sexta-feira, 15 de novembro de 2019

HÁ QUATRO ANOS COMO HOJE - A GLOBALIZAÇÃO E AS DUAS METADES DO MUNDO


A globalização encurtou as distâncias, esbateu costumes e tradições milenares, tornou-nos a todos um pouco semelhantes, etc., etc. Antes de pôr o ponto final que o etc. me exigia, hesitei. É que eu queria pôr um ponto de interrogação. Porquê? Os atentados de Paris fizeram estremecer o coração do mundo? Sim. Pelo menos de uma das metades do mundo: o mundo ocidental, o civilizado. Mas no mesmo dia, em Beirute, aconteceram atentados bombistas. Tomei conhecimento deles através da imprensa da outra metade do mundo: o mundo oriental (civilizado só em certos sítios).
"Two suicide bombings in a predominantly Shia residential area of southern Beirut have killed at least 41 people and injured 200 others, according to the Lebanese health ministry.
The explosions took place on Thursday in the Burj el-Barajneh area, located off a main highway leading to Beirut's airport."
Li depois outros artigos publicados em jornais do outro lado do mundo que se queixavam de que os mortos em ataques bombistas no Médio Oriente eram catalogados como itens de uma lista estatística, enquanto os mortos de Paris eram chorados, pela imprensa mundial. Como se uns tivessem alma e os outros fossem números.
Depois pensei que realmente a globalização apagou muita coisa boa, e talvez algumas más, mas não apagou as diferenças entre as duas metades do mundo (se imaginarmos um corte no sentido vertical) como nunca apagou as diferenças entre as outras duas metades a meridional e a setentrional (se imaginarmos um corte no sentido horizontal). Ou se quisermos resumir isto de uma forma muito simples: entre os países endinheirados e os modestos ou famintos. Quantas velas teríamos de colocar no chão pelas mortes, violações e torturas dos povos desse continente sacrificado que é a África? A raiva que cresce neste mundo globalizado vai um dia levar-nos a descobrir, de uma forma desagradável, que afinal todos somos um só. Todos somos a Terra.
Quer isto dizer que eu acho que os mortos de Paris não deviam ser chorados? De modo algum. Eles e todos aqueles a quem o terror sem rosto mutila ou mata deviam ser mais do que lamentados. Deviam ser motivo para gritarmos de indignação e lutarmos para que estes acontecimentos tenebrosos não tivessem lugar nunca mais no planeta azul que é a Terra.
Allô, extraterrestres, pede-se auxílio.
Foto: A vigil is held at the site of the two explosions that occurred in the southern suburbs of the Lebanese capital, Beirut [Reuters]

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sábado, 26 de outubro de 2019

CONVERSA FRANCISCANA 2

Conversa franciscana
À sexta o Francisco vem tomar chá vermelho (Roiboos) e comer uma torrada. Depois as atividades são variáveis.
Começamos pelas histórias.
- Não, esta não. É uma história aos quadradinhos - digo eu.
- O que é uma história aos cagatinhos?
Lá explico e ele fica satisfeito com a explicação.
Depois seguem-se as marcas.
- Quero ver marcas de ar condicionado.
Sim, porque o Francisco tem uma verdadeira mania por marcas e agora chegou a vez do ar condicionado. Lá vou eu contrafeita.
Ei-lo que dispara para o quarto.
- Eu vou atrás de ti - digo eu.
- E eu vou à frente - conclui ele.
Depois começa a sessão: ver vídeos sobre instalação de ar condicionado.
- O que é lacre?
- O que é rebarbas?
- O que é tubulação?
- O que é conexões elétricas?
- Ó Francisco, a avó também não sabe.
- O que é elétrico?
- Tem a ver com a eletricidade.
- O que é eletricidade?
- É energia. O que dá luz e calor.
- E frio - acrescenta o Francisco
O vídeo chega ao fim.
- Olhó LG! - grita o Francisco.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

SÃO LÁGRIMAS, SENHORES, SÃO LÁGRIMAS!

(Texto publicado em22 de Outubro de 2017, aquando dos célebres incêndios)
As lágrimas estão altamente quotadas no mercado nacional. Servem a emoção fácil, o sentimentozinho superficial e puxa-se delas a torto e a direito. Que ninguém se atreva a falar dos incêndios sem verter uma quantidade capaz de apagar uma fagulha.
Somos um país de lágrimas, poetas e fado. Somos um país de sentimento. Tudo muito triste, tudo muito melancólico e soturno. Mas isto limpa-nos a alma e uma vez choradas as lágrimas estamos quites com a nossa consciência.
O marquês de Pombal não era português. O homem não chorou quando houve o terramoto. Eu sei que não havia televisão para captar esse momento emocionante, mas os historiadores jamais o esqueceriam. ELE CHOROU! diriam. E se o tivesse feito, todos os outros pecados lhe seriam perdoados. Não chorou? Está feito. Queremos lá saber da reconstrução, queremos é légrimas, muitas, grandes, gordas, pesadas. Não interessa o que traduzem. São lágrimas, senhores, são lágrimas!

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O FEÍSSIMO E RiDÍCULO EUCALIPTO

O FEÍSSIMO E RiDÍCULO EUCALIPTO (Texto escrito em Outubro de 2017)
No séc, XIX já se plantavam eucaliptos, em Portugal. Originária da Austrália, esta árvore, ao contrário do que afirma Zé Fernandes em "A Cidade e as Serras" pode ser de uma extraordinária beleza, passados muitos anos, quando envelhece e o seu tronco ganha uma largura considerável. De combustão muito fácil, atualmente é usada sobretudo para produzir pasta de celulose, usada no fabrico de papel, carvão vegetal e madeira.
O objetivo do plantação do eucalipto é hoje em dia puramente comercial. Pode, na minha opinião, ser plantado em locais muito vigiados pelos plantadores, como é óbvio, e por toda a comunidade. Creio que existem exemplos desses no norte do país.
A floresta deve ser constituída por uma grande diversidade de plantas. Mas não sou especialista no assunto e creio que teremos oportunidade de ouvir os especialistas sobre a matéria.
Uma coisa é certa nada impedirá que tudo arda em períodos de extrema secura e ventos fortes, se houver alguém que pegue fogo por acidente ou de propósito.
Vejam o que aconteceu nas zonas de Sonoma County e Napa County na Califórnia, este ano. Morreram 40 pessoas para já, porque ainda estão algumas desaparecidas, uma cidade destruída (Santa Rosa) e 100.000 pessoas evacuadas, mais de 5000 casas e empresas (a maioria hotéis, spas e restaurantes) arderam. Trata-se de uma zona altamente turística cheia de vinhedos. A árvore predominante é o carvalho.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A ETERNA LUTA DE SPARTACUS

