segunda-feira, 17 de abril de 2023

PASTEL DE BACALHAU COM QUEIJO DA SERRA

   Pastel de bacalhau com queijo da serra é bom. Não sei quem é o proprietário da Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau mas, além do delicioso sabor do dito pastel, admirei e criatividade dos pormenores e a ideia de servir apenas dois itens (o pastel de bacalhau com ou sem queijo e o vinho da Madeira) e a forma de os servir.

Os preços são proibitivos, mas vale a experiência. Na verdade para fazer uma obra de arte, que é o pastel de bacalhau com um coração de abundante queijo da serra, quanto engenho e arte são precisos.







quarta-feira, 29 de março de 2023

ELOGIO DA MEMORIZAÇÃO E DO PRAZER DE LER SEM MORALISMOS NEM BARREIRAS


Naquele colégio de freirinhas onde eu e os meus irmãos fizemos a 4ª classe e a admissão ao liceu, havia por baixo da capela uma sala de teatro razoável, com  palco, cortinas, bambinelas, cenários, etc. Talvez a sala levasse apenas 100 pessoas sentadas, mas era aí que todos os anos se fazia uma festa com uma peça de teatro, declamação de poemas, danças e sketches. Havia mesmo um guarda-roupa que provia às necessidades básicas deste espectáculo anual que era repetido numa sala de teatro na baixa da cidade do Porto.

Isto era o melhor deste colégio, uma inesquecível recordação. Como o meu irmão mais velho tinha sido a estrela da companhia, os que se seguiam deviam apresentar o mesmo talento. Mas não era bem assim. De qualquer modo, eu ainda recitei poemas, animados por danças em background — eram enormes e eu, tal como outras raparigas e rapazes prendados tínhamos de os decorar com esmero e entoação. 

Decorar era um exercício fundamental em muitas situações. Não tinha dificuldade nisso, sobretudo quando lia poemas ingénuos, trágicos ou românticos e textos que falavam de realidades exóticas e coloridas.

Embora já tenha esquecido muitos deles ainda sei de cor poemas da primeira classe (“Andava um dia em pequenino, nos arredores de Nazaré, o bom Jesus, o Deus Menino… “, “Há guerra na capoeira Franga poedeira de crista encarnada encontrou espiga de milho dourada…”, etc. etc.) da segunda classe (“Os passarinhos tão engraçados fazem os ninhos com mil cuidados…”, Minha mãe, quem é aquele pregado naquela cruz? Aquelem filha é Jesus…”, etc., etc.) da terceira, da quarta (o deserto de Moçâmedes, a caçada ao búfalo, etc.) e por aí fora poemas trágicos (“Coitado do meu rapaz, ele aí vai de foz em fora na sua barca falaz à procura da ventura que ninguém sabe onde mora…”, Mãe, Que desgraça na vida aconteceu que ficaste insensível e gelada, que todo o teu perfil se endureceu numa linha severa e desenhada?...” os sonetos do Antero, os do Bocage, episódios dos Lusíadas, etc. etc.) Ficavam-me na memória e nem precisava de olhar o livro.

Se as linhas de comboio continentais ou extra continentais desapareceram num ápice, rios, serras e montanhas das colónias ou províncias ultramarinas idem, os textos piegas ou heroicos ficaram, porque como criança e adolescente as palavras mesmo desconhecidas soavam-me maravilhosamente (já agora dentro do espírito romântico que me perseguia também decorei sem esforço “Le Lac”. de Lamartine #Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages, dans la nuit éternelle emportés sans retour, ne pourrons-nous jamais sur l'océan des ages jeter l'ancre un seul jour?”

Memorizar despertou-me o gosto pelas palavras e pela leitura. Gostava de ler histórias de meninos e meninas audaciosos e desobedientes, de crianças que voavam, de meninas que faziam scones, bolos, sanduíches em ambientes confortáveis e felizes, de princesas feias e de princesas bonitas, de viagens por países distantes e imaginadas onde havia canibais que cozinhavam homens em caldeirões, piratas cruéis e piratas simpáticos como o da Ilha do Tesouro, etc. etc.

As palavras faziam-me viajar, mas não me tornavam em pirata nem me faziam atirar da janela pensando que podia voar e também não me tornaram numa dona de casa, nem numa racista.

