domingo, 29 de dezembro de 2024

PONTO DE VISTA


Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
(…)
Na obra “Non (Nu)”, Ionesco (dramaturgo nascido na Roménia, naturalizado francês) expressa, com humor e teatralidade, as suas opiniões sobre a crítica literária. Para ele, no campo da crítica literária todas as opiniões são válidas. Sem o humor deste dramaturgo, sinto que todos os acontecimentos maiores ou menores da atualidade permitem interpretações diversas e podem ser observados em diferentes ângulos mais ou menos visíveis.
Esta condição que permite uma subjetividade tantas vezes orientada por uma objetividade premeditada é cada vez mais evidente para o cidadão em geral que pressente, por trás do que lhe é transmitido como a verdade das verdades, múltiplas nuances e múltiplas inverdades. Este fenómeno que sempre existiu, mas que se tornou numa autêntica praga gera a dúvida e a descrença, nuns casos desejada por fazedores de opinião, noutros frustrada. Caso para concluir como Ionesco que no campo da realidade social e política todas as opiniões são válidas? Ou como diz de uma forma tão clarividente Gedeão: “eu vejo no mundo escolhos onde outros, com outros olhos, não veem escolhos nenhuns”.

Talvez não seja esta a conclusão que eu pretendia. Na verdade, preferia que a perplexidade perante as variadas leituras de determinados acontecimentos levasse as pessoas a uma busca em diferentes fontes de informação, já que observar “in loco” é impossível para quase todos nós e para a maioria senão totalidade dos acontecimentos. 




terça-feira, 29 de outubro de 2024

REVISÃO CURRICULAR AVANÇA JÁ NO PRÓXIMO ANO LETIVO

Estando a ler no DN o artigo com este título, detive-me, em especial, na revisão do currículo de Português, Língua Materna, embora o artigo do DN dê particular ênfase ao ensino da História, o que poderá fazer sentido, mas nunca lecionei esta disciplina e ignoro os seus problemas específicos. É certo que há muitos anos atrás, segui um aluno do Secundário (então numa escola em que se testavam novos programas) e fiquei encantada com o que aprendi sobre a forma de olhar os acontecimentos numa perspetiva sincrónica e global. Neste nível etário e de ensino, a História (século XX) era então abordada nessa perspetiva, apresentando todos os factos e situações que ocorriam na Europa e no mundo, num corte transversal que permitia perceber como se relacionavam entre si.

Sobre o ensino do Português realço a opinião de Paulo Guinote que transcrevo em parte “(é preciso) ... uma visão mais prática do ensino da língua mais centrada na escrita criativa. Bem sei que vou ser acusado de reacionário por muitos académicos especialistas, mas sendo prático, acho que é preciso voltar ao hábito da “redação temática”, que organiza o pensamento e promove flexão e criatividade.” Resumindo, ESCREVAM, PORRA!

Segui o percurso curricular dos meus netos mais velhos, muitas horas dedicadas a conteúdos gramaticais de difícil nomenclatura e utilidade nula. E escrever, népia… Até acho que certas noções gramaticais são absolutamente necessárias, para explicar a falta de correção de um texto. Os Picassos da escrita nascem de uma aprendizagem leve, solta e constante.

Também João Pedro Aido, presidente da Associação do Professores de Português, refere um reforço da escrita criativa nos ensinos básico e secundário e ainda aponta para “um ensino da literatura menos académico e tradicional (porque) cristalizar o texto literário em conteúdos programáticos não leva os alunos a lerem obras nem a fazerem apreciações críticas pessoais.” Defende ainda “uma maior liberdade de escolha dos autores a estudar, uma lista maior e mais atualizada…”

Nem imaginam como concordo com esta liberdade de escolha de autores. Farta de ver crianças e adolescentes vacinados contra a leitura porque lhes impingem umas obras muito literárias, de autores nacionais que “temos de respeitar” e as editoras precisam de vender. A custo, lá foram entrando alguns autores estrangeiros, mas nenhuma preocupação com aquilo que se escolhe para o aluno ler. Está no programa, catrapuz, vai comprar. Se lês ou não isso aí já não é importante. É preciso que a editora venda.

Por favor, arranjem estratégias e textos que permitam aos alunos descobrir que ler um livro pode ser uma aventura. Arranjem professores também e sobretudo soltem-se, carago!




quinta-feira, 3 de outubro de 2024

CAMINHOS DA MEMÓRIA

Ontem, fui conhecer a pala do Centro de Arte Moderna.