Uma batalha perdida para a eternidade, a batalha dos oprimidos, dos usados, dos vendidos. A batalha daqueles que nasceram escravos e cujos filhos serão irremediavelmente escravos.
Esta luta contra a tirania pode ser virada e revirada, como o grão de milho que a galinha debica antes de engolir. Os filósofos irão concluir que afinal todos somos escravos ou, pelo contrário, nenhum de nós é escravo de outrem, mas apenas escravo de si próprio. Pelo meio haverá ainda as conclusões "intermédias", não só, mas talvez, as religiosas baseadas na resignação e ainda o chavão do costume : "A vida é asssim", que pode ou não estar relacionado com as anteriores.
Confesso que essas reflexões filosóficas são como aquele fardo de palha que nos barra o caminho. Na verdade há escravos que nascem escravos e que serão escravos para lá de todas as discussões filosóficas. E esses homens, mulheres e crianças espalhados por toda a Terra são também o lixo humano em que se embrulham as alterações climáticas.
Enquanto o Homem não "domesticar" as grandes corporações selvagens que trituram as mãos humanas e os recursos do planeta, Spartacus viverá a sua perpétua derrota.
E porque a ganância também existe nos escravizados este é um jogo muito difícil de vencer, tão semelhante à luta da vida contra a morte. A morte deixa sempre a sua raiz na alma e no corpo dos homens.
A minha esperança é a de que o número de lutadores pela causa do Homem (e não pela sua própria) vá aumentando. Dir-me-ão que essa foi também a esperança de Spartacus. E terei de concordar.

domingo, 15 de setembro de 2019

DEEP FAKE

Mais um post sobre o "deep fake". Este é sobre outra forma de "fake" que consiste na promoção de uns patetas provincianos mas de boas famílias a grandes homens, símbolos e modelos.
À direita isso não me perturba, à esquerda perturba muito. Têm sempre o seu toque de aristrocacia e benevolência. Dizem meia dúzia (ou menos) frases, tipo lugares-comuns, e vão-nas repetindo até à exaustão. Dizendo melhor, nem precisam de as repetir. Há quem as repita por eles, em posts ou em citações do "Pensador" ou do "Citador".
Acreditem ou não, há muitos que me perturbam.

Nós, os bons!





Em 15 de Setembro de 2017 escrevi:
Sugestões de titulos para o movimento "cívico" que V. vai criar para se candidatar às próximas eleições autárquicas da CML
Nós, os lisboetas
Nós, alfacinhas
Nós, os moradores nas freguesias de Lisboa
Nós, contra a corrupção
Nós, contra os partidos políticos
A minha política é o trabalho
Nós, a verdade
Os lisboetas somos nós
Os alfacinhas somos nós
Os moradores nas freguesias de Lisboa somos nós
A verdade somos nós
Contra a corrupção, somos nós
Contra os partidos políticos, somos nós
O trabalho é a minha política
Os lisboetas contra os partidos políticos
Os lisboetas contra a corrupção
Os lisboetas contra o trabalho
O trabalho somos nós
Nós somos o trabalho
Nós, os bons
Os bons somos nós.
A partir destas sugestões poderá tecer muitas outras, e ir angariando as assinaturas. Vale a pena, pois irá aparecer uma ou duas vezes na TV, como era o sonho da sua mãe e o seu também. Além disso, poderá expor as suas teorias sobre aquilo que entender e da forma que mais lhe agradar. A somar a todas estas benesses poderá libertar os seus ódios, rancores e humilhações, numa catarse pública.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A SENHORA VIZINHA

Em 13 de Setembro de 2017


A minha mãe dizia muitas vezes, "Não te portes como uma senhora vizinha." E o que era a senhora vizinha? Alguém que se metia na vida dos outros, que comentava o que via e imaginava o que não via, alguém que lançava o boato. A vizinha era uma pessoa simpática e normal, mas uma "senhora vizinha" era alguém pouco recomendável, a fonte da maledicência, que arruinava tantas vezes a reputação das donzelas — o que numa cidade provinciana e naquela época tinha muita importância — e o bom nome dos outros criando uma suspeita que ficava a pairar sobre a cabeça dos pobres visados pela "senhora vizinha".
A comunicação social portuguesa — quase toda, para não dizer toda — é uma "senhora vizinha" ao serviço da direita.
Dizia ela (comunicação social) de políticos de esquerda, "É maricas." Não resultava. "Tem muitas mulheres e gasta todo o dinheiro com elas". Também não resultava. Então descobriu. Vamos dizer que fizeram negócios sujos que são corruptos, que traficaram influências. E aí descobriram a pólvora. Porque demora tempo a provar o contrário. Porque talvez consigamos que nem se prove. E agora aí estão eles de novo a atacar com o mesmo tipo de arma.
Repararam que dos políticos de direita jamais alguém se atreveria a perguntar, "como comprou a sua casa?". Mas os de esquerda têm de se despir na praça pública e mesmo assim haverá sempre os sabujos que dizem que aquilo que eles apresentam é forjado.
Quando teremos coragem de inverter estas infâmias e silenciar estas "senhoras vizinhas". Elas já testaram a maledicência e todos se calaram. Agora, é repetir a receita. Que alguém se indigne, PORRA!

