sexta-feira, 24 de novembro de 2023

O TRIO DOS QUATRO

Não via há muitos anos as notícias nos canais da TV portuguesa, mas ultimamente espreito e sigo caminho. Vejo pouca televisão, em geral para descomprimir um pouco o que é difícil. Leio as notícias de várias fontes noticiosas estrangeiras durante o dia e quando me interessa algum artigo de opinião.

Em tempos, (creio que há seis anos ou mais) seguia o eixo do mal e outro programa do mesmo tipo na TVI cujo nome me não ocorre, mas desisti por não suportar tanta baboseira. Ontem, reincidi, porque liguei exatamente quando o dito eixo estava a começar.

Acalmem-se. nem metade vi, mas pasmei com a alegria daqueles “inimputáveis” sobre a crise em que o país está mergulhado e o retrocesso que dela virá. Não merecem qualquer respeito os comentários de chacha do Pedro Marques Lopes que além de patetas não tinham sequer um fio lógico, a alegria exuberante do idolatrado Daniel de Oliveira face a esta crise e ao desmoronar da esquerda (que para ele é direita), e as profecias de calamidade da Clara Ferreira Alves. O único que mostrou alguma preocupação e seriedade nas palavras foi o quarto comentador, o representante da direita cujo nome esqueci. Este quarteto palrador não tem nada a ver com esta crise, passem embora os artigos demolidores do Oliveira contra o António Costa e o governo, as palavras arrasadoras dos outros, e toda a campanha violenta contra este governo que os quatro conduzem há anos. Nós temos responsabilidade porque fomos votar. Eles não, porque com o seu olho desvendador já sabiam o que ia acontecer.

E falam das eleições na Holanda (Credo! Abrenúncio!) com mal-escondido agrado (“Eu bem tinha dito! “Claro, o Ventura vai vencer!” “Nós já sabíamos.”) E esfregam as mãos de contentes, porque o Ventura nunca terá melhores arautos e o emprego deles está garantido. Com estes comentadores sem qualquer formação ou informação a não ser a conversa de café, a extrema-direita está garantida porque bem ou mal ela exprime preocupação com a crise e, embora enganadoras e perigosas, apresenta alternativas e também adora estes patetas de esquerda e de extrema-esquerda que não têm responsabilidade por nada.



terça-feira, 7 de novembro de 2023

SONHAR É FÁCIL - Duas histórias com UN happy end

 A senhora mora numa Junta de Freguesia lisboeta, com muito comércio e escritórios, aonde a EMEL ainda não tinha chegado e isso deixava-a desesperada. Caminhava para a Junta de freguesia e fazia um pé de vento, exigindo que a sua reivindicação fosse atendida, moveu céus e terra, convencida que uma vez a EMEL instalada ia ter um lugar de estacionamento privativo.

 

A EMEL chegou finalmente. Agora a denodada senhora tem sempre o carro na garagem.

— Nunca tenho lugar. Quando há um lugar, aparece sempre alguém e eu não posso sair para lado nenhum, só à noite e mesmo à noite é difícil.

— Ah, pois é. A quem o diz.

 

Esta outra rotunda senhora mais o estimado marido, ambos velhos a cair da tripeça. estavam hoje radiantes. Na Note do Fonte Nova ofereciam champanhe e marisco a quem quisesse celebrar com eles a demissão do Governo de António Costa, convencidos que a inflação vai acabar, os médicos e todo o pessoal de saúde vão ter aumentos supimpas e horários fantásticos, um fila interminável de empregos vai surgir, os professores vão subir tantos escalões que correm o risco de pousar numa nuvem, a ordem vai reinar, os imigrantes não põe cá mais o pé, a TAP vai ser sucesso, as casas vão ser baratas para quem as alugar, se forem eles os inquilinos, mas caras se forem os proprietários, os bancos vão distribuir os lucros pelos clientes, enfim…

— A pouca vergonha vai acabar!

— Ah, pois vai! A quem o diz,




sexta-feira, 13 de outubro de 2023

E, NO ENTANTO, AMBOS “FALAM DO SEU PRÓPRIO TEMPO

 

"Um teatro, uma literatura, uma expressão artística que não fale do seu próprio tempo não tem relevância." Dario Fo

 

Quem sou eu para contrariar o teu ímpeto revolucionário, ó Dario, mas, para mim, tudo fala do "seu próprio tempo", nem que seja através da mediocridade ou da banalidade. A literatura de cordel, os textos gongóricos e inflamados do séc. XIX (e não só), o Dantas, os dantinhas e os dantescos, as telas poeirentas e esquecidas, as partituras que as traças vão devorando ou já devoraram, o teatro das feiras e do adro das igrejas, tudo fala da sua época.

