Nesta data, li entre muitos oportunos e enriquecedores posts uma série de ataques ao que hoje se escreve e se publica. Estas críticas que negam tudo o que se faz ou a maioria das coisas que acontecem na nossa época não são originais. Creio que aconteceram ao longo dos tempos, sem FB, Twitter, Instagram, LinkedIn, etc. Hoje, como sempre, estas críticas assentam numa complexidade de razões, de que destaco apenas a rejeição ou incompreensão das mudanças lentas ou rápidas da sociedade.
!. In diebus illi (aqui está o busílis da questão), também muitos críticos protegeram a entrada no templo da arte a nomes que a história viria a recuperar, assim como incensaram outros que a história mais cedo ou mais tarde esqueceria. Lembro-me de Pinheiro Chagas, um grande ícone, do insigne Júlio Dantas, do mais modesto Tomaz de Figueiredo e tantos outros nomes que a memória apagou.
Outros, pelo contrário, foram quase esquecidos (por falar em esquecimento, também eu me esqueço de muitos nomes. Fruto da idade) e sobre eles caiu o rótulo de “indignos” de figurarem na história da literatura. O exemplo que me ocorre de imediato é o de Alexandre Dumas, o homem que deliciou e delicia milhares senão milhões de leitores com a sua obra. Tão indigno era este exímio contador de histórias que, na sua época, não teve direito a ser sepultado, no Panteão Nacional, ao lado dos grandes. Só graças a Jacques Chirac aí entraria, embora continue a ser considerado pelos guardiões do mausoléu dos “puros” um escritor menor, que jamais citariam como fazendo parte das suas leituras. No entanto, o genial Victor Hugo prezava-o como grande escritor, o que não acontecia com outros “clássicos” da época.
2. Este fenómeno de rejeição ou de “capelinha” ocorre em todos os ramos da arte. E o exemplo clássico é o de Van Gogh, o pintor louco, que jamais poderia ter sucesso, com os seus círculos alucinados e pouco “dignos” de figurarem numa história da arte que se preze. Após a sua morte transformou-se numa verdadeira mina de ouro. Afinal os círculos alucinados também eram arte.
3. Voltando à nossa época e a todas as épocas, quantos não terão sido esmagados para não entrarem na sacrossanta galeria dos nomes artísticos. Em Portugal tivemos uma tímida, mas genial tentativa de introduzir o slang no romance. Céus! Que indignidade. Parados no tempo não permitimos que os parâmetros literários mudem. Enquanto em muitos países, Estados Unidos, Reino Unido, França, etc., as inovações literárias vão fazendo o seu percurso, nós permanecemos ajoelhados, orando.
4. Hoje temos em Portugal uma geração mais nova que escreve e é digna de ser lida. Deixemos que ela se alargue e que os nossos jovens não sintam medo de não escreverem de acordo com os padrões e ideias de uma preclara elite. O tempo inexoravelmente os julgará, mas ficaremos seguramente mais ricos. Não se sintam tão incomodados por haver tantas publicações. Umas terão qualidade outras não, mas a fogueira da inquisição ou a dos nazis já não existem. Repito, o tempo roda e das sementes lançadas à terra só algumas vingarão, o que não impede a sementeira.
5. Quanto aos clássicos, abençoados sejam, e jamais esquecidos.
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