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

EM 2017 - COR-DE-ROSA e AZUL


1. Conheço uma senhora que vê anjos nas nuvens, cruzes no céu, e por aí fora. Nunca a contrario. Estas são situações sem remédio.
Toda a gente entende o que é lutar pela igualdade de género e os resultados positivos dessa luta. Os que fingem não perceber isso ou não percebem mesmo são como a senhora que vê cruzes no céu e anjos nas nuvens.
Nem no tempo do estado novo se faziam livros escolares ou para-escolares diferenciados. O Livro da Primeira Classe, ilustrada por Raquel Roque Gameiro de uma forma magnífica, tinha nas guias das capas meninas fazendo trabalhos domésticos, nas guias da contracapa, rapazes pescando, pintando, etc. O livro era o mesmo para rapazes e raparigas, embora a dicotomia das profissões e funções na vida dos rapazes e das raparigas estivesse expresso em todo o livro.
Fazer livros cor de rosa e azuis para efeitos para-escolares, com atividades simplistas para raparigas e mais complexas para rapazes é medieval, mas ACIMA DE TUDO é um golpe publicitário e uma forma de ganhar dinheiro à custa da ignorância atávica de um povo saudosista, embiocado, paralisado nas ideias, plantado num canto da Europa.
Neste jardim medievo despontam contudo grandes homens e mulheres inovadores e criativos. A esses peço desculpa por este comentário.

VOLTAR AO MESMO ASSUNTO
2. Imaginem só que não vi, porque não estava em Lisboa e ainda que estivesse não teria visto, o Governo Sombra, onde o papa Ricardo A. P. se pronunciou sobre os tais livros, fazendo chacota daqueles que se insurgiram contra eles e afirmando que a Ana Valente a a Rita Duque tinham sofrido um processo de linchamento na internet.
Nã...... nã...... Ricardinho, NÃO SOFRERAM.
Estas senhoras trabalham para uma editora que lhes encomenda uma tarefa, e a editora diz sempre a sua opinião. "É isto que queremos. Não, não é isto que queremos".
Os produtores de um livro de ensino, ilustradores e escritores, só publicam o que a editora aprova e não aquilo que querem.
MAIS, muitas vezes têm de alterar aquilo que desenharam ou escreveram para agradar à editora na pessoa dos seus diferentes coordenadores editoriais.
Estas senhoras só poderão ser linchadas porque o RAP afirmou tal coisa para os seus ouvintes — ignorantes e não ignorantes. Quem estava em causa era a editora e não a Ana e a Rita que produziram o trabalho que lhes foi pedido.
Em nome do que sofrem as ilustradoras e os escritores para agradar tantas vezes a pessoas míopes eu venho aqui realçar que elas não têm qualquer responsabilidade no assunto, mesmo que o RAP quisesse fazer o favor de limpar a Porto Editora.
Os livros eram do ano passado? Excelente. Estamos a ficar mais críticos e não comemos toda a M que nos impingem.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

OBRIGADA

Na mágica noite do último dia de Julho, a tua alma elevou-se na pureza infinita do céu para procurares uma nova morada terrestre. Escolheste uma jovem que ia em busca do amor para nela habitares.
Os que te choram não sabem que permaneces no beijo apaixonado desse casal e na felicidade que irradia do seu abraço.
Obrigada.


sábado, 27 de julho de 2019

NA MINHA BOCA



O Francisco não se cala um minuto. Sentado atrás de mim no carro vai palrando. Às vezes nem compreendo os longos discursos que ele faz. Mas tudo o deslumbra como se o mundo fosse um baú maravilhoso recheado de coisas fantásticas.
Hoje fica encantado ao descobrir que há água para limpar os vidros do carro.
- O teu carro tem água?
- Muita água, Francisco, para lavar os vidros que estão muito sujos.
- Leva à lavagem.
- Claro que sim. Já foste à lavagem com o papá?
Segue-se uma longa e complexa explicação sobre o local onde o papá leva o carro à lavagem que termina com a pergunta:
- E tu?
- A minha lavagem é perto da escola do Francisco.
- Gostas da lavagem verde? - pergunta ele.
Primeiro digo que não, mas como ele insiste na pergunta digo que sim.
- E da encarnada? E da amarela? E da azul? E da preta?
Fico baralhada, mas penso que ele viu lavagens de diferentes cores no YouTube.
- Onde é que o Francisco viu essas lavagens? No YouTube?
- Não.
- Então?
- Na minha boca.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

UMA PEDRADA NO CHARCO - A ORQUESTRA GERAÇÃO

Quando me falarem de Educação falem-me disto. Quando me falarem de inclusão falem-me disto.
Falem-me disto, falem-me de projetos concretos que dão fruto. Não me falem de avaliações trimestrais ou semestrais, de salas de aula em que os alunos são ou não são autónomos na aprendizagem, de métodos inovadores ou de pedagogias com um nome.
Quando me falarem de educação falem-me de iniciativas que mobilizam os alunos, que mobilizam a comunidade e que fazem mesmo a diferença. Deixem descansar o PIaget, a Montessori, e todos os pedagogos da Terra. Não os gastem com palavras.
Transformem o discurso em ação. Falem-me da ORQUESTRA GERAÇÃO, da grande orquestra, das pequenas orquestras, de quartetos, de coros, falem-me de grupos de dança e de espaços onde os jovens se sentem realmente valorizados. Não quero espaços bonitinhos, quero espaços em que os jovens se têm de empenhar para conseguir um resultado verdadeiramente vibrante.
As palavras são piedosas, as palavras são bonitas, as palavras são para os adultos se sentirem bem com a sua consciência. Estes projetos exigem horas de trabalho obscuro, de poucas palavras e muito suor.
Quando me falarem de Educação, falem-me da ORQUESTRA GERAÇÃO.

domingo, 7 de julho de 2019

O BAIRRO

PARABÉNS, JUNTA DE FREGUESIA DE BENFICA!
Depois do arraial do santos populares (do outro lado do parque Silva Porto, no largo e jardim que estão na zona do PIngo Doce) ter trazido metade de Lisboa a Benfica, com concertos muito celebrados, chegou a clássica hora da feira medieval.
A feira medieval começou na quinta-feira. O parque de Silva Porto está uma verdadeira animação. Nunca vi tanta gente. E vejo muito bem o que se passa, porque a feira me entra literalmente pelas janelas dentro. O tempo tem ajudado e tudo está correr de uma forma excelente, Já lá fui com o Francisco para ele dar uma voltinha no carrocel. Mas ele não perde pitada e está sempre lá caído, com a mãe, com o pai, com o irmão ou com a irmã.
Chego às janelas da frente e contemplo o despertar da feira, Vou às janelas das traseiras e, por entre as copas das árvores frondosas, vejo os corredores da meia maratona. A rua da Casquilha está cortada ao trânsito, há polícia. No estádio do Fofó (Futebol Benfica) aguarda-se a chegada dos atletas. Ouço os altifalantes e, pelo rabo do olho, consigo avistar o campo, com bandeiras.
De repente, sinto-me ligada às pessoas cá do bairro. Nunca tinha sentido isto.

