domingo, 11 de dezembro de 2016

LAGOA


 Conto inspirado numa história real, publicado na antologia "VI(R)AGEM", colaboração do Grupo de Comunicação Novembro com  ASAS - Associação de Solidariedade e Ação Social de Santo Tirso

Manuel Filipe Lagoa, o seu nome de batismo, fora uma profecia. Calado, de feitio tranquilo, vivia o dia a dia sem preocupação de sucesso ou de luxo. Queria apenas ser livre e olhar as coisas, com o vento a bater-lhe no rosto, tal e qual como uma lagoa.
Uma lagoa é um lago de pequenas dimensões. Quando ele era garoto, conhecia apenas os lagos dos jardins de tamanho tão reduzido que não conseguia imaginar como seria uma lagoa. Talvez fosse parecida com um charco ou com uma poça de água da chuva. Ou talvez com um pântano, embora um pântano possa ser enorme como aquele em que ele próprio se tinha afundado.
Agora que crescera e aprendera e desaprendera tanta coisa na escola da vida fazia ideia do que era uma lagoa e também imaginava um lago. Tinha ouvido falar das lagoas das Sete Cidades, nos Açores, uma azul outra verde, de dimensões muito maiores do que as da sua alma aprisionada. Em pensamento, via-se escondido na vegetação rasteira das margens, deitado no chão, a olhar para o alto. Os seus olhos tornavam-se então lagoas minúsculas ou charcos em que o azul do céu se refletia e compreendia que uma lagoa  mais do que um olho gigantesco em que o céu se reflete é um grito de liberdade paralisado. Não se pode aprisionar uma lagoa, metê-la entre quatro paredes, fazer correr as suas águas como as de um rio, ou emprestar-lhe o ímpeto e a violência do mar. Porque uma lagoa é assim, livre, parada, indolente, sem preocupações. Também sabia que aqueles pedaços de água, felizes e quietos, apenas porque existem e se enamoraram do céu, podem ser invadidos por algas insignificantes mas persistentes e destruidoras como as pragas, ou então por invisíveis águas subterrâneas, infetadas de toda a espécie de germes que lhes alteram a cor da água e a tornam baça, destruindo a ligação amorosa entre um pedaço de água e um pedaço de céu. Sabia tudo isso porque o seu nome era Lagoa e a sua vida fora subtilmente infetada por algas e águas poluídas.

