domingo, 20 de dezembro de 2020

SOBRE QUESTÕES MÁGICAS (numa penada)


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

LIMPEZA DOMÉSTICA. BUEIROS, ETC.

A limpeza doméstica, ou seja, a limpeza do domus, a casa-lar onde moramos foi evoluindo como todas as coisas com o rolar dos anos. Não vou recuar às calendas gregas, mas apenas a meados do séc. XX, ou melhor a uma época em que os aspiradores e enceradoras eram um artigo de supremo luxo na cidade e nas aldeias portuguesas.

Nessa longa época, porque temos de recuar no tempo e não avançar, as casas eram limpas à mão. A vassoura utilizada diariamente não era suficiente para ir à raiz do problema. Isto quer dizer que a limpeza do soalho, normalmente em tábua de madeira, requeria uma intervenção com uma escova, água e sabão amarelo. O soalho era esfregado uma ou duas vezes por mês, por trimestre ou por ano, dependendo do número de pessoas que habitavam o domus.

Era uma intervenção verdadeiramente artesanal em que uma mulher de joelhos ia lavando pedaço a pedaço salas e quartos, cozinhas e quartos de banho. Havia pessoal feminino especializado neste exercício demorado e minucioso. Depois de seco o soalho era encerado. Trabalho manual idêntico ao anterior, mas de menor esforço.

E por falar em esforço… esta tarefa era mesmo árdua, porque requeria força e resistência para deixar a cheirar a lavado uma habitação pequena, média ou grande. Os saudosos dessas épocas de limpeza absoluta e de cheiro a lavado nunca fizeram este trabalho. Eu também não, mas não o quero fazer e espero que esses tempos não regressem, porque apesar da “suma limpeza” era um trabalho de escravidão.

No mesmo comprimento de onda, lembrei-me do filme de Tati, “O Meu Tio” e do varredor de rua que empurra as folhas do chão com uma enorme vassoura. Vai parando para duas de conversa e na poética abordagem do filme representa uma inércia associada a uma vida com menos aceleração do que aquela do mundo atual.

Às vezes ouço pessoas a queixar-se do ruído que fazem as máquinas que limpam as ruas superpovoadas das folhas e do lixo que um acréscimo de população e de arborização (APLAUDO) provocaram nos nossos burgos. É certo que as vassouras continuam em acção, mas que seria das nossas ruas sem esse ruído matinal? Como se desentupiriam os “bueiros” (sarjetas) sem este ruído? Com um arame e algum exercício físico?

Enfim como diziam os que povoaram essa época menos tecnológica do que a nossa: “Não podemos ter sol na eira e chuva no nabal” (até porque a chuva entope os bueiros)

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

OS ÂNGULOS RASOS

Um ângulo raso é um ângulo de 180º.

Feita esta introdução não-matemática, aqui vai a razão que me leva a designar certas pessoas como “ângulos rasos”.

A propósito da recente e benéfica mudança que ocorreu do outro lado do Atlântico, começa já a surgir aquele pessoal de esquerda que põe em causa os eleitos. "Não vão fazer nada", "Tudo vai ficar na mesma".

Primeiro congratulam-se (metade de cima), depois duvidam um pouco, a seguir põem em causa, finalmente disparam e elogiam o anterior que "afinal não era assim tão mau" (metade de baixo).  

As coisas são como são e se o equilíbrio/ desequilíbrio da política interna e externa dos EUA trumpianos nos pôs, entre outras coisas, à beira de uma guerra global e de uma guerra civil nos EUA, se a política trumpiana destruiu os princípios democráticos por todo o mundo, aliando-se inclusivamente às mais ferozes ditaduras, se exacerbou as tendências fascistas e desumanas de uma planeta em colapso, nada disso lhes importa.

Na verdade, todos sabemos que a dupla eleita não vai fazer a revolução, que a dupla eleita se vai ver à nora para criar de novo uma certa normalidade. E todos queremos ou devíamos querer que alguns pedregulhos saíssem do caminho. Serão poucos, mas alguns.