domingo, 23 de junho de 2019

LINGUAGEM FRANCISCANA


O Francisco vem visitar-me muitas vezes. Entra com ar pesquisador.
- Olá, Francisco. Queres melancia?
. Não.
- E mirtilos?
- Não, obrigado.
- Então? Vamos ver livros com figuras que mexem?
Dispara para o meu quarto. Pego num livro cartonado com imagens 3 D, também chamadas pop-up, porque se abrem. O Francisco fica maravilhado com estes efeitos. Mas os livros estão muito usados. Eram da mãe e do tio e já foram dos irmãos do Francisco e às vezes as imagens já não abrem bem e faltam-lhe pedaços.
Pego no livro e começo a sessão.
- Um gofetão! - exclama o Francisco.
- Um foguetão - corrijo eu.
Mais adiante:
- Olha outro fotegão.
- Foguetão, Francisco.
Ali estamos a ver gofetões e fotegões. Por fim o Francisco pede o autocarro de Londres.Dou-lhe a miniatura vermelhinha que ele adora.
Vamos regar as plantas. Ele é muito bem mandado e gostava de as regar literalmente. Mas agora já vai gritando na minha frente:
- É na terra! É na terra.
Depois desta tarefa quer jogar o dominó.
- Quero chá com torrada - pede.
Vou preparar o lanche enquanto ele se entretém, com as peças.
- Chá vermelho! - grita o Francisco que é um apreciador de rooibos.
Passamos aos perfumes. No quarto que foi da mãe dele existe um coleção infinita de miniaturas e uma caixinha de plástico com as que ele pode admirar. Abre as tampinhas e cheira. Pede-me a opinião sobre os diferentes aromas.
- Cheira muito bem, Francisco.
- Anda, avó. Vamos ver os perfumes na internet.
Ali fico eu a ler os rótulos e a procurar a imagem dos frasquinhos no google. O Francisco delira quando o frasquinho aparece no ecrã. E compara.
E assim vamos caminhando na tarde. Quando a mãe o vem buscar, o pequerrucho pega na caixa de plástico com os perfumes.
- Mamã, é para levar para nosso casa.
E avança com o tesouro agarrado contra o peito.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

As ginastas da Escola Secundária de Benfica

A Escola Secundária José Gomes Ferreira fica em Benfica, perto do Fonte Nova, e muitos já devem ter passado por ela. Não consegui arranjar nenhuma foto atual do edifício que,agora, está rodeado de verdura. Mas aqui vão fotos que encontrei na internet. 

Pois bem, hoje (ossos do ofício de avó) fui assistir ao sarau do final do ano do Clube Sport Lisboa e Benfica. Isso, o tal "glorioso". Participavam outras instituições e lá estava o impecável Ginásio Clube Português, com as suas ginastas de elite, e outros grupos, bem como uma infinidade de classes do SLB. 

Para meu agrado e espanto, a Secundária de Benfica (assim é conhecida a Escola Secundária José Gomes Ferreira) apresentou um grupo misto de ginastas masculinos e ginastas femininas de alto gabarito. O melhor de tudo o que vi. Melhor do que o Ginásio Clube Português? Sim, sim. Melhor. Onde se prova que vale a pena investir na escola pública. 

Não, não é a dar apoio ao ensino privado que vamos lá das pernas. Se queremos ser um país de "quarto mundo", invistam no privado. Se queremos abandonar esse caminho, invistam no público e, por favor, não digam que é um luxo. Sabem as quantias que são gastas no privado? Não sou suspeita porque os meus netos frequentam os três o ensino privado. Porquê? Porque no agrupamento que teriam de frequentar as crianças não têm segurança.

 Para terminar... a foto das ginastas que anexo, não é a do sarau. Não estava a contar e não filmei nem tirei nenhuma foto. MEA CULPA.



Nenhuma descrição de foto disponível.

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terça-feira, 4 de junho de 2019

O FOLCLORE

Depois do ataque terrorista vêm as flores no chão, os heróis que fizeram mirabolâncias, até abriram a porta para abrigar três pessoas, as curiosidades: o transeunte que se salvou porque resolveu ir por outro caminho, o transeunte que tirou a foto do terrorista, com tanta sorte, tanta sorte, que passou mesmo ali ao lado quando o polícia lhe deu o tiro, o transeunte que apanhou com uma bala perdida na cabeça, mas nada de grave, etc., etc.
O terror banalizou-se, a morte idem aspas. Lembra-me aquelas imagens de uma multidão em modo de gritaria, erguendo o corpo de um jovem palestiniano que um soldado israelita ou uma dúzia deles tinha morto. Transformaram-se em folclore. Não tinham significado.
Agora, voltamos ao folclore e às declarações formidáveis: "Não cederemos ao medo. Não permitiremos que ele destrua o modo de vida da sociedade ocidental." Mas na realidade o que se faz é instilar o medo (veja-se o resultado em Itália) e banalizar a morte. E as declarações inflamadas dos defensores do bem-estar mundial, Trump e companhia, não nos ajudam nada a nós. A eles, talvez.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

FADO FUTEBOL E FÁTIMA (escrito há 4 anos)


Um programa de rádio e de televisão que é o espelho perfeito da mediocridade que grassa neste país, e provavelmente noutros. O Governo Sombra replica a famosa trilogia FADO, FUTEBOL e FÁTIMA, herdada do longo período da ditadura portuguesa. Três ícones representados pelos três comentadores que integram o programa e se desdobram num afã de provar que o único caminho que nos resta é aquele que está a ser seguido "quase" magistralmente por este governo, que a austeridade pura e dura é a única via. 