Nunca gostara da escola, mas aceitava-a como uma espécie de obrigação parecida com as vacinas ou as doenças. Arrastava-se pelas salas de aula. Gostava de olhar o recreio e os eternos prédios por detrás do muro, daquele muro que ele queria pular. O céu, ora cinzento ora azul, às vezes tinha nuvens e ele entretinha-se a fitar aqueles novelos de algodão branco até  adormecer. A professora chamava:
- Filipe, lá estás tu a olhar para ontem. Se não terminares a cópia não vais ao recreio.
E embora ele não soubesse o que era olhar para ontem, sabia que queria ir ao recreio e espreguiçava-se sobre o traço do T que lhe tinha custado tanto a desenhar. Cansado daquela rotina, muitas vezes, fugia à escola.
Em casa, havia a família, a mãe, as quatro irmãs e os três irmãos, família que ia diminuindo, porque todos trabalhavam e alguns já tinham vida independente.  Também havia um pai que um dia adoeceu e, de repente, sem se perceber porquê, partiu para sempre.
“Quero o meu pai”, chorou o garoto e todos choraram.
A mãe, a mais bonita de todas as mulheres, continuara a chorar sempre como se tivesse perdido a alegria depois daquele dia fatídico. Filipe era o  seu menino a quem desculpava tudo, até as fugas à escola. Os irmãos também o protegiam. Afinal ele era o mais novo e viam-no sempre pequenino. Chamavam-lhe Filipe por ser um nome com um sabor a novidade e mais bonito do que Manuel.
Terminada a quarta classe, o que mereceu elogio das irmãs e dos irmãos que não tinham conseguido ir tão longe, continuou a ser o Filipe durante mais um ano, pois era difícil arranjar um lugar na fábrica de têxteis, na Maia, onde os irmãos trabalhavam. Foi um cunhado quem lhe arranjou o primeiro emprego, porque se tem de começar por algum lado e “em casa não aprendes nada”.
Com treze anos passou a ser o Lagoa, e a aprender o ofício de calceteiro. Os colegas eram mais calejados e, se alguns compreendiam a sua situação de aprendiz, outros exploravam o seu trabalho enquanto fumavam um cigarrito encostados ao muro, ou sentados na borda do passeio. Quando as pedras não ficavam bem encaixadas ele tinha de repetir  a tarefa. Mas o que mais o incomodava eram as anedotas e as piadas que não entendia. E então desejava ser um homem como os outros e perceber todos os segredos da vida.
Também lhe chamaram Lagoa no dia em que foi pela primeira vez ao café. Mas como o salário era mais reduzido do que uma poça da chuva, daquelas muito pequeninas e que secam em minutos, nunca mais voltou até porque depressa se viu a fazer outro trabalho que lhe dava mais uns tostões.
Tinha de se levantar cedo para ir da Trofa até à Maia, onde ajudava na limpeza de uma mina. Não guardava saudades dessa época breve, mas lembrava-se muito bem do dia em que a irmã lhe dissera que ele tinha lugar na fábrica de têxteis.
Foi na fábrica que cresceu. Já não era criança, nem  adolescente, considerava-se um adulto com um salário que lhe permitia ir ao café conviver com os amigos, falar de mulheres e de futebol, como uma pessoa crescida. Namoriscava as raparigas e elas gostavam dele, que era novo e bem parecido. Era mesmo feliz, e o copito que bebia ao final da tarde punha-o  bem disposto consigo, com os outros e em paz com o mundo.
Essa época luminosa em que a vida se abria à sua frente como amorosa estrada onde a sombra das árvores protege da canícula e as folhas, as flores e os frutos embelezam e alimentam a caminhada, quebrou-se de súbito, rasgada por um imenso grito de dor. A mãe partiu para sempre, tal como acontecera com o pai. O dia escureceu e o sol nunca mais brilhou com o fulgor dos outros tempos. Depois do funeral, bebeu mais do que o copito habitual, bebeu até a sua dor se desvanecer debaixo da cortina do álcool, bebeu até esquecer completamente o quanto tinha bebido.
Sentia-se órfão. Muitas vezes via a imagem da mãe e sabia-a a seu lado. Foi assim no dia em que conheceu aquela que viria a ser sua mulher. Delicada, pequenina, bem feita, cabelos loiros, sorriso meigo. Foi amor à primeira vista. Passavam o tempo juntos. Ela sabia a mar e era refrescante mergulhar nas suas águas.
Foram dois anos de enlevo até a novidade estalar. Ia ser pai. A notícia deixou-o tonto. Os amigos, uns felicitavam-no, outros diziam-lhe “Vais meter-te num sarilho”. Os irmãos e as irmãs achavam que era tempo de ele ter uma família, de assumir as responsabilidade de um homem. Tinha vinte e dois anos e ela dezanove.
A criança nasceria em breve e já nada podia esconder a barriga redonda e inchada da companheira. Assim, depois de ter enfrentado os sogros, decidiu esperar que o bebé nascesse e, com calma, casar e batizar o filho.
Aprendeu como era importante o sexo de uma criança, embora não atingisse a razão que dava logo à nascença primazia ao masculino sobre o feminino. Mas a verdade é que os sogros aceitaram muito melhor a notícia quando souberam que vinha aí um rapaz. Passaram a tratar o genro com a estima que se tem por alguém que fez um excelente trabalho. Os amigos deram-lhe os parabéns e louvaram a sua virilidade, pretexto para beberem uma rodada gratuita, que ele ofereceu como exigia a tradição.  
Encheu-se de brio e pagou do seu bolso a boda. De braço dado com a sua mulher caminhou até ao altar, repetindo o caminho que uma multidão de homens e mulheres tinha feito antes dele. E nessa fila interminável estavam os seus pais. Depois levaram à pia batismal o filho.
A mulher deixou a fábrica e passou a dedicar o seu tempo ao marido e ao bebé. No início viviam em casa dos sogros, mas depois alugaram uma casa pequenina, enquanto ele ganhava dinheiro para construir a sua própria casa, tal como iam tentando os seus irmãos e se tinha tornado tradição entre  os homens da sua terra. Contudo, e isso ninguém o dizia, as coisas estavam cada vez mais difíceis.