Que cada um contribua com a sua parcela minúscula para fortalecer a democracia e deixe de ser "ângulo raso", que não permite distinguir o lado em que se posiciona o “comentador”.  

Ser "ângulo raso" é uma doença que realça a vaidade, o querer ser mais original, mais contestatário, mais radical do que o seu vizinho. Uma doença que permite não estar de lado algum e ter sempre razão. Uma doença infantil com muitos "impacientes".


domingo, 25 de outubro de 2020

A MAIS BELA DO MUNDO


Os norte-americanos foram os pioneiros. Inspirados talvez pelo Guiness Book of Records criaram o título de “a mais bela mulher do mundo”. Lembro-me que uma das mais belas foi a Joan Collins e outras houve. O mundo para eles era do tamanho de um campo de petróleo no Texas, de uma praia na Califórnia, de um afluente do Mississipi. E mesmo nessa área seria discutível que ela fosse a mais bela.

Cedo a moda se propagou e não podíamos ficar indiferentes a esta onda de excelência. A toda a hora leio que é portuguesa a mais bela praia do mundo…
que é português o mais belo jardim do mundo…
que é português o melhor cientista do mundo...
o melhor arquiteto do mundo...
a mais bela montanha do mundo...
o menos poluído rio do mundo, etc. etc.
Estes são exemplos improvisados e sem qualquer correspondência na realidade. Mas acho que servem para fazer passar a ideia do quanto é ridículo atribuir a um fenómeno, a um objeto, a uma pessoa o grau de excelência máximo no mundo.
A globalização tornou o planeta mais pequeno, mas só através dos chipes, porque continua a ter biliões de pessoas e 12.756 km de diâmetro no Equador.

Agora, quando for para estabelecer relações de grandeza e de excelência absolutas utilizem Júpiter, depois a Betelgeuse, de seguida uma das Gigantes Vermelhas e finalmente se não conseguirem o efeito pretendido, o Universo. Mas o Universo é um recurso muito pífio. Não se esqueçam de que já há a Miss Universo.


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A ANTI-CORRUPÇÂO É UMA ARMA

 Cai sempre muito bem na opinião pública, em especial na mais desfavorecida sobre todos os pontos de vista da rotunda variedade de factores que constituem um indivíduo, apresentar-se aos outros como arauto anti-corrupção.

Talvez porque tive uma educação fortemente católica, num ambiente de padres e de freiras, todos de grande notoriedade na época, figuras gradas e respeitadas, aprendi rapidamente que quanto mais o penitente justiceiro bate no peito e jura e trejura sobre a sua seriedade e honestidade bem como intenção de “limpar” a Terra ou a pátria dos corruptores pior é a descoberta da face oculta do penitente.

A experiência já nos permitiu, enquanto cidadãos, assistir a espectáculos que confirmam o que acabo de dizer. Estou a lembrar-me de Marinho Pinto e de um médico “sem fronteiras", cujo nome se varreu da minha memória, gente séria e que ia pôr tudo em pratos limpos.

A verdade é que o poder corrompe e quanto mais absoluto ele for mais probabilidade tem de corromper- A verdade é também que a época em que vivemos é um modelo double-face. E todos os salvadores das pátrias do mundo se têm revelado grandes salvadores dos seus próprios interesses, porque o poder limita-se a realçar a natureza escondida do indivíduo.

 Quer isto dizer que entendo que o poder deve cair na rua? De modo algum. Como cidadã procuro analisar o carácter daqueles a quem o vou atribuir. Posso enganar-me no meu juízo, mas é um risco que tenho de correr. No entanto, muitas vezes aconteceu que tive oportunidade de conhecer razoavelmente bem os candidatos ao poder. Aí foi mais fácil para mim aceitá-los ou recusá-los.

 É claro que não foi a minha opinião pessoal que decidiu do destino dos mesmos. Mas fiquei bem com a minha consciência.