Sim, é uma obra de extremo bom gosto e arrojada sob o ponto de vista arquitetónico. Parafraseando o nosso “saudoso” presidente: “Só tenho um adjetivo para exprimir o que senti: GOSTEI.”
Mas aquilo que me ficou no coração foi um SABOR ANTIGO que encontrei na parte nova do jardim, que ainda está a ser terminada: VIOLETAS SELVAGENS, AVENCAS, UM LAGO COM CADEIRINHAS À VOLTA
Num ligeiro declive, violetas selvagens, as verdadeiras, as perfumadas, misturavam-se com as avencas. Tinham sido trazidas do poço do esquecimento para a luz do dia.
Tanta gente ignora que o perfume da violeta não foi inventado num laboratório, mas é o desta minúscula e tímida florzinha. Já não há na rua as "violeteras" a vender raminhos, nem se usa oferecer um raminho delas.
E o perfume do frasquinho que a minha mãe guardava na cómoda voltou intenso.
As avencas, milhares de folhinhas frágeis, minúsculas, onde os matizes de verde se multiplicam e o dourado do outono cria novos coloridos, também me trouxeram de volta o laguinho do nosso quintal nos Açores.
E, depois no novo jardim havia um lago, com cadeiras de metal à volta.
Ah, jardins da minha infância com lagos, peixes, pedras, tufos de vegetação, lagartos e cadeiras onde a tarde mansa se recostava, voltai!





domingo, 1 de setembro de 2024

A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ERNESTO

Não reparo muito em outdoors nem noutras coisas. Nunca seria boa testemunha para o inspetor Poirot. Ontem, porém, reparei num outdoor com um slogan pleno de inspiração e percebi a importância de vários aspetos do cenário “parapolítico” (neologismo) ou o backstage (estrangeirismo) da política.

Eis o slogan: “Com Cotrim, SIM”.  Logo ali a minha inspiração de grande fazedora de campanhas políticas me segredou: “Com Durão, NÃO”, “Com Inês, TALVEZ”, “Com Rangel papas sem MEL”, “Com Ventura não se ATURA”, “Com Coelho é só FOLHELHO”, “Com Marcelo nem de CHINELO”, “Com Cavaco mete pró SACO” e outros slogans de grande fulgor inspiracional.

Mas o slogan que despoletou esta catadupa de talento também me chamou a atenção para a importância do nome de um político. Nunca escolhas LACERDA e outra rimas duvidosas para não acabares num outdoor transformado em anedota para crianças.



 

terça-feira, 30 de julho de 2024

NOTAS OLÍMPICAS 2024

À noite vejo excertos do que foi o dia olímpico.

1. Não aguento ver a ginástica feminina ou masculina. Então os saltos! E a trave, meu Deus! Estou sempre à espera que caiam, que atravessem disparados a sala, que tenha de vir uma equipa de socorristas levantá-los do chão. Não percebo os décimos que perdem porque uma perna estava 2mm afastada da outra, porque não ganharam altura, etc. etc. Eu dava uma medalha de ouro a todos.

2. Então procuro outro desporto. Não tenho paciência para ver duas "atletas" a bater numa bolinha de um lado para o outro de uma mesa, durante horas. Não tenho paciência para ver as ondas daquele sítio maravilhoso cujas praias vão desaparecer debaixo de água porque a calota polar está a derreter e só os picos apetitosamente verdes ficarão a espreitar os nadadores agarrados a uma prancha.

2. Então salto para a natação. Está calor e é um desporto refrescante, além disso, percebo que o Joaquim chegou primeiro do que o Eustáquio e a Filipa se destacou das outras nadadoras. E ontem vi a Itália a ganhar a sua primeira medalha olímpica com um IMPERADOR ROMANO renascido, um DEUS do Olimpo. Que rapaz mais bonito: o formato do rosto, os olhos azuis grandiosos, o nariz e a boca desenhados com cinzel, os cabelos. De lá de cima dos seus quase dois metros, ele tinha descido do Olimpo, para garantir que estes jogos eram mesmo olímpicos. Era o Antinoos do imperador Adriano, o Apolo dos deuses celestiais. Thomas Ceccon, para mim nem precisavas de nadar. Os deuses do Olimpo ganham sempre medalhas de ouro. 






segunda-feira, 15 de julho de 2024

😉CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DO PORTUGUESINHO

Se o Português teve origem no latim, o Portuguesinho teve origem no Português, daí poder-se concluir que um é filho e outro neto da língua que se falava em Roma e arredores.


Apesar das semelhanças que levam muitas pessoas a afirmar que são ambas a mesma língua, o Portuguesinho, ainda em formação, já tem regras próprias. Por exemplo, podemos dizer referindo-nos a uma bela jovem ou a um belo jovem: “Que rico CORPINHO!”, mas jamais a um idoso. Sem ter pretensões em compilar as novas regras deste neoportuguês, atrevo-me a enumerar algumas.