Foram essas dificuldades que o levaram a tentar a vida de estucador, porque se sentia mais livre e ganhava mais do que na fábrica. Foram ainda essas dificuldades que o levaram até Espanha, onde os estucadores eram bem pagos. Vinha a casa todos os meses. Em Espanha começou a beber mais do que aquilo que já ia bebendo regularmente. Quando anoitecia, depois de um dia de trabalho, não lhe apetecia a solidão do quarto. Sentava-se numa esplanada, que as havia por todo o lado, ou num cafezinho simpático, que os espanhóis sabem criar espaços confortáveis, e encontrava os amigos e a família nos copos que ia bebendo. Até lhe parecia normal a quantidade de líquido que ingeria, porque todos os homens e mulheres, conversadores e barulhentos, que se sentavam ao seu lado, enchiam os tampos das mesas de copos e riam alto, sempre felizes.
Mas a vida é como o tempo. Enganadora. O céu parecia limpo e nada fazia adivinhar a tempestade. Ou então talvez ele não soubesse ler os sinais.
Escasseava o trabalho na construção civil e eram cada vez mais frequentes as discussões com a mulher, que não queria que ele bebesse, nem estivesse tanto tempo com os amigos. Sentia-se aperreado, como se vivesse preso num cubículo, sem o vento a bater-lhe no rosto, e talvez por influência da bebida ou talvez porque ele fosse mesmo assim, imenso, largo e parado como uma lagoa, cada vez precisava mais de liberdade, de fazer o que muito bem lhe apetecia. Naquele dia a troca de palavras foi mais azeda. Como um relâmpago, pegou na trouxa e mudou-se para casa da irmã mais nova.
- Nunca vou esquecer o que me estás a fazer – disse-lhe a mulher lavada em lágrimas.
A irmã era carinhosa, amiga, mas também o enchia de conselhos. E muitas vezes não era só ela eram as outras irmãs, os irmãos, era toda uma família muito mais vasta do que a que tinha abandonado. Ninguém conseguia perceber que ele só era feliz quando bebia.
Afundava-se lentamente no seio mole e pegajoso do álcool, esquecia as dificuldades e as humilhações, esquecia aqueles que o tinham amado e sobretudo o rosto luminoso mas sofredor da mãe que deixara a vida sem se despedir, e a memória pálida de um pai que se desvanecera. A bebida era a esponja que apagava lentamente a realidade até o apagar a ele próprio. E quando deixava de existir como pessoa, o peso e o silêncio tornavam-no um elemento, apenas mais um elemento material de um mundo que não entendia. Adormecia no chão, na soleira de uma porta, no passeio ou mesmo no asfalto da estrada.
Depois as suas  memórias iam-se enrolando e sobrepondo, quebradas, esquecidas, maltratadas.
Perdera o nome, as pessoas evitavam olhá-lo. Confundiam-no com as pedras em que ele se deitava. A liberdade total era a pior de todas  as prisões que conhecera.
Quando os vapores do álcool se dissipavam, sentia vergonha de si próprio e reconhecia a verdade dos conselhos que tinha ouvido. Sentia ainda pena de si porque lhe faltava força para dobrar o destino, uma pena tão grande que nela cabiam todos os que como ele dormiam na rua e tinham desistido da vida. Humanamente frágeis, mostravam-se tantas vezes  desumanos e cruéis, mas todos precisavam de ajuda, nem que fosse apenas para confessar a sua culpa e a sua incapacidade.
Para eles e para si arranjava cobertores, preparava comida, uma casa onde se abrigassem. Foram eles a saliência da ravina a que se agarrou,  a saliência que o ajudou a erguer-se lentamente, embora continuasse escravo da bebida e diariamente repetisse os mesmos gestos de submissão e entrega.
No café tinha conhecido uma mulher que lhe falava com boas palavras, que o queria ajudar, que gostava dele. Às vezes estranhava a suavidade do chão em que tinha adormecido e descobria que fora ela quem o trouxera para casa. Não queria dizê-lo em palavras, até porque achava que estava a trair a mulher e o filho, mas sabia-lhe bem aquele aconchego e lembrava-lhe os mimos da mãe.
Um dia, a assistente social levou-o para conhecer um grupo de homens e mulheres que, como ele, tinham perdido o rumo, e que se reuniam para falar. Contavam-se uns aos outros. Tratavam-no por senhor Manuel.
Ora acontece que, quando alguém está muito tempo imóvel pode perder a capacidade de andar e para reaprender a marcha precisa de ser amparado e vigiado como as crianças. O senhor Manuel precisava de reaprender, e nesse movimento para cima, lembrava-se do filho, que tinha agora 14 anos. Queria voltar a andar depressa porque já estivera muito tempo ausente da vida dele. E um rapaz precisa dos conselhos de um pai, e quem melhor do que ele que experimentara a escuridão da vida para o alertar  para os perigos.
No dia, em que arranjou de novo emprego - era coveiro - assentou os pés na terra com firmeza, e sentado no café pegou no último copo de cerveja.  Olhou para a rua. A mãe do seu filho ia a passar. Jurou a si mesmo que jamais voltaria a beber. Isso era o mínimo que podia fazer por ela.
Regressou a casa da nova companheira, deu-lhe um beijo e sentou-se. Agora, ele sabia que tinha força, que a vida estava nas suas mãos e jamais se dobraria aos caprichos do álcool. Sabia também que podia falar com o filhos olhos nos olhos e dizer-lhe:
- O teu pai é um homem limpo, honesto. Podes ter orgulho em mim, que escapei do inferno e regressei à luz.
Todas as manhãs ia para o cemitério. Cada pazada de terra na cova negra era uma pá de cal na parede branca. Coveiro ou estucador, cumpria a sua missão terrena. Os ofícios servem as necessidades dos homens, neste processo de construção a que se chama vida.
Quando alguém te ajuda a descobrir que nas tuas costas podem nascer ASAS, o cansaço ou desconforto da viagem é compensado pelo calor da mão do outro na tua mão, pelo olhar largo e suave sobre o horizonte das montanhas e do infinito mar, e pelo azul que nasce nos teus olhos como um grito de alegria, pois as algas e as  águas poluídas que empestam as lagoas podem ser destruídas e a relação amorosa entre a água e o céu pode voltar a existir.