 Para terminar esta divagação devo dizer que, para mim, um detentor do poder receber bilhetes de futebol para ir ver o Benfica, o Sporting, o F. C. Porto ou qualquer outro clube, receber uma tarte ou pudim de uma confeitaria da moda não me incomoda.  A corrupção é outra coisa.  E essa fica sempre escondida na sombra.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O EFEITO CARBONARO E AS ELEIÇÕES BRASILEIRAS (em Outubro de 2018)

Nunca ouviu falar deste fenómeno, caro leitor? Pois fique sabendo que é o fenómeno do momento. Todos os dias, por volta das 20 horas, na SIC Radical.

Trata-se de um programa tipo Apanhados (calma, leia até ao fim), com uma mistura de ilusionismo, apresentado pelo jovem Michael Carbonaro. Fascinante!
Fascinante pelos truques mirabolantes com que o Carbonaro ilude os clientes (passa-se numa qualquer loja: de brinquedos, de roupa, de sapatos, drogaria, etc.) mas ultrafascinante pelo discurso científico que o jovem usa para convencer o atónito e perdido espectador, apanhado no seu truque. O iludido fica perplexo entre a dúvida e a aceitação final de fenómenos totalmente impossíveis, explicados por um discurso em que os termos técnicos são abundantes e parecem autênticos.
Dir-me-á que se trata de pessoas iletradas, (e são realmente a fatia predominante) pessoas do dia a dia, empregados que receiam ser despedidos, o americano que tem mesmo carinha de apoiar a NRA, a dona de casa, mas também a professora, a psicóloga, em suma, aqueles somos nós.
E o que torna FASCINANTE este programa é ver a facilidade com que NÓS somos convencidos, face a um discurso pretensamente erudito, pretensamente científico ou pretensamente ético.
Esse é o discurso que lemos (espero que ler seja o termo adequado) sem qualquer espírito crítico na Internet, nos jornais, nas revistas. Esse é o discurso que leva tantos "intelectuais" a publicarem textos do tipo "santinhos" e atribui-los a escritores que nunca poderiam ter escrito aquilo. As pessoas que os publicam estão convencidas dessa e doutras verdades e os que os lêem ainda mais porque trazem certificado de garantia.
Esse é o discurso mais fácil para o ouvinte porque é rápido e não exige esforço, nem precisa de contraditadório.
Inclui a facilidade e o facilitismo com que tudo se resolve e que, em meia dúzia de frases pomposas, põe na ordem os desordeiros, castiga os maus, abençoa os bons, refaz o mundo e o torna perfeito.
Dele faz parte a frase "os políticos são todos iguais", sempre dita com um tom de quem atingiu a verdade plena, a irrefutável realidade, a frase que apela, com um sucesso imenso, à inércia, ao absentismo, ao egoísmo, ao "quero lá saber", que dá jeito sempre às formas mais torpes de governação.
Espantado com os resultados das eleições brasileiras? Não esteja. Infelizmente também nós contribuimos para essa desgraça, desde os tempos colonialistas, em que o Imperador imperava, e o saloio das berças portuguesas se tornava no senhor de muitas terras e escravos, até aos dias de hoje em que a emigração brasileira, em Portugal, apresenta um nível de ignorância atroz, que achamos muito interessante, porque nos dá jeito.
Os ricaços que vêm visitar a Europa, gozar dos seus milhões, comprar uma casa por bom preço e cuja indiferença pelos outros, bem como a ignorância literária, científica, artística é gritante votaram Bolsonaro porque só ele lhes garante o número de criados, de babás, de motoristas e de milhões a que estão há muito habituados. Os infelizes que vêm à procura de melhor vida, ganhar uns carcanhois votaram por Bolsonaro porque trazem o peso dos séculos de obscurantismo e de medo sobre as suas cabeças. Os traficantes e negociantes de visão imediata e indiferença total pela vida dos outros votaram bolsonaro porque nele se reencontram. Os que vêm à procura de um canudo, que se consegue com umas trocas de favores votaram bolsonaro no regresso à pátria porque já estão servidos.
Os brasileiros são todos assim? Não! Não são. Têm gente pensante, uma massa crítica que luta desatinadamente para que a má sorte não se abata sobre eles. A essas mulheres e homens de boa vontade, eu desejo de todo o coração que a sua luta seja recompensada na votação final, e que depois continuem a lutar para trazer o Brasil até ao que de melhor existe no séc. XXI (pouca coisa, mas de muita qualidade). Um abraço, irmãos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

TAXA DA PANDEMIA ou TAXA DA INFÂMIA

 

Num hospital privado, para fazer uma consulta ou para fazer exames o cliente/utente/usuário ou abusado paga aquilo que eles chamam "a taxa da pandemia".