 

Pois tudo que o ser humano produz, e que é ou pretende ser arte, espelha uma vivência, uma inspiração, um desejo de comunicar, uma vaidade, ou um pedido de ajuda.

 

Conhecida ou ignorada, a produção “artística” de uma época traduz a realidade de uma forma subtil, mordaz, incisiva, ou sem força ou interesse, mas nela tanta informação sobre uma comunidade, uma cultura, um lugar, um período no tempo.

 

O mérito de um legado requer o reconhecimento dos que o observam, dos que o analisam, promovem ou ignoram.  Só alguns conseguem atingir o alvo com tal impacto que permanecem e cabem na tua frase, Dario.

 

Mas se muitos alcançam relevância mesmo que assente na mediocridade, (morra o Dantas! Pim!), outros vivem na obscuridade apesar do brilho do que produzem. Talvez venham a ser descobertos mais tarde, ou não. Não é verdade, ó Vincent?

 

E, no entanto, ambos “falam do seu próprio tempo”, ó se falam!

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Novíssima Cartilha Ilustrada", uma sátira à "Cartilha Escolar (Ler, Escrever e Contar), de Domingos Cerqueira,(1912).

Uma paródia, de Pedro Monteiro e de Rodrigo Monteiro, ao método designado analítico-sintético, usado nas cartilhas de de aprendizagem da leitura e da escrita adotadas no início do séc. XX para alunos da 1ª classe. O conceito de livro único ainda não existia. Vai chegar no tempo de Salazar com o célebre "Livro da Primeira Classe". No período da República havia pois várias cartilhas e todas enfermavam dos aspetos ridículos que Pedro e Rodrigo Monteiro satirizam de uma forma excelente. 

Como hoje é o dia em que se celebra a implantação da República, queria apenas lembrar que, apesar dos aspetos realmente absurdos destes livros, foi feito, neste período, um esforço notável de construção de escolas e de alfabetização de um país praticamente constituído por analfabetos. Este esforço foi depois continuado no período salazarista com uma mais bem montada estratégia de separação de classes e de formação de um grupo de trabalhadores submissos e disciplinados. "O Livro da Primeira Classe", publicado em 1941 (apesar de haver tanta gente, incluindo o próprio Ministério da Educação que ignora a data exata dessa publicação) é um exemplo de um livro que serve de uma forma certeira e despudorada um objetivo. Até as maravilhosas ilustrações de Raquel Roque Gameiro, a quem presto a minha homenagem, contribuem de uma forma eficaz para jamais o esquecermos. Mas, na verdade, e aprendi a ler por esse livro, o que nos fica na memória são essas imagens belíssimas e alguns poemas ingénuos. Só muito mais tarde me apercebi do conteúdo ideológico do livro. E isso talvez se deva ao facto de as pessoas viverem de tal modo imersas na beleza estética do próprio livro que ficavam indiferentes ao seu conteúdo. Eu andava num colégio de freirinhas que nos levavam a desfiles e paradas. Içava a bandeira nacional, vestida com a farda da mocidade portuguesa, no dia 1 de dezembro, porque era loirinha e bonita e isso condizia melhor com o aparato do momento. Mas, questões de feitio, nada daquilo me tocava, nem as missas, nem as paradas, nem os hinos. Ficava tudo à flor da pele. 




DE NOVO "PARASITAS" OU A TECNOLOGIA COMO UMA ARMA


Vou voltar aos "Parasitas". Insólito e profundamente "metafórico" (uma das palavras mais usadas neste filme). O telemóvel aparece como uma arma - uma pistola ou uma metralhadora que te manieta e te impede de fugir.
Imaginem dizer "Mãos ao ar!", apontando um telemóvel.




quarta-feira, 13 de setembro de 2023

UM MUNDO EXTREMAMENTE COMPLEXO

 Ontem assisti a uma grande parte do debate na RTP1 sobre a crise do jornalismo. Só desisti quando se começou a tornar obsessiva na minha mente a imagem de um grupo de aves de grandes e afiados bicos a tentarem com golpes certeiros partir uma pedra, talvez um ónix ou um diamante.

As aves eram os convidados, os golpes certeiros as intervenções. Todas acertavam na pedra. A pedra era a complexidade do mundo em que vivemos e a insolubilidade do problema que discutiam.













quarta-feira, 30 de agosto de 2023

CONVERSAS FRANSCISCANAS SEMPRE

Ontem o Francisco veio fazer-me uma visita. Deambulou pela casa calado e distraído.

— Queres uma torrada, Francisco?