Lisboa, 31 de Julho de 2015-07-31
Maria Alzira Cabral



  

UM   PASSEIO
Entre folhas, cheiro da terra, e a suavidade de um fim de tarde de Outono.



 






segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O TREVO DE QUATRO FOLHAS

Este trevo de quatro folhas já existia em casa dos meus pais quando eu era pequena. O vaso que tenho hoje é muito grande e tomba quase com o peso das folhas. O que eu aprendi, e que ainda não li em lado nenhum, é que esta planta não é nada parecida (a não ser na forma das folhas) com o vulgar trevo dos campos.
São pequenos bolbos que se podem retirar da terra e limpar na altura da Primavera. Cada bolbo tem a capacidade de se unir a outro e forma uma espécie de rizoma dando origem a sete, oito ou mais folhas. Nascem por volta de Maio e morrem em Novembro ou Dezembro dependendo dos anos. Os bolbos ficam em dormência e eu aqueço-os com uma camada das folhas velhas e secas como se fossem um cobertor. Depois, nos finais de Março, começo a regar e aguardo pacientemente que apareça a primeira minúscula, minúscula, minúscula folha. Esta minúscula folha ergue-se num pé muito alto e começa a crescer até ficar quase do tamanho da palma da mão. Depois vão aparecendo as outras. Dezenas, centenas de folhas. À medida que aumenta o número diminui o tamanho. Mas são sempre grandes. Dá sorte? Acho que sim.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

MEMÓRIA DE POMPEIA

 24 de Agosto
Desenterrados da cinza, ecoam os passos, rangem as rodas dos carros que transportam mercadorias, dos que transportam pessoas, os sons gritados, falados, cantados, murmurados dos que se encostam nas portas das lojas, dos que passeiam ou trabalham. Toda a vila rumoreja e nos pede que recordemos o esplendor da sua vida perfumada, ensolarada, e colorida pelo azul do Mediterrâneo. O mel das abelhas, os cachos de uvas, as oliveiras carregadas de frutos, o chilrear dos pássaros nos pomares fecundos de um paraíso desaparecido.

 











sábado, 16 de julho de 2016

UM BANHO TURCO

Em 2015 visitei Istambul. No regresso todos me perguntavam: "Então gostaste da mesquita azul, do palácio Topkapı, da igreja de Santa Sofia, da cisterna da Basílica, etc.? E eu ia dizendo: "Gostei muito." Mas, realmente houve duas coisas que me impressionaram profundamente talvez porque os viajantes nunca me tenham falado delas.