O que é a taxa da pandemia? Um verdadeiro abuso ou as máscaras mais caras do mercado. À entrada, um empregado obriga-me a tirar a máscara que trago e entrega-me outra que tira de uma caixa. Aponta-me o doseador com gel desinfetante. Sirvo-me.

Na recepção pago os exames que vou fazer e CINCO EUROS DA TAXA DA PANDEMIA (a máscara e o gel). Nem quero acreditar no que ouço. Faço um rápido cálculo sobre a quantia diária que o hospital, neste caso, o hospital da Cruz Vermelha recebe diariamente com esta taxa e calculo sem exagero que anda na ordem dos milhares de euros.

Eis como a pandemia se transformou num negócio chorudo, num caça-níqueis de um casino sem vergonha que são os hospitais privados.

Alguém me preveniu que existia esta taxa quando liguei a fazer as marcações? Nem pensar que o informador ia direto para a rua.

Para cereja no topo do bolo, o sistema informático avaria, depois de eu e mais um largo grupo de pessoas termos pago. Não há devoluções. Mas aquilo é boa gente e remarcam-me os exames para daqui a uma semana. São quase 5 da tarde quando chego a casa em jejum.

Este gesto nobilíssimo da medicina privada dá-me vontade de os trincar, mas eles sabem que nem eu nem ninguém os pode trincar, porque o sistema público não tem capacidade de resposta e eles têm a faca, o queijo e até a nossa boca na mão.

Imaginem as ideias fantabulosas que estes escroques dão às pessoas para se assistir a um aumento do custo de vida.

Antigamente gritava-se: "Nem mais um soldado para as colónias", agora deve gritar-se: "Nem mais um cêntimo para a saúde privada."

domingo, 23 de agosto de 2020

NO COMBOIO DESCENDENTE

Ontem revi o programa relativo a Portugal de "As inesquecíveis viagens de comboio". Saímos bem na fotografia sobretudo para “inglês ver”. Mas eu não sou inglesa nem francesa, nem chinesa, etc. Nasci cá na terrinha e por trás daquele programa opulento encontra-se o Portugal de sempre no comportamento das pessoas.

1. O comboio de luxo que faz o percurso do Douro - Tudo muito luxuoso, acompanhado de uma refeição digna do Luís XV. O “chef” (nada de portuguesismos que o homem ficava ofendido), oriundo do chiquérrimo hotel do Guincho é de um pedantismo sem nome. Logo ali começa a tratar por tu o humílimo Philippe que sorri e ri de uma forma educada. Não sei se o tal chef que é um verdadeiro idiota sabe que em Francês tal como em Português existe o “vous” e o “tu”. É capaz de saber mas faz questão em mostrar através do tratamento que ele é o “roi soleil” e o outro um “sans culotte”. Phillipe continua magnânimo a tratá-lo por “vous e “senhor". No comboio “ascendente”, uma camada de gentinha snobe, descendente directa do tal Luís, à moda do norte (desculpem eu também sou do norte), selecionada expressamente para o programa vai mostrando através de poses e do tratamento por “tu” que o apresentador do programa é um plebeu entre la crème des crèmes da sociedade portuguesa. Mesmo MEDÍOCRE e SALOIO.

2. As lavadeiras da Afurada – Esta parte do programa em que se incluem os mergulhos no rio Douro é muito típica e à boa maneira portuguesa faz-se um grande espalhafato para “inglês ver”. Tudo gente feliz. Mas é bonito ver aquele tanque da Afurada onde um grupo de mulheres à “moda do norte” nos transporta directo para o séc. XIX. Caraças é mesmo “genuíno”. Philippe irá referir no final do programa a autenticidade deste pequeno país e a necessidade de o “modernizar”. Pudera!