FÁTIMA representada por P.M., fiel da balança e reconhecido intelectual da nossa praça, o que em português corrente equivale a dizer que é um grande leitor e não há livro que lhe escape. Émulo do M.R.S., este comentador esforça-se por dar um ar sério e respeitável (coisa que os Portugueses adoram, vide os cavacos deste mundo) ao programa, e de uma forma encapotada ir abençoando as farpadas e graçolas dos outros dois.

 O FUTEBOL e o FADO são um pouco arbitrários, mas vou atribuir ao J.M.T. o pelouro do futebol, porque sabe dar pontapés sempre na mesma direção à procura da imaginária baliza e de um golo. As intervenções lamentáveis deste dito "jornalista" (pelo menos tem uma licenciatura na área e numa excelente Universidade) envergonham qualquer verdadeiro jornalista. 

O FADO é mais um RAP, mas, como todos sabemos, o fado pode cantar-se de muitos modos e é diariamente assassinado em numerosas tascas. O RAP que, nem se dá ao trabalho de se preparar para o programa, entristece-me porque se esperava dele algo mais do que a tristíssima figura que faz semanalmente. Mas os 10 mil euros, que estes três ilustres comentadores recebem, são dez mil euros, e a "austeridade" é para todos, assim em nome destes chorudos milhares se vai degradando RAP, num programa degradante.


PS. Para escrever este "comentário" sujeitei-me a ver a gravação de vários programa, mas alguns não consegui vê-los até ao fim.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

DOS FALSOS PROFETAS


Sempre houve da parte dos que “chegaram lá cima”, como diria a minha avó, ou como eu digo, dos que a sociedade reconheceu como representantes da cultura – literária, musical plástica – uma certa arrogância em relação aos que procuravam atingir um patamar idêntico. Com os seus pezinhos delicados vão empurrando os que se agarram aos degraus da escada. Se esses trepadores são apaixonados,  persistentes, têm talento e alguém que sustente a sua expressão artística, acontece serem reconhecidos após a sua morte. Van Gogh é o modelo icónico destes artistas. Outros desistem pelo caminho e vão fazer algo de mais rentável. O meu modelo icónico é o de um escultor talentosíssimo e totalmente desconhecido, que deixou a arte para ir plantar kiwis no Alentejo.

Todas estas considerações servem para chegarmos a situações ridículas da sociedade contemporânea (provavelmente tais situações aconteceram noutras épocas) que incensam em gritos de arrebatamento a emergência de um conjunto de parasitas e representantes da mediocridade cultural, com apoio de senhoras dondocas que pintam umas coisas e de políticos falhados ou gente que tem algum dinheiro e certa notoriedade social, mas sobretudo de uma generalizada ignorância.

Esta paracultura pode ser exemplificada através de um indivíduo que conheci num convívio cultural. Apesar de não conseguir escrever uma mensagem sem dar quatro ou cinco erros de ortografia, nem alinhar duas ou três ideias com sentido, intitulava-se, e mais era considerado por um vasto conjunto de “senhoras” e cavalheiros, um poeta e um escritor.

Não vou transcrever aqui os versos sibilinos deste poeta, mas a fórmula mágica que se perpetua ao longo da sua vasta obra. Seleciona um conjunto de palavras, baralha-as em frases curtas e textos herméticos e de uma “grande profundidade poética”.

Palavras como: intemporal, paradigma, vagabundo, existência, solitário crepúsculo, demanda.

Donde saem poemas como este que faço ad hoc para que aqueles que me lêem compreendam as possibilidades infinitas desta fórmula.

POEMA
Na demanda intemporal do absoluto
Vagabundo paradigma de palavras
Um solitário crepúsculo irrompe
Pródigo de ausências e de saudade.

Resulta sempre.

Para um texto um pouco mais longo, podes experimentar a prosa poética. Usar sempre palavras como: o abandono, a ausência, a saudade, a dor, a hesitação, o cansaço, o abraço, o inferno, a combustão, a fantasia, Eros, e todas as que usaste na poesia. O texto deve ter um tom triste.  

Preferes ser pintor para realizar a tua veia artística? Aqui vão alguns conselhos. 

Usa cores puras - vermelho, azul, amarelo -  nada de tons intermédios. Seleciona uma fotografia “inspiradora” do tipo “menino que chora” (Ex: a silhueta de uma mulher com chapéu que olha o mar, os nenúfares do Monet, os céus de Van Gogh, menina de saia rodada, rosto de mulher de cabelos compridos, anelados e sedosos). Carrega bastante nas cores e acrescenta algo que traga uma certa novidade ao tema. Ex: o sol com muitos círculos à volta para mostrar que brilha intensamente, os cabelos da mulher a passarem diante do rosto. 

Tens o sucesso garantido e um conjunto de patetas a chamarem-me a atenção para o requinte da tua obra. Podes crer que é verdade. Já assisti perplexa a uma cena destas, E todos os teus admiradores terão uma licenciatura ou um doutoramento.   

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Francisco dixit

Ontem fui passear com o Francisco à mata. O pequenino não se cala. Fala, fala e nem sempre percebo o que ele diz.
Passamos por uma pavoa. O Francisco gosta muito de pavões e não deve perceber bem o que quero dizer com pavoa. Por isso cala-se discretamente.
Passados uns escassos minutos suspira e diz:
- Mudou de roupa.
E assim explica a minha pavoa.
Hoje telefono para o pai do Francisco. Atende-me o pequenino:
- Estás em casa? - pergunta-me ele
- Estou. E tu?
- Não.
- Estás no carro?
- Não. Estou no YouTube.

domingo, 14 de abril de 2019

SENTIR AS PALAVRAS


Há muitos anos, testei em vários locais um software experimental, que eu tinha imaginado como forma de despertar a sensibilidade dos alunos para a beleza das palavras e que se chamava "Sentir as palavras"..
Hoje quando fazia as limpezas habituais na minha coleção infinita de livros, revistas e documentos, encontrei uma agenda com os poemas que alguns "experimentadores", de cuja idade já não me lembro, fizeram numa sessão na ESE de Setúbal.
O sofware alimentava-se das palavras que os próprios utilizadores iam introduzindo, sendo que como se vê pela amostra em anexo eram ainda muito poucas. Essas palavras obedeciam também a determinados critérios.
Para registo futuro aqui ficam os inspirados poemas destes utilizadores, que demonstram a importância da junção de palavras e o aspeto tantas vezes mecânico da poesia, o que não lhe tira o valor, tal como demonstrou Edgar Alan Poe no seu "Corvo".(The Raven). O Poe que me perdoe a comparação destes pretensos poemas com a sua obra de uma métrica e sonoridade perfeitas.
A agenda vai para o lixo. RIP.