1. Portuguesinho para idosos: REGRA: COM IDOSOS/AS, usar obrigatoriamente todos os “substantivos” e, quando possível, advérbios e adjetivos com o sufixo -inho/-inha. Ex: “Então dormiu um SONINHO? Está bem DISPOSTINHA e DESCANSADINHA? Vamos lá sentar-nos na CADEIRINHA. Não se esqueça da BENGALINHA. Vamos já trazer o LANCHINHO e vamos pô-lo na MESINHA! Penteio-lhe o CABELINHO antes do PASSEIOZINHO…”, etc. Nesta língua existem também vocativos específicos para idosos e idosas: Ex: Meu querido/ Minha querida, Meu amor, Minha filha, ou simplesmente Querido/ Querida, Ó Filho/Ó Filha!

2. Portuguesinho para bebés e crianças pequenas (exclusivo): REGRA: Com bebés e crianças pequenas é de uso obrigatório o sufixo -inho/-inha na HISTORINHA e para designar partes do corpo. Ex: NARIZINHO, BOCHECHINHAS, CARINHA, MÃOZINHAS, DEDINHOS, PEZINHOS (este nome, por exemplo, é uma exceção porque também se usa para idosos que tenham dificuldade em caminhar ou outro mal relativo aos pés).

Incentiva-se o contributo de todos na elaboração de uma gramática desta língua que já tem uns anos.



sábado, 15 de junho de 2024

AOS POETAS QUE AINDA SE VESTEM DE POETAS, AOS FILÓSOFOS QUE AINDA SE VESTEM DE FILÓSOFOS, AOS ARTISTAS QUE SE VESTEM DE ARTISTAS, AOS CIENTISTAS LOUCOS QUE SE VESTEM DE CIENTISTAS LOUCOS...


Eu sou de um tempo em que havia uma farda para os Poetas, os Filósofos, os Artistas e os Cientistas Loucos e, assim, quando íamos na rua, olhávamos e dizíamos aquele é Poeta ou é Filósofo (a farda era parecida) ou Artista (a farda mais bonita era a dos Artistas). O Cientista Louco era diferente de todos os outros e era fácil de reconhecer, mas já nesse tempo eram raros.
Hoje, restam poucos exemplares desses grupos, e as pessoas sentem-se perdidas. Os Poetas ficaram ermos de si próprios e os Filósofos foram obrigados a despir a farda e a misturar-se com a gente comum. Os Cientistas Loucos transformaram-se em engenheiros.
Os jovens não são como eu era e já não os reconhecem na rua. Os jovens preferem ter alma de viajantes e partir num barco à descoberta de um mundo por descobrir.
Ah, mas ficaram os Artistas, os únicos cuja farda é a própria pele do corpo e não precisam de se arranjar antes de sair à rua, porque eles também navegam num barco à descoberta de um mundo por descobrir.



IMAGEM DE UM POETA COM FARDA

domingo, 25 de fevereiro de 2024

HAJA DEUS

 Pego no livro. Na capa, o título, o nome da autora e em destaque - "Obra recomendada pelas metas curriculares de Português para o 4º ano de escolaridade. Plano nacional de leitura."

Vamos ler, penso eu. O número de páginas coloridas de entrada não me agrada. Umas frases poéticas de cliché e uma declaração em página com fundo branco: Por vontade expressa da autora, o texto desta obra não adopta as normas do Acordo Ortográfico de 1990. Continuo. Páginas com fundo azul claro, cinzento claro, rosa claro em que texto é aberto em caracteres brancos. O texto é longo e (desculpem) pateta.
Que sorte que eu tive! Quando andava no quarto ano lia textos com letras pretas sobre fundo branco. Os textos eram escritos com a Ortografia que a professora me ensinava. Foi no 4º ano (4ª classe como se chamava então) que me apaixonei pela leitura ao ler textos que falavam de búfalos, de caçadas, de desertos e tinham descrições extensas que me faziam sonhar. Não lia textos patetas sobre a bruxa boa que saltava de flor em flor.
No 5º ano (então primeiro de um novo ciclo) deslumbrei me com o terceiro bloco de "O Suave Milagre", com "A Aia" e com a descrição da subida para Tormes de "A Cidade e as Serras" ("Serra bendita entre as serras!"). As histórias tinham sempre uma ponta de mistério e de aventura que me faziam ler sem parar. O suspense era tanto que às vezes tinha de ir espreitar o fim.
Que sorte que eu tive de não darem a ler estes textos xaroposos, tão mal apresentados que exigem um bom par de óculos ou uma lupa e uma infinita paciência. (Não menciono autor nem editora, mas são proeminentes. Haja Deus!)