3. Lisboa – Vão ficar admirados, mas esta parte do programa é para mim a mais autêntica. Destaco os vendedores de bacalhau da baixa de Lisboa, com um comportamento impecável Tratam o apresentador do programa com respeito, explicam sem arrogância e mostram aquela seriedade antiga que nós gostamos de atribuir aos nossos comerciantes. Muito bom. As ruelas e ruazinhas de Lisboa, os enquadramentos. Excelente.

4. Trás-os-Montes – A minha província é representada por um casal de velhos a empurrar uma charrua. Este casal é mesmo representativo da simplicidade natural desta gente. Respeitosos, mas não subservientes. A mulher lembra-nos que existiu outrora um matriarcado na Península. Percebe-se que já teve contactos com o Francês porque vai ganhando confiança e mete a sua colherada francófona de vez em quando. Lembranças da emigração. Só tenho pena que o trabalho que representa Trás-os-Montes nos coloque na Idade Média. Mas lá vem o dentista dos burros. Esta personagem de ficção é protagonista de um dos momentos mais “estranhos” e verdadeiramente únicos de todos os programas. Mas tinha de borrar a pintura. Ele é o “dótor” e por isso o Philippe passa de novo a ser tratado por tu. O apresentador respeitoso trata o “dótor” por “senhor” e é claro o “vous”, tratamento que nós Portugueses vamos esquecendo, influenciados por esses génios que são os brasileiros das telenovelas.

O apelo de Philippe à modernização deste país tão autêntico percebe-se, mas ele jamais compreenderá que esta autenticidade está estreitamente colada às mentalidades medievais lusitanas e que só um milagre nos poderá salvar.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

UMA EXPERIÊNCIA (Publicado no meu FB há três anos)

Vou fazer compras ao El Corte Ingles. Está a chover e quero conceder-me "uns miminhos" (entre aspas porque era a minha intenção, naquele momentto). Mas antes preciso de tomar um café.
Já é tarde. Opto pela coca-cola que sempre me dá alguma genica.
Sento-me na salinha da taberna, do referido El Corte Ingles, e peço uma coca-cola com chips de batata doce. "Só há pepsi". Tudo bem. Aguardo.
Uma barata ligeira passa sob a minha mesa e corre para o balcão. Reparo que o chão está muito sujo. Fico um pouco enojada, mas não há perigo. A bebida vem numa garrafa fechada e a batata foi frita a alta temperatura.
A bebida vem numa lata. Não são chips de batata doce, mas cascas de batata comum fritas (agora usa-se). Vêm acompanhadas de um molho. Não toco no molho e hesito se devo incomodar-me a devolver as batatas. Decido apenas dizer ao empregado à saída que aquilo não era batata doce. Mas ele não conhecia as chips de batata doce.
Pago 5 euros e meio e estou convencida: vou montar um negócio de cascas de batatas (antigamente dizia-se de cascas de alhos).
No supermercado olho desoladamente a fruta banal a preços de luxo. Não há cerejas. Céus! Este ano não consigo encontrar cerejas. Escolho uma embalagem plástica com nectarinas polidas. Conto-as em casa. Tem nove e só as duas de cima não estão podres, mas todas estrategicamente disfarçadas.
Está decidido: um negócio de cascas de batatas e de nectarinas podres. Não trouxe mais primícias e por isso o negócio fica tão reduzido.

Ó El Corte Ingles, e eu que tanto te amei e conheço tão bem os teus segredos (só isso me permitiu ter trazido algumas compras aproveitáveis de produtos que só em ti se encontram).


sexta-feira, 3 de abril de 2020

LARRY CROWNE


Ontem vi um filme, salvo erro, no canal Hollywood que me chamou a atenção. Não, não se trata de uma obra de arte, nem sequer de um argumento muito criativo, nem sequer de uma fotografia muito especial. Não. Apenas um filme que se vê bem. Larry Crowne é o seu título. Os atores Tom Hanks e Julia Roberts. 