O que me custou mesmo, mesmo decorar foi o catecismo. Um livro inteirinho sem perceber nada. Porque um rio, uma montanha ou uma linha férrea, eu sabia o que eram. Agora o acto de contrição, os sete pecados mortais, céus! era mesmo difícil. 




sábado, 21 de janeiro de 2023

“THE CROWN” LAVA MAIS BRANCO

Resisti durante meses e meses a ver esta série da Netflix. Perante a pobreza que caracteriza a maioria das produções deste canal e as opiniões positivas que ouvia sobre a verdade, é certo que ficcionada, da dita série, acabei por ceder e começar a vê.la religiosamente desde o início. Falta-me um episódio para acabar a segunda season, mas aprendi, aprendi muito.

 

1. A rainha Isabel era uma senhora inteligente, arguta e virtuosa, tão virtuosa que só é comparável a Nossa Senhora de Fátima com a vantagem de saber dançar com elegância e agilidade o fox-trot.

 

2. A rainha Isabel era o verdadeiro timoneiro do Commonwealth (bem-estar comum, mais comum a uns do que a outros). A sua ligação ao divino através da coroa que lhe puseram na cabeça vai se desenhando devagar, mas com persistência.

 

3. Os líderes dos países africanos, Egito, Gana, etc. eram uns bandidos e simultaneamente uns totós ignorantes tal como a população africana que apoiava as ideias independentistas destes lacaios do comunismo

 

4. Sobre a independência da India (como se atreveram os indígenas a este ato desrespeitoso?) e criação do Paquistão, uma das maiores chacinas da História, nada se diz, nem sobre o papel nessa sangria do primeiro-ministro Winston Churchill e de lord Mountbatten tio do príncipe Philip, o marido da rainha.

 

5. A Austrália e os seus testes nucleares que mataram centenas senão milhares de aborígenes, nem pio. África e a sua população, vista como um conjunto saloio ignorante, é o bombo da festa.

 

6. No campo dos casos do dia, temos o caso da senhora Kennedy, representada por uma atriz escanzelada, de aspeto doentio e esfomeado, em que as roupas não assentam nada bem e cujo visual nada tem de charmoso. Além do tudo o mais a rainha dá-lhe uma lição poderosa sobre qual a mulher mais bonita e inteligente do mundo (a saber a rainha herself), enquanto recebe a desgraçada senhora Kennedy, comendo uns scones com manteiga e compota, perdão manteiga com uns scones e compota, e mandando às urtigas o protocolo. Classe é classe!

 

7. Não posso esquecer o Príncipe Philip, marido da rainha, desmiolado mulherengo que a rainha converteu em bom marido e em pai empenhado, com uma visão muito própria da pedagogia baseada na sua coragem, tenacidade e bravura juvenis que lhe moldaram o caráter digno de um líder. Pois o bravo Philip que muito sofreu construiu em jovem um muro à chuva e ao frio gélido, sozinho, acarretando tijolos de dezenas de quilos e segurando grades de um portão de peso incalculável. Esta pedagogia baseada na humilhação e na indiferença vai ser aplicada a seu mando no filho Carlos que descreve estes anos de martírio como anos de “prisão, viver no inferno”. Um ponto para o Carlos.

 

8. O Philip que passou à história como um desbocado era simplesmente um HEROI, completamente ilibado de um dos maiores escândalos da Inglaterra, o caso Profumo que, para ele, foi mesmo só fumo.

 

Pois não sei se tenho coragem para continuar a ver a série embora já me tenham garantido que a melhor season é a quarta. Para mim, “The Crown” tem sido uma lavagem da História e uma forma de tornar a rainha uma lenda (sina das Isabeis inglesas) e mostrar afinal, apesar de todas almofadas que a CROWN é o Commonwealth, ou seja, o império britânico outrora o mais poderoso da Terra e que se tem vindo a esfarelar com a ajuda dos seus aliados em geral e com especial relevo dos EUA. Malhas que o império tece…





sábado, 16 de julho de 2022

UM BANHO TURCO

 