O pálido sol do entardecer
Acendia no verde-escuro das árvores
Tons de mel e de âmbar
Teresa Branco
Entardece
O ouro do favo de mel estremece
Na luz pálida
Ana Paula
Na tarde de verão
Ouro dormia nas searas
O trigo exalava suspiros tépidos
Maria João e Francília
As espigas adornam a tarde
O sol estala sobre a paisagem
Acendida de ouro.
Ana Maria e Cristina
A tarde rápida escorre
No terno abraço do sol
Como brincos de oiro os favos.
Helena Vicente
Dormir no pálido acender do teu olhar
Tão saboroso como o favo de mel
Do nosso despertar.
Aurora
Dorme a lâmpada
De luz doirada de mel
A estrela acende a noite.
Virgílio

terça-feira, 2 de abril de 2019

ORAÇÃO


Senhor, livrai-nos dos puros,
dos que nunca erraram,
dos que sabem fazer justiça,
dos que fazem declarações de princípio imaculadas,
dos que condenam sem hesitar.
Porque eles são muitos
Porque eles são a incarnação da hipocrisia
Porque neles se perpetua alma dos inquisidores.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A árvore dos lilases

A árvore dos lilases não é uma árvore trepadora e o formato das flores é totalmente diferente do das glicínias. Quando eu era pequena tínhamos uma árvore de lilases no quintal. Alguns cachos despontavam na Primavera.
Os lilases não são exuberantes como as glicínias. São uma árvore delicada que se adapta dificilmente aos solos. Talvez por isso só uma vez encontrei esta flor a vender na Romeira, da Av. de Roma, há muitos anos atrás.
Os lisboetas amigos de flores sabem que esta florista foi durante muito tempo o máximo de chique e de preços exorbitantes. Já não é.

A imagem pode conter: planta, flor, ar livre e natureza

A imagem pode conter: planta, flor, relva, ar livre e natureza

domingo, 31 de março de 2019

LIBERA NOS DOMINE

Quando for grande quero ser um quantificador existencial. Sim, existencial, porque o universal serve para toda a gente e o existencial só para alguma. Quando for grande vou penetrar no âmago existencial deste quantificador, vou chupar-lhe o tutano e aspirar-lhe a essência. Depois vou à procura do f. da p. do linguista que criou esta nova nomenclatura gramatical e, quando o encontrar, prego-lhe dois bofetões relacionais e quatro pontapés nas nádegas, de forma a que fiquem marcadas com vários circunflexos e muitos acentos agudos. Finalmente, prendo-o no alto da torre de Belém onde terá de cantar o hino nacional ao nascer e ao pôr do sol. E só poderá ser libertado por uma parassíntese ou por um composto por morfologia puro. Caso eles não apareçam permito que um composto por morfossintaxe o leve a passear uma vez por semana e um complemento oblíquo lhe faça um bolo 3 vezes ao ano. E antes que apareça outro linguista iluminado que ache que as crianças não escrevem a Língua Portuguesa com correção porque não sabem linguística, recitemos em coro o Exorcismo de Carlos Drummond de Andrade.


EXORCISMO
por Carlos Drummond de Andrade
Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.
Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.
Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.
Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.
Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.
Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.
Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.
Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.
Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronominal obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.
Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista.
Libera nos, Domine.
Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

sábado, 30 de março de 2019

JARDIM ZOOLÓGICO - A RELÍQUIA


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As filas de turistas e a de pais e filhos que se acumulam à porta do jardim Zoológico ao fim de semana mostram o dinamismo daquele espaço e SÃO INVENTADAS POR MIM.
Visitar o jardim custa 22 euros por pessoa a partir dos 3 anos de idade. Não há descontos em situação alguma, porque cuidar dos animais custa dinheiro e quanto menos pessoas o visitarem mais calmos estão os bichos e o pessoal que deles cuida e cuida do espaço (o imobilismo é o movimento que mais adeptos tem entre as lusas gentes),
Quando uma família - pai e mãe e dois filhos - o visitam pagam 88 euros (OITENTA E OITO EUROS). Se forem três filhos (como é o caso da família da minha filha) são apenas 110 euros (CENTO E DEZ EUROS),
Toda família gostaria (o Condicional aqui entra muito bem) de poder visitar o jardim de vez em quando. Mas essa visita é um acontecimento que, tal como o cometa Halley, só ocorre de X em X anos.
O jardim Zoológico foi feito para ser visitado por meninos da escola. A família é um conceito que não existe naquele espaço. Por isso, também não há um BILHETE FAMILIAR. Quando o Francisco quer visitar o jardim (porque de automóveis, e todo o tipo de transportes está em vias de apresentar o doutoramento) tem de se selecionar cuidadosamente quem vai com ele para não arruinar o orçamento familiar.. Isto porque o Francisco ainda está longe dos 3 anos. Quando isso acontecer, põe-se o Francisco à porta do jardim e vai sozinho.
Este jardim é um verdadeiro modelo de imobilismo - o local onde se despejam os meninos das escolas quando chega a Primavera. O local do vazio absoluto fora desses momentos. Nas visitas das escolas esgota-se todo a missão social do jardim - UMA AUTÊNTICA RELÍQUIA DO PASSADO.
Nunca a palavra RELÍQUIA foi mais apropriada. Eu creio mesmo que foi inventada a pensar neste local de cultura e de lazer e noutros que cheiram a mofo tal como ele.
ORGULHOSAMENTE VAZIO!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A FELICIDADE OU O DESTINO DA BATATA


You know you work hard, try to provide for the family, and then for one minute everything's good. Everyone's well, everyone's happy. In that one minute, you have peace.