— Não, não me apetece,

— E um gelado pequenino?

— Também não.

Mas lá acabou por comer o gelado.

No parque dizia-me ele:

— Gostei do que vi em tua casa.

— ?

— As tuas pinturas. São muito boas. Porque não vendes?

— Francisco, a avó já não tem paciência para isso.

— Podias pedir à polícia que te montasse uma tenda e vendias lá.

— Pois, Francisco. Não sei se é boa ideia.

— Assim ninguém sabia que era uma velhota que fazia aquelas coisas.

Rio-me.

— De que te ris? O que é que eu disse que te fez rir?

— Aquilo da velhota…

O Francisco sente que me atingiu e apresenta uma série de explicações em que velhota é substituída por avó, etc.

Mas Francisco apanhaste a essência da coisa. We must be young forever. Assim o exige a sociedade que criámos.

Além disso, tens razão, a minha casa está a tornar-se devagar, devagarinho numa arrumação de um qualquer museu. Ia escrever museu do Louvre, mas seria muita empáfia.

Na imagem, um aspeto micro do meu museu caseiro.





segunda-feira, 17 de abril de 2023

PASTEL DE BACALHAU COM QUEIJO DA SERRA

   Pastel de bacalhau com queijo da serra é bom. Não sei quem é o proprietário da Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau mas, além do delicioso sabor do dito pastel, admirei e criatividade dos pormenores e a ideia de servir apenas dois itens (o pastel de bacalhau com ou sem queijo e o vinho da Madeira) e a forma de os servir.

Os preços são proibitivos, mas vale a experiência. Na verdade para fazer uma obra de arte, que é o pastel de bacalhau com um coração de abundante queijo da serra, quanto engenho e arte são precisos.







quarta-feira, 29 de março de 2023

ELOGIO DA MEMORIZAÇÃO E DO PRAZER DE LER SEM MORALISMOS NEM BARREIRAS


Naquele colégio de freirinhas onde eu e os meus irmãos fizemos a 4ª classe e a admissão ao liceu, havia por baixo da capela uma sala de teatro razoável, com  palco, cortinas, bambinelas, cenários, etc. Talvez a sala levasse apenas 100 pessoas sentadas, mas era aí que todos os anos se fazia uma festa com uma peça de teatro, declamação de poemas, danças e sketches. Havia mesmo um guarda-roupa que provia às necessidades básicas deste espectáculo anual que era repetido numa sala de teatro na baixa da cidade do Porto.

Isto era o melhor deste colégio, uma inesquecível recordação. Como o meu irmão mais velho tinha sido a estrela da companhia, os que se seguiam deviam apresentar o mesmo talento. Mas não era bem assim. De qualquer modo, eu ainda recitei poemas, animados por danças em background — eram enormes e eu, tal como outras raparigas e rapazes prendados tínhamos de os decorar com esmero e entoação. 

Decorar era um exercício fundamental em muitas situações. Não tinha dificuldade nisso, sobretudo quando lia poemas ingénuos, trágicos ou românticos e textos que falavam de realidades exóticas e coloridas.

Embora já tenha esquecido muitos deles ainda sei de cor poemas da primeira classe (“Andava um dia em pequenino, nos arredores de Nazaré, o bom Jesus, o Deus Menino… “, “Há guerra na capoeira Franga poedeira de crista encarnada encontrou espiga de milho dourada…”, etc. etc.) da segunda classe (“Os passarinhos tão engraçados fazem os ninhos com mil cuidados…”, Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz? Aquelem filha é Jesus…”, etc., etc.) da terceira, da quarta (o deserto de Moçâmedes, a caçada ao búfalo, etc.) e por aí fora poemas trágicos (“Coitado do meu rapaz, ele aí vai de foz em fora na sua barca falaz à procura da ventura que ninguém sabe onde mora…”, Mãe, Que desgraça na vida aconteceu que ficaste insensível e gelada, que todo o teu perfil se endureceu numa linha severa e desenhada?...” os sonetos do Antero, os do Bocage, episódios dos Lusíadas, etc. etc.) Ficavam-me na memória e nem precisava de olhar o livro.

Se as linhas de comboio continentais ou extra continentais desapareceram num ápice, rios, serras e montanhas das colónias ou províncias ultramarinas idem, os textos piegas ou heroicos ficaram, porque como criança e adolescente as palavras mesmo desconhecidas soavam-me maravilhosamente (já agora dentro do espírito romântico que me perseguia também decorei sem esforço “Le Lac”. de Lamartine #Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages, dans la nuit éternelle emportés sans retour, ne pourrons-nous jamais sur l'océan des ages jeter l'ancre un seul jour?”