Em 2015 visitei Istambul. No regresso todos me perguntavam: "Então gostaste da mesquita azul, do palácio Topkapı, da igreja de Santa Sofia, da cisterna da Basílica, etc.?" E eu ia dizendo: "Gostei muito." Mas, realmente houve duas coisas que me impressionaram profundamente talvez porque os viajantes nunca me tenham falado delas.
Uma foi o Museu de Arqueologia de Istambul (parece que há vários). O que eu visitei fica muito próximo da igreja de Santa Sofia. Impressionou-me porque me deu uma visão diferente da História. O circuito: civilização egípcia, civilização minoica, civilização cretense, civilização grega, está de tal forma gravado em nós, que as grandes civilizações do Médio Oriente ficam esbatidas. Neste Museu encarei o aspeto grandioso e avançado da civilização assíria, dos aqueus, hititas, sumérios, e doutros povos do Médio Oriente cujo nome esqueci, a prodigiosa escrita cuneiforme, com as suas tabuinhas de argila, repositório das sagradas histórias da Humanidade. Histórias que a Bíblia repete.
A majestade, o refinamento, a elaboração destas civilizações que se desenvolveram no Médio Oriente é prodigiosa e, apesar das guerras que ao longo dos séculos dilaceraram e destruiram sistematicamente a grandeza das suas ruínas, ainda conseguiram chegar até nós vestígios de um passado maravilhoso que se bate em grandiosidade com a civilização egípcia.
Outra coisa que me impressionou foram as pessoas, milhares e milhares e milhões, por toda a cidade. Nem sítio havia onde pôr o pé. Na parte antiga, na parte nova, na zona turística, na zona não-turística. As pessoas nasciam do chão, as casas irrompiam por todo o lado, encavalitavam-se nas colinas, modernas, antigas, novas, velhas, ricas e pobres. A abundância de gente, a abundância de crianças e de jovens que as escolas traziam aos milhares diariamente para visitarem os monumentos. Um verdadeiro formigueiro humano. E eu senti FORÇA, MUITA FORÇA. Só queria que ela fosse um força benfazeja, mas tenho dúvidas.



sábado, 23 de abril de 2022

O ULTIMO ARMAZÉM DE LIVROS

O profético título desta livraria de LA: "O Último Armazém de Livros"


Sim, é verdade, uma verdade como uma pedra que rola por uma íngreme encosta.

As palavras têm de ser lidas e isso dá cabo dos olhos. Além do mais elas são todas iguais e não são precisas muitas para pedir um café, uma cerveja, um prato de camarões, um bilhete de cinema ou a entrada numa discoteca.

Os livros não interessam, afinal temos a televisão rápida, eficaz e sem deixar rasto físico, apenas mental.

A cultura é um fardo. Antes a ignorância que não exige esforço.

A educação são os professores, aliás é um serviço que foi criado para fornecer emprego a um grupo social.

O séc. XXI não é a época da harmonia que os videntes previram. Afinal é apenas um regresso à Idade Média, sem monges copistas.

Se a História se repete incessantemente, que pena tenho de já não estar viva quando surgir um novo Renascimento.





quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

JARRA COM RAMINHOS DA MINHA OLIVEIRA


“Ao entardecer, quando a pomba voltou, trouxe uma folha nova de oliveira no bico. Noé então soube que as águas tinham diminuído sobre a terra.”

Hoje cortei alguns ramos da minha oliveira, a árvore que vai crescendo em minha casa. Já tem um tronco lenhoso com alguma grossura. Em tempos foi uma bonsai que libertei. Viverá depois de mim e espero que continue a engrossar e a encher-se de minúsculas flores e de negros frutos quando eu já não a vir.



terça-feira, 23 de novembro de 2021

O RAP DAS CONVERSAS EM FAMÍLIA

Afundada no marasmo televisivo noturno procurava qualquer coisa que pudesse entreter-me uns minutos antes que o sono me obrigasse a ir para a cama. Tarefa difícil porque talvez eu seja uma telespectadora também difícil.

No desenrolar do zapping descobri que havia um programa de “humor” na SIC com aquele RAP que nunca apreciei. Mas enfim… humor faz falta.
Parei uns minutos a ouvir. Que tristeza! As gargalhadas de uma vasta assistência, arrancadas seguramente por letreiros que diziam “RISO”, alertavam o espectador para o facto de que se tratava de um programa de humor, coisa de que ninguém suspeitaria.
Lembrei-me das “Conversas em família”, de tempos remotos. O que o RAP debitava, com tiques repetitivos e enfadonhos, tinha tanta graça como as palavras do professor. Esse procurava alertar a audiência para os perigos do comunismo. O RAP para os perigos deste governo.
À medida que o cabelo lhe vai caindo vê-se apenas a ambição que vai crescendo naquela cabeça e ocupando o lugar do humor, da sabedoria e da inteligência. Sim, porque, meus amigos, a fama que este homem ganhou de ser inteligente espanta-me. Eu sei que na terra dos cegos quem tem um olho é rei. Mas estou prestes a descobrir que quem é cego também.