Uma foi o Museu de Arqueologia de Istambul (parece que há vários). O que eu visitei fica muito próximo da igreja de Santa Sofia. Impressionou-me porque me deu uma visão diferente da História. O circuito: civilização egípcia, civilização minoica, civilização cretense, civilização grega, está de tal forma gravado em nós, que as grandes civilizações do Médio Oriente ficam esbatidas. Neste Museu encarei o aspeto grandioso e avançado da civilização assíria, dos aqueus, e doutros povos do Médio Oriente cujo nome esqueci, a prodigiosa escrita cuneiforme, com as suas tabuinhas de argila, repositório das sagradas histórias da Humanidade. Histórias que a Bíblia repete. A majestade, o refinamento, a elaboração destas civilizações que se desenvolveram no Médio Oriente é prodigiosa e, apesar das guerras que ao longo dos séculos dilaceraram e destruiram sistematicamente a grandeza das suas ruínas, ainda conseguiram chegar até nós vestígios de um passado maravilhoso que se bate em grandiosidade com a civilização egípcia. 


Outra coisa que me impressionou foram as pessoas, milhares e milhares e milhões, por toda a cidade. Nem sítio havia onde pôr o pé. Na parte antiga, na parte nova, na zona turística, na zona não-turística. As pessoas nasciam do chão, as casas irrompiam por todo o lado, encavalitavam-se nas colinas, modernas, antigas, novas, velhas, ricas e pobres. A abundância de gente, a abundância de crianças e de jovens que as escolas traziam aos milhares diariamente para visitarem os monumentos. Um verdadeiro formigueiro humano. E eu senti FORÇA, MUITA FORÇA. Só queria que ela fosse um força benfazeja, mas tenho dúvidas.

sábado, 28 de maio de 2016

O POVO DE LORIGA



Homenagem a Jeremias Alves Nunes de Pina, nascido em 1877, filho de João Alves Luís e de Francisca Nunes de Pina.  Tal como muitos outros loriguenses emigrou para o Brasil tendo vindo a fixar residência em Manaus, onde publicou, em 1906, o periódico Echos de Loriga, em 1909, o periódico A Voz de Loriga e, em 1910, O Povo de Loriga. Colaborou ainda com o periódico Echo Luzitano. Através destas publicações noticiosas mobilizou muitos emigrantes a colaborarem na melhoria das condições de vida da sua terra, lutou pela liberdade de expressão e pela importância do conhecimento na formação dos jovens, tendo sido um dos fundadores o Prémio Escolar Loriguense que concedia anualmente prémios aos melhores alunos e livros aos mais pobres. Isto em 1906, numa aldeia recôndita e esquecida do interior de Portugal.
 