Memorizar despertou-me o gosto pelas palavras e pela leitura. Gostava de ler histórias de meninos e meninas audaciosos e desobedientes, de crianças que voavam, de meninas que faziam scones, bolos, sanduíches em ambientes confortáveis e felizes, de princesas feias e de princesas bonitas, de viagens por países distantes e imaginadas onde havia canibais que cozinhavam homens em caldeirões, piratas cruéis e piratas simpáticos como o da Ilha do Tesouro, etc. etc.

As palavras faziam-me viajar, mas não me tornavam em pirata nem me faziam atirar da janela pensando que podia voar e também não me tornaram numa dona de casa, nem numa racista.

O que me custou mesmo, mesmo decorar foi o catecismo. Um livro inteirinho sem perceber nada. Porque um rio, uma montanha ou uma linha férrea, eu sabia o que eram. Agora o acto de contrição, os sete pecados mortais, céus! era mesmo difícil. 




sábado, 21 de janeiro de 2023

“THE CROWN” LAVA MAIS BRANCO

Resisti durante meses e meses a ver esta série da Netflix. Perante a pobreza que caracteriza a maioria das produções deste canal e as opiniões positivas que ouvia sobre a verdade, é certo que ficcionada, da dita série, acabei por ceder e começar a vê.la religiosamente desde o início. Falta-me um episódio para acabar a segunda season, mas aprendi, aprendi muito.

 

1. A rainha Isabel era uma senhora inteligente, arguta e virtuosa, tão virtuosa que só é comparável a Nossa Senhora de Fátima com a vantagem de saber dançar com elegância e agilidade o fox-trot.

 

2. A rainha Isabel era o verdadeiro timoneiro do Commonwealth (bem-estar comum, mais comum a uns do que a outros). A sua ligação ao divino através da coroa que lhe puseram na cabeça vai se desenhando devagar, mas com persistência.

 

3. Os líderes dos países africanos, Egito, Gana, etc. eram uns bandidos e simultaneamente uns totós ignorantes tal como a população africana que apoiava as ideias independentistas destes lacaios do comunismo

 

4. Sobre a independência da India (como se atreveram os indígenas a este ato desrespeitoso?) e criação do Paquistão, uma das maiores chacinas da História, nada se diz, nem sobre o papel nessa sangria do primeiro-ministro Winston Churchill e de lord Mountbatten tio do príncipe Philip, o marido da rainha.

 

5. A Austrália e os seus testes nucleares que mataram centenas senão milhares de aborígenes, nem pio. África e a sua população, vista como um conjunto saloio ignorante, é o bombo da festa.

 

6. No campo dos casos do dia, temos o caso da senhora Kennedy, representada por uma atriz escanzelada, de aspeto doentio e esfomeado, em que as roupas não assentam nada bem e cujo visual nada tem de charmoso. Além do tudo o mais a rainha dá-lhe uma lição poderosa sobre qual a mulher mais bonita e inteligente do mundo (a saber a rainha herself), enquanto recebe a desgraçada senhora Kennedy, comendo uns scones com manteiga e compota, perdão manteiga com uns scones e compota, e mandando às urtigas o protocolo. Classe é classe!

 

7. Não posso esquecer o Príncipe Philip, marido da rainha, desmiolado mulherengo que a rainha converteu em bom marido e em pai empenhado, com uma visão muito própria da pedagogia baseada na sua coragem, tenacidade e bravura juvenis que lhe moldaram o caráter digno de um líder. Pois o bravo Philip que muito sofreu construiu em jovem um muro à chuva e ao frio gélido, sozinho, acarretando tijolos de dezenas de quilos e segurando grades de um portão de peso incalculável. Esta pedagogia baseada na humilhação e na indiferença vai ser aplicada a seu mando no filho Carlos que descreve estes anos de martírio como anos de “prisão, viver no inferno”. Um ponto para o Carlos.

 

8. O Philip que passou à história como um desbocado era simplesmente um HEROI, completamente ilibado de um dos maiores escândalos da Inglaterra, o caso Profumo que, para ele, foi mesmo só fumo.

 

Pois não sei se tenho coragem para continuar a ver a série embora já me tenham garantido que a melhor season é a quarta. Para mim, “The Crown” tem sido uma lavagem da História e uma forma de tornar a rainha uma lenda (sina das Isabeis inglesas) e mostrar afinal, apesar de todas almofadas que a CROWN é o Commonwealth, ou seja, o império britânico outrora o mais poderoso da Terra e que se tem vindo a esfarelar com a ajuda dos seus aliados em geral e com especial relevo dos EUA. Malhas que o império tece…