Pois eu atrever-me-ia a tornar obrigatória a visualização desta comédia a todos os responsáveis pelo ensino do Português. Ia fazer-lhes muito bem para perceberem o quão importante é ter espaço e tempo (parece que são a mesma coisa) para pôr os alunos a falarem para uma plateia sobre um assunto, seja ele qual for. E fazê-lo com regularidade e propriedade. Talvez daqui saltassem para a importância de pôr os alunos a escrever, para a importância de os preparar para isso, para a importância de lhes dar pistas e modelos. Escrevam, meninos, escrevam, nem que seja para copiarem um texto de um bom escritor... Estou por tudo. Até podem copiar um texto que não seja de um famoso, mas um texto que simplesmente vos agrade. 

Talvez daqui os tais responsáveis saltassem para a importância de pôr os alunos a lerem e a comentarem o que lêem. Para a importância de terem um clube de leitura a sério. Um clube animado que gerasse mais tarde outros clubes sociais, como acontece no Reino Unido, e seguramente em muitos outros países. Clubes que unem as pessoas e fazem a vida mais leve e colorida. Fazem bem ao espírito e ao corpo. Divulgam a cultura nacional e a universal. Fazem-nos pensar. E isso devia ser uma prioridade.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

JARDIM ZOOLÓGICO - A RELÍQUIA (escrito em 2019)

   As filas de turistas e a de pais e filhos que se acumulam à porta do jardim Zoológico ao fim de semana mostram o dinamismo daquele espaço e SÃO INVENTADAS POR MIM.
   Visitar o jardim custa 22 euros por pessoa a partir dos 3 anos de idade. Não há descontos em situação alguma, porque cuidar dos animais custa dinheiro e quanto menos pessoas o visitarem mais calmos estão os bichos e o pessoal que deles cuida e cuida do espaço (o imobilismo é o movimento que mais adeptos tem entre as lusas gentes),
   Quando uma família - pai e mãe e dois filhos - o visitam pagam 88 euros (OITENTA E OITO EUROS). Se forem três filhos (como é o caso da família da minha filha) são apenas 110 euros (CENTO E DEZ EUROS),
   Toda a família gostaria (o Condicional aqui entra muito bem) de poder visitar o jardim de vez em quando. Mas essa visita é um acontecimento que, tal como o cometa Halley, só ocorre de X em X anos.
   O jardim Zoológico foi feito para ser visitado por meninos da escola. A família é um conceito que não existe naquele espaço. Por isso, também não há um BILHETE FAMILIAR. Quando o Francisco quer visitar o jardim (porque de automóveis, e todo o tipo de transportes está em vias de apresentar o doutoramento) tem de se selecionar cuidadosamente quem vai com ele para não arruinar o orçamento familiar.. Isto porque o Francisco ainda está longe dos 3 anos. Quando isso acontecer, põe-se o Francisco à porta do jardim e vai sozinho.
   Este jardim é um verdadeiro modelo de imobilismo - o local onde se despejam os meninos das escolas quando chega a Primavera. O local do vazio absoluto fora desses momentos. Nas visitas das escolas esgota-se todo a missão social do jardim - UMA AUTÊNTICA RELÍQUIA DO PASSADO.
   Nunca a palavra RELÍQUIA foi mais apropriada. Eu creio mesmo que foi inventada a pensar neste local de cultura e de lazer e noutros que cheiram a mofo tal como ele.
   ORGULHOSAMENTE VAZIO!

A ÁRVORE DOS LILASES

A árvore dos lilases não é uma árvore trepadora e o formato das flores é totalmente diferente do das glicínias. Quando eu era pequena tínhamos uma árvore de lilases no quintal. Alguns cachos despontavam na Primavera.
Os lilases não são exuberantes como as glicínias. São uma árvore delicada que se adapta dificilmente aos solos. Talvez por isso só uma vez encontrei esta flor a vender na Romeira, da Av. de Roma, há muitos anos atrás.
Os lisboetas amigos de flores sabem que esta florista foi durante muito tempo o máximo de chique e de preços exorbitantes. Já não é.