Na varanda escancarada sobre a noite, sozinho com os seus pensamentos e com o cigarro.  Está sempre calor, um calor abafado e húmido. O corpo escorre suor. Sente-se sujo como se não houvesse banho capaz de o refrescar.
No imenso céu brilham estrelas diferentes das que os seus olhos de criança tinham aprendido a amar. Este céu é maior, mais leve, mais claro, mas o ar que se respira é pesado e morno. Não tem a frescura do ar da sua terra. A estrela polar ficou lá para o norte e, agora, é o Cruzeiro do Sul que lhe serve de guia. Quando era pequeno a mãe Francisca apontava-lhe uma estrela no céu e murmurava baixinho:  “Aquela é a tua estrela”. Era o ponto mais luminoso do céu e só muitos anos mais tarde descobriu que afinal não era uma estrela. Era um planeta. Mas guardava-a no seu coração como se fosse uma joia e para ele aquela era a estrela polar, a que guiara os navegantes no mar oceano que ele tinha atravessado. Naquelas paragens onde agora vivia, a estrela polar fora substituída por uma pequena constelação, o Cruzeiro do Sul ou Crux, a Cruz, onde brilhavam as duas estrelas Gacrux e Acrux que indicavam o Polo Sul celeste  e, para ele, aquela constelação era um sinal divino.  Quando os seus olhos, como os de tantos outros “expatriados das serras”, olhavam o céu procurando o auxílio divino viam a cruz e sabiam que era através dela que  venceriam.
 Mas a noite tropical é tentadora e voluptuosa e os pensamentos deslizam. É a noite dos sentidos, cheirosa, quente, sensual, onde o corpo arde e o desejo alastra. O fumo do cigarro enrola-se langoroso, desfaz-se em múltiplas espirais que lhe lembram as curvas de um corpo feminino, as carícias de uma mulher. E sabe o quanto é fácil consegui-las naquela terra sempre prenhe. Procura afastar esses pensamentos pecaminosos. Talvez os homens que trabalham na rudeza de amassar o barro lá para as margens do rio Negro, talvez esses consigam resistir à tentação, porque os seus corpos macerados pelo esforço exigem descanso. Como é fácil pecar naquela terra, pensa ele, ouvindo longínquo o eco das vozes das mulheres que, na sua aldeia distante, rezam o rosário no mês de Maio, e uma vez mais as predicações do seu pai, João Alves Luís,  que o incita a uma vida honesta, a construir uma família como ele fizera quando trocara o ofício de sacerdote pelo de criador de um lar. Jeremias sorri e pensa que o pai sentiu tal como ele sente, a tentação mas seguiu o caminho da honestidade.
Naquela terra do hemisfério sul onde agora vive, tudo se expande, tudo é maior, mais forte, mais intenso. Uma mistura de cheiros exóticos e prazerosos inunda a varanda. Aspira esses aromas e sente saudades do cheiro dos pinheiros molhados depois das primeiras chuvas, das giestas, do tojo, dos cheiros vivos e jovens da sua aldeia do outro lado do mundo onde tinha nascido e toda a sua família vivido desde os tempos de Viriato,
As pequenas, delicadas e discretas flores da urze, minúsculas campânulas que enfeitam a serra, a giesta e o tojo amarelos, a carqueja perfumada são plantas humildes mas de uma requintada beleza. Talvez muitos nem as sintam e se deslumbrem com a dimensão e variedade das folhas, das árvores e das flores, que crescem na região do Amazonas. São realmente vistosas, exuberantes e ninguém lhes fica indiferente. Mas nem a flor nem imensa folha da vitória régia tem a alma que ele pressente na modéstia das pequenas plantas da sua terra.  
Na sua aldeia pequenina, abrigada na serra, tudo se encolhe, tudo é interior, tudo se curva à procura de calor, as mulheres enroladas em grossos xales de lã preta, os homens encerrados nos capotes de lã cardada. Apetece a lareira, um teto ainda que de telha vã para abrigo, apetece à noite estar lá dentro e ouvir as histórias de antigamente enquanto as sombras trémulas se projetam nas paredes. Não há eletricidade e na escuridão vivem fantasmas e mouras encantadas, cavalgam lobisomens. É como se houvesse dois mundos, o das pessoas que como formigas se agrupam à volta do adro da igreja, e o mundo invisível dos seres estranhos que povoam as nascentes, os regatos, as sombras e a noite.
Também a água imensa do Amazonas e dos seus afluentes se espraia como se quisesse alagar toda a terra. A natureza perdeu o pudor ali nos trópicos, rebenta em jorros de vida, domina o homem, arrasta, barrenta e grossa,  a terra, os galhos, os troncos, os animais. A água da sua aldeia despenha-se cristalina e rumorejante nas nascentes. Canta fresca nas tardes de verão e contrai-se em gelo quando chega o inverno. Então adormece enquanto toda a vida repousa debaixo de um manto branco e puro até renascer com os raios primaveris.
Mas foi ali, nos trópicos, que as suas ideias floresceram, foi ali que deslumbrado conheceu os clubes literários, frequentou as tertúlias, o teatro, a ópera, foi ali que compreendeu o quanto era importante a instrução que recebera de um pai letrado, foi ali que compreendeu que o conhecimento não é um conjunto de frases bonitas, feitas para frequentar os salões e os círculos sociais mais endinheirados. Ali, ele compreendeu que o conhecimento é a alavanca do progresso e que o povo da sua aldeia que trabalha há tantos séculos, e se abriga naquela aldeia presépio é um povo que merece o progresso, descobrir o mundo, ter à sua disposição o  conhecimento. Se Deus lhe deu a ele o privilégio de ser bem sucedido em Manaus, com a ajuda dos seus irmãos e parentes que tinham desbravado o terreno, cortado as silvas e alisado o caminho, se Deus lhe deu um pai tão sabedor e uma mãe tão cuidadosa e devotada, ele deve retribuir e ajudar os outros a descobrir o mundo, o conhecimento, o progresso.
Entra na sala onde a máquina de escrever está já preparada. Um ruído fá-lo olhar para trás.
- És tu Emídio? Ainda bem que chegaste.
- Então não tínhamos combinado que era hoje o dia de começar de novo? Vamos lá mostrar aos que nos querem calar, aos que lutam contra o progresso, às mentes obscuras da nossa terra que nós não somos de desistir.
- Tens razão. Hoje vai nascer mais um jornal que há-de chegar à nossa terra tal como os outros chegaram. É pena que o José se tenha casado naquela família de jesuítas. Tenho pena porque ele é bom homem e bem me ajudou quando aqui cheguei.
- Somos irmãos, mas pensamos de forma diferente. O António também acha que estamos a perder tempo e a arranjar sarilhos.
- Às tantas até tem razão, mas cá estaremos para lhes fazer frente. Se o João não tivesse morrido, estava aqui connosco. Vir morrer aqui tão longe. Todos os dias penso nele.
- Eu também – murmurou Emídio com as lágrimas a assomarem nos olhos.  Em nome dele, em nome dos que sofreram e sofrem para ter uma vida melhor, temos de fazer este jornal.
- E faremos. No dia 5 de Junho, exatamente um ano depois de termos publicado o primeiro número de A Voz de Loriga, teremos um novo jornal. Depois dos Echos de Loriga, depois de A Voz de Loriga, não queremos mais sons. Queremos pessoas. Que tal chamar-lhe O Povo de Loriga?