OX CALLAGHAN, negociante de mobília



Escrever sobre estados de alma, como é o caso da felicidade, acarreta uma propensão vertiginosa para o terreno do lugar-comum e da banalidade. Concorrente da felicidade nesta propensão está a lusitana saudade sobre a qual se escreveram já milhares de linhas sem qualquer interesse para quem sente saudade, mas muito interessantes para registar num postal, numa porta, ou num epitáfio.
Se percorreres a Internet, caro leitor, encontras um manancial de citações e de textos sobre a felicidade que teriam sido escritos, de acordo com as pessoas que lá os colocaram, por renomados nomes da literatura, os suspeitos do costume na calda “incultural” ou se quiseres da “cultura fake” dessa rede que a todos nos une.[1]
 Platão, Mário Quintana, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Rousseau, Marco Aurélio, Oscar Wilde, e muitos outros nomes que a memória humana consagrou como “universais”, a par de outros que a minha ignorância desconhecia, como Van Dyke (creio que não é o pintor), Geraldo Eustáquio de Souza. Carmen Sylva (pseudónimo literário de uma rainha consorte romena, que me foi apresentada ad hoc) são alguns dos autores dessas pérolas. Para este efeito, jamais me darei ao trabalho de verificar se realmente o são ou não. Nessa abundância de citações encontramos desde o bacoco ao surpreendente. Transcrevo algumas para que tu, esforçado leitor, avalies o seu mérito, sem te deixares influenciar pelas minhas palavras. 
 A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”, retirada indubitavelmente de um diálogo ou de uma carta de Platão que se perdeu e que o citador encontrou e autenticou. Não se refere esta citação propriamente à felicidade, mas a uma das chaves platónicas da mesma.

“O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” teria escrito Alexandre Herculano, mas Bernanos plagiou a mesma citação, trocando apenas a ordem das palavras: “Saber encontrar a alegria na alegria dos outros é o segredo da felicidade”. Como percebes facilmente, estas citações são todas autênticas e retiradas de fontes legítimas. De qualquer modo, esta merece o título da mais banal, por se repetir e repetir a ideia mais repetitiva deste mundo de citações.

Freud não podia ser ignorado até porque a sua pesquisa teve, em última análise, o objetivo[2] de descobrir as razões da infelicidade humana, a qual resultará das contradições entre os impulsos sexuais e a vida em sociedade, ou, prosaicamente, entre o homem natural e o homem civil, aqui entendidos de forma totalmente oposta à de Rousseau. O famoso neurologista teria escrito: “A felicidade é a realização de um desejo pré-histórico da infância. É por isso que a riqueza contribui em tão pequena medida para ela. O dinheiro não é objeto de um desejo infantil.” Não sei se ele escreveu isto ou não, mas a ideia de que o dinheiro não gera felicidade tem sido glosada ad infinitum por gente endinheirada. Infelizmente o conceito está um pouco distorcido, porque se é verdade que o dinheiro não é fonte de felicidade, a sua falta então é uma quase garantia de infelicidade.
Shakespeare teria escrito esta surpreendente declaração: “É muito melhor viver sem felicidade do que sem amor”, que pode candidatar-se desde já ao prémio da mais bacoca de todas.
Finalmente, vamos a esta de Érico Veríssimo, segundo a Internet, que dará entrada à minha teoria da batata: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.”
Preparava eu uma sopa quando verifiquei que as batatas redondas, de pele lisa e polpa firme, que tinha comprado há uma semana, apresentavam agora uma consistência mole e a pele emurchecida. Ora conheço perfeitamente este fenómeno. É que os músculos rijos do meu corpo, que um dia uma massagista comparou à dureza da pedra, também amoleceram com os anos e, em muitos locais, formam rugas e pregas, de acordo com a dimensão do vinco. Comparei, pois, o meu destino ao das batatas.
Olhando para o cesto vi outras meio apodrecidas que, numa tentativa derradeira e desesperada, lançavam rebentos por todo o lado, pedindo para se transformarem noutras batatinhas. Imediatamente a frase atribuída a Veríssimo me veio à cabeça. Estas batatas tinham ainda esperança de tornarem útil a sua vida. Tal como eu, projetavam os seus anseios no futuro. A verdade é que outros homens, consciente ou inconscientemente, interferem muitas vezes com as minhas projeções, tal como eu interferia naquele momento com o destino daqueles tubérculos quer decidisse semeá-los, quer metê-los na panela.
Senti-me, por breves instantes, a omnipotente deusa das batatas. Passaram diante dos meus olhos as citações sobre felicidade que eu tinha lido na Internet e que constituem um abrégé do pensamento humano sobre o assunto. Se “O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros” o destino destas batatas seria o de irem para a panela, onde encontrariam a sua felicidade na alegria de me servirem de alimento. Destino idêntico ao de muitos homens que nasceram apenas para servirem outros, libertando-os da imposição de ganharem o pão com o suor do seu rosto - uma fila imensa de crianças, homens e mulheres de todos os tempos e lugares, que nasceram e morreram sem conhecer nada mais do que a servidão. Há quem diga e escreva que isto é também uma forma de felicidade, sobretudo quando alguém lhes mete na cabeça as frases da Internet, mas eu duvido e chamo a atenção para o apenas que destaco na minha afirmação. Recusei, portanto, a visão pragmática e cruel de usar as batatas na sopa.
Dei-me, então, a pensar no que teria sido a vida destes tubérculos, antes de eu os conhecer. Viveram no quente ninho do húmus materno, foram apanhados da terra, tratados com desvelo, lavados porque eram de boa qualidade, colocados num saco, enviados para o supermercado. Um percurso monótono, idêntico ao de milhões de outras desconhecidas batatas.
Neste ponto, alguém me falou sobre o stress da batata que “… é uma cultura sensível à seca e a sua produção sustentável está ameaçada devido a frequentes episódios de seca” … “A escassez de água durante o período de crescimento dos tubérculos diminui o rendimento em maior extensão do que a seca durante outros estágios de crescimento”.
Ora o stress hídrico é uma grande metáfora para o Homem. O nosso sangue contém 95% de água, a gordura corporal 14% e o tecido ósseo 22%. O Homem precisa de água para o corpo e de água para o espírito e a produção sustentável de homens está ameaçada devido a frequentes ataques de ignorância e de imbecilidade e a toda a espécie de calamidades que o flagelam. O stress afeta de forma danosa o homem no seu período de desenvolvimento inicial, gestação e infância, e também fora desse período de crescimento. E tu, amigo leitor, que já sofreste, na idade adulta, todo o tipo de stress, ou quase todo, sabes que ele pode ser, em pequenas doses, um motor de ação positivo e que, em fartas doses, se transforma em algemas que te impedem de seres feliz.
Cada vez mais indecisa sobre o destino a dar às batatas, poisei a que tinha na mão. Peguei noutra de pele lisa e esticada e, sem dó nem piedade, comecei a descascá-la. Por baixo, da sua pele escondiam-se manchas castanhas, algumas que tinham penetrado fundo na polpa. Também ela era vítima, tal como o Homem, de um mal oculto e invisível que a destruía lentamente. E tanta semelhança com os humanos conduziu-me à minha primeira decisão. Não usar nunca mais batatas na sopa.
Atravessei a rua e, num arroubo lírico, fui plantá-las na horta urbana que fica a poucos metros de minha casa, enquanto pensava com os meus botões: “Podeis ter tido uma vida pouco agradável, com muita luz, quando gostais do escuro, mas vou fazer-vos felizes. Ides voltar ao seio materno, reviver a vossa infância e dar fruto. Ides transformar-vos noutras batatinhas. Sereis a semente e eu o agricultor que de vós cuida. Far-vos-ei felizes e vocês a mim, pois poderei ver este meu gesto dar fruto.” (Lá estava eu a projetar a minha esperança no futuro.)
Meti-as bem fundo na terra, que é o sítio onde as batatas são felizes. E todos os dias as rego, para evitar o stress hídrico. O meu problema é que elas vão multiplicar-se e a superfície de semeadura terá de aumentar. A Terra tornar-se-á um imenso campo de batatas, tal como já é um imenso campo de homens.
No fundo, no fundo, eu sei que este meu gesto de nada adiantará e que as batatas vão continuar a ser mastigadas, deglutidas e digeridas pelos homens, se o stress hídrico as não fizer desaparecer.
Agora, caro leitor, vais dizer-me que em vez de uma batata eu podia ter escolhido uma cebola, uma cenoura, ou um nabo, para ilustrar este desabafo sobre a minha impotência perante tantas situações do mundo que me tornam infeliz a mim e a milhões de homens.
Mas não podia! Primeiro porque não teria nenhuma história “verídica” para te contar. Depois, onde estaria a lógica da batata da minha teoria? Finalmente, porque a vida de um homem não vale, a maior parte das vezes, mais do que a de uma batata.  
Todos aqueles a quem contei esta história me exigiram uma conclusão, moralidade ou mensagem, em suma, o caroço deste fruto. Sou generosa. Aqui deixo duas conclusões: uma sobre a felicidade, outra sobre a batata. Só espero que não as copiem num mural ou na Internet atribuindo-as a Aristóteles ou a Karl Marx.
Sobre a felicidade: Por mais infeliz que te sintas, nunca a tua infelicidade poderá comparar-se à das crianças que nascem, vivem e morrem sem saber que a palavra felicidade existe.
Sobre a batata: Explicar a felicidade ou a infelicidade a partir de uma batata é tentador, mas nela não cabe a complexidade do Homem. Não cabe na batata e, se queres que te diga, amigo leitor, não consegui imaginar nenhum sítio onde essa complexidade caiba.





