluta e de cheiro a lavado nunca fizeram este trabalho. Eu
também não, mas não o quero fazer e espero que esses tempos não regressem,
porque apesar da “suma limpeza” era um trabalho de escravidão.
No mesmo comprimento de
onda, lembrei-me do filme de Tati, “O Meu Tio” e do varredor de rua que empurra
as folhas do chão com uma enorme vassoura. Vai parando para duas de conversa e
na poética abordagem do filme representa uma inércia associada a uma vida com
menos aceleração do que aquela do mundo atual.
Às vezes ouço pessoas a
queixar-se do ruído que fazem as máquinas que limpam as ruas superpovoadas das
folhas e do lixo que um acréscimo de população e de arborização (APLAUDO)
provocaram nos nossos burgos. É certo que as vassouras continuam em acção, mas
que seria das nossas ruas sem esse ruído matinal? Como se desentupiriam os “bueiros”
(sarjetas) sem este ruído? Com um arame e algum exercício físico?
Enfim como diziam os que
povoaram essa época menos tecnológica do que a nossa: “Não podemos ter sol na
eira e chuva no nabal” (até porque a chuva entope os bueiros)
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