Maria Alzira Cabral, sobrinha–neta de Jeremias de Pina

segunda-feira, 18 de abril de 2016

 QUANDO FOR GRANDE

Quando for grande quero ser um quantificador existencial. Sim, existencial, porque o universal serve toda a gente e o existencial só para alguma. Quando for grande vou penetrar no âmago existencial deste quantificador, vou chupar-lhe o tutano e aspirar-lhe a essência. Depois vou à procura do f. da p. do linguista que criou esta nova nomenclatura gramatical e, quando o encontrar, prego-lhe dois bofetões relacionais e quatro pontapés nas nádegas, de forma a que fiquem marcadas com vários circunflexos e muitos acentos agudos. Finalmente, prendo-o no alto da torre de Belém onde terá de cantar o hino nacional ao nascer e ao pôr do sol. E só poderá ser libertado por uma parassíntese ou por um composto por morfologia puro. Caso eles não apareçam permito que um composto por morfossintaxe o leve a passear uma vez por semana e um complemento oblíquo lhe faça um bolo 3 vezes ao ano. E antes que apareça outro linguista iluminado que ache que as crianças não escrevem a Língua Portuguesa com correção porque não sabem linguística, recitemos em coro o Exorcismo de Carlos Drummond de Andrade.

Exorcismo
por Carlos Drummond de Andrade

Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.
Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.
Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.
Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.
Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.
Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.
Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.
Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.
Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronomial obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista.
Libera nos, Domine.
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

terça-feira, 1 de março de 2016

 VOSSA EXCELÊNCIA

Vossa Excelência, minha cara senhora ou meu caro senhor, anda indignado com as questões do novo Acordo Ortográfico, vulgo AO e, agora, com o facto do governo se preparar para aumentar o número de horas que as crianças passam na escola e com outras coisas que o deixam perplexo.
Sobre a questão do AO já publiquei e republiquei textos da autoria de outros que têm a minha opinião e alguns da minha modesta autoria. Sobre a questão do tal aumento de horas (não são horas letivas, entenda-se) também já dei a minha opinião. 

Agora, queria perguntar-lhe o que é que Vossa Excelência, que certamente também já teve um ataque de histeria quando, aqui há alguns anos atrás, se tocou o hino nacional e se ergueram as vozes patrióticas contra o facto de, supostamente, insisto, supostamente, os alunos não estudarem os Lusíadas de fio a pavio (como Vossa Excelência nunca estudou) e se ficarem por uns excertos da dita obra, o que é que Vossa Excelência sabe sobre os advérbios de frase, os advérbios de predicado, os advérbios conectivos, os adjetivos qualificativos, os adjetivos numerais, os adjetivos relacionais, os hipónimos e os hiperónimos, a anáfora, os deíticos, etc., tudo coisas que uma criança de 12 anos deve aprender para amar a sua língua, para a saber usar e compreender o que lê.