[1] Não sou de modo algum avessa à consulta da internet como fonte de informação, bem pelo contrário, considero-a um poderosa e rápida ajuda. Sou contra, sim, a utilização indiscriminada de tudo que nela se encontra como verdadeiro. Em suma, é preciso uma certa atenção para não comer gato por lebre, o que, aliás, hoje em dia é um preceito que se aplica a tudo o que tem a ver com informação - digital ou em papel.
[2] A autora escreve de acordo com o último Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

ESTOU ESPANTADA! (texto escrito no tempo do Nuno Crato)

ESTOU ESPANTADA!
"Os alunos do 2.º ano de escolaridade têm dificuldades em interpretar um texto, escrever de forma coerente e sem erros ortográficos, não compreendem o conceito de igualdade na matemática e têm dificuldades em contar dinheiro, revela um relatório."
Como é possível semelhante prova de ignorância? Quando eu tinha 6/7 anos lia Camões, Shakespeare, Platão, Aristóteles, comentava os textos sagrados e, em termos matemáticos, os trabalhos de Dubinsky, Sfard, Tall e Vinner que permitem uma caracterização mais profunda das noções de conceito definição e conceito imagem, que se tornam conceitos chave para a compreensão dos conceitos matemáticos.
Agora grassa a ignorância, e o senhor ministro da educação que tem tentado fazer dos alunos vagões de mercadorias não consegue que as crianças de seis ou sete anos escrevam sem erros, interpretem os textos com a limpidez luminosa de um Santo Agostinho e, miséria das misérias, não dominem o conceito matemático de igualdade num mundo em que a desigualdade é cada vez maior.
Sugestão: aumentar ainda mais os conteúdos curriculares, torná-los mais complexos, instituir de novo a palmatória e os castigos corporais, porque os resultados serão garantidos e teremos uma geração de génios em ascensão. Além disso ser criança tem limites. E aos seis ou sete anos estamos perante pequenos adultos disfarçados de crianças, que já tiveram uma longa oportunidade de gozar a vida e acreditar em sonhos. Vamos a isso, pela rentabilidade, pela necessidade de criar escravos dos senhores que podem escrever com erros, não ter nunca aberto um livro, não compreenderem o conceito de igualdade, mas que sabem contar dinheiro!
PS. Já agora na televisão podem exibir-se erros ortográficos, escrever frases sem sentido, não respeitar a pontuação? E nas legendas dos filmes também?
Pois, aí não tem importância, porque os espectadores estão distraídos com as imagens e a verem se compreendem o tal conceito de igualdade.