Estou certa que sabe tudo e que está de acordo com a necessidade de toda uma vasta e erudita nomenclatura, de que lhe dei apenas um modestíssima amostra, para que se ame, se venere, se compreenda, se leia e se escreva com competência, com prazer e paixão a Língua Materna.
Por isso, não o preocupa o facto dos seus queridos filhos, parentes, enteados ou amigos, passarem tanto tempo a empinar toda esta vasta nomenclatura, que Vossa Excelência já não domina porque provavelmente se esqueceu. Não o preocupa que essas amadas criancinhas não tenham muito tempo para escrever um texto com pés e cabeça e que não o façam regularmente. Também o não preocupa que lhes escasseie o tempo para ler, que lhes escasseie o tempo para praticar desporto, tocar piano, dançar, enfim para praticar qualquer outra coisa que não pertença ao anafado currículo da Língua Materna ou da Matemática.

Compreendo. Não o preocupa porque esse é o caminho do saber. Atirem-lhes à cabeça com muita nomenclatura, muitos conteúdos, mas não lhe tirem o C da redacção (apesar deles não as fazerem), nem os P dos baptismos, porque o Baptista ficaria muito aborrecido.
CONFUNDINDO MEDIDAS SOCIAIS COM MEDIDAS PEDAGÓGICAS

Claro que o que Carlos Neto defende é justo e a conclusão natural a que chegaram os países mais ricos. Para que isso aconteça, entre nós, precisamos de viver num país onde os salários permitam aos pais esse tempo de fruição, onde os empregados não sejam, na sua grande maioria, escravos. 
 
A medida do nosso atual governo no sentido de permitir aos alunos mais tempo na escola tem um carácter pragmático e não se pode fazer dela uma leitura de grande ou pequeno alcance pedagógico. 
 
As escolas devem poder acolher as crianças e os adolescentes cujos pais têm horários abusivos, ou diferentes do padrão habitual, as crianças ou adolescentes de famílias monoparentais cuja mãe, pai ou avós não conseguem trazê-los cedo para casa, etc. Por outro lado, esta medida irá diminuir a taxa de desemprego entre profissionais da educação. Para lá disso discutir se os alunos devem ou não estar mais tempo na escola é abusivo e bacoco. Deve discutir-se sim a escola, e o que entendemos por escola. E deve também lutar-se, como este governo está a tentar, por um país mais justo em que a dignidade do trabalho seja reposta. E isto não é tarefa nem fácil nem instantânea.

A BACTÉRIA OU A BATERIA

Hoje encontrei uma vizinha no supermercado. Senhora idosa, dinâmica e muito católica. Dedica o seu tempo a fazer saquinhos para obras de caridade, embora já tivesse tido um desaguisado com o pároco por causa dos ditos saquinhos. Em suma, é uma pessoa conservadora que em termos ideológicos não se mexeu meio milímetro desde que começou a ter opiniões sobre o mundo. Poucas mas inabaláveis.

Pediu-me boleia e logo a começar a conversa veio a talhe de foice ela dizer-me esta frase lapidar: "Vamos lá, que, agora, por causa do acordo ortográfico a bactéria já se transformou em bateria". E eu (expressão facial) "!!!!!!!"

Logo ali a senhora recebeu uma lição sobre o tal acordo e, após várias explicações, compreendeu, assim o penso, que entre uma bactéria e uma bateria não há nada em comum, salvo se a referida bateria estiver infetada com os minúsculos bichinhos. 

"Ah! e a gramática também mudou. Já nem sei como falar". "Pois exatamente como falava até aqui, porque o acordo não mudou a maneira de falar e tocou ao de leve na maneira de escrever. Quanto à nova nomenclatura gramatical ela nada tem a ver com o acordo."

Mas, fazendo uma longa conversa curta, expliquem-me a mim que sanha é esta contra o acordo. Esta vizinha debitava uma série de aldrabices que lhe tinham metido na cabeça. Expliquem-me, porque devo ser eu a única que não percebe.

Moral da história: "A senhora continue a escrever como sempre escreveu porque isso não impede ninguém de a entender. O que eu não entendo são as calinadas constantes que aparecem escritas na televisão. Isso não compreendo. E nada têm a ver com o acordo ortográfico. Santa ignorância."