quinta-feira, 17 de abril de 2025

EU SOU A LENDA

A lenda é precisa, faz-nos falta, alimenta-nos e alimenta o negócio e o turismo. Uma lenda para cada espaço que nos permita sonhar e viajar no tempo.

Martinho da Arcada e ilustre freguesia. Esta foto é um documento. Para que haja um Pessoa em todos os cafés da baixa lisboeta e um Eça em todos os hotéis da mesma baixa, com capítulos em Sintra, em Benfica e lá pràs bandas do Lumiar, para que haja um escritor, um poeta, um artista, para cada café, para cada hotel, para cada jardim.... e, por esse Portugal fora, uma padeira de Aljubarrota escondida atrás de cada árvore, uma Deuladeu Martins no alto de cada torre.
Numa lenda tem de haver uma parte de verdade, que essa parte seja grande, mas que não falte a fantasia, porque a fantasia é como a poesia... alimenta.
E agora vou dormir que o sono já espreita.



quinta-feira, 20 de março de 2025

PAZ

A minha oliveira já foi bonsai. Um dia, libertei-a dos arames que lhe tolhiam as raízes e ela começou a crescer. Este ano tem muitas flores e está cheia de frutos. Vive na minha cozinha e qualquer dia não cabe lá. É a minha herança de paz, porque viverá muitos anos depois de mim, transplantada para um terreno.

Paz é a maior herança que podemos deixar às gerações futuras. A guerra gera o ódio entre os homens. Nós ainda estamos a recuperar das Aljubarrotas e dos 1640s. E ou nos entendemos todos ou esperamos por uma invasão de extraterrestres para sentirmos finalmente que todos somos iguais na forma, na fraqueza e na força, na alegria e na tristeza (isto até parece um casamento).
Fiquem-se com um excerto do Génesis: "E a pomba voltou a ele sobre a tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado sobre a terra."




segunda-feira, 10 de março de 2025

DO HORROR!

 

Ligo a TV e estampa-se na minha frente o ALMIRANTE, pessoa que desconhecia, mas que me era referida com certeza certa de ser o próximo PR da República Portuguesa.
Invoco-vos, Tágides “minhas”! Para que não fiqueis ofendidas, invoco-vos, Tágides dos poetas lusitanos, nos quais não me incluo. Invoco-vos para conseguir transmitir o estupor que me invadiu ao ouvi-lo.
Que imagem usar: fábrica de clichés, dicionário do lugar-comum, repositório de banalidades, chatgpt do chavão (perdoa-me chatgpt), produtor em série de estereótipos? Tudo somado será que chega? Ó horror!
Cala-se o Almirante aparece o SEGURO! Segurai-me… Aqueles olhos reboludos, com a pálpebra semicerradas e uma expressão dolorosa de criança ferida. Todo ele ternura, todo ele paz, todo ele súplica. Lembram-se da imagem que aqui reproduzo? Era o Seguro em criança, já uma figura trémula, benéfica, amante, todo ele preocupado com os males da sociedade. Ó horror!
E de que falavam estes dois? Da inocência do Montenegro.
Ah, como fiquei comovida. Ainda não recuperei.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

TUDO O QUE IMAGINAMOS COMO LUZ

 

Para mim este filme é poesia: realista e lírico, feito de fragmentos de vida que se perdem numa grande cidade. É Bombaim, mas podia ser qualquer grande metrópole. São três mulheres, mas o filme não pretende ser um testemunho da dureza da vida dessas mulheres ou uma denúncia. É mais. Não quer provar nada e essa ausência de pragmatismo revolucionário fez-me sentir próxima daquelas vidas, daquela cidade, daquele ambiente noturno onde milhares de janelas iluminadas criam um firmamento terrestre, um céu virado ao contrário, negro e coalhado de luzes.
Poesia são essas luzes, esses anseios, esse fluir dos dias, esses sonhos e o som do mar que nos fustiga e embala. É a Índia, mas é mais do que isso, porque não se trata de folclore ou de denúncia, mas de vida e de tudo o que imaginamos como luz em qualquer sítio deste planeta.
Luz que encheu os meus olhos de lágrimas.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

DE SUSKIND AO BICHINHO DA PRATA

Ora, em minha casa, há livros em todas as divisões e alguns guardados com tal devoção que nem eu me lembro já que naquele especial lugar coloquei um grupo de livros também ele especial, para reler.

Foi uma tarde longa e extenuante, à procura de "A história do Senhor Sommer", a pedido do meu neto. Na pista dos livros do Suskind, porque o senhor Sommer devia estar lá no meio, deitei abaixo estantes e estantes, limpei cantos e recantos. Toneladas de pó, livros esquecidos, autores esquecidos.... Tanta coisa para ler. Já não vou ter tempo de ler o que não li nem reler o que adorei. Pelo caminho, encontrei a Dorothy Parker. Abaixo publico um excerto de um conto desta escritora que, nalgumas páginas, me lembra um pouco Virginia Woolf, apenas nalgumas páginas. Fiquei com uma dor nas costas. Mas o Suskind sumiu.

Ao ver passar, opulentos e refulgindo, tanto bichinho da prata, percebi o destino do Suskind. Atirei-me a eles e foi uma matança. Mas ouço rir os sobreviventes. Afinal, eles já cá estavam quando os homens ainda eram um projeto. E cá vão continuar quando os homens forem apenas memória. Memória dos bichinhos de prata que entretanto se tornaram uns valentes sabichões.

 

Excerto de "A VALSA", de Dorothy Parker, escritora americana do séc. XX. Este conto tem a duração de uma valsa.😀

O que pensa a mulher que se vê obrigada a dançar (protocolo da época) com um homem que detesta. Aqui vão umas migalhas do seu pensamento.

"................. Quando um homem nos pede que dancemos com ele, o que se há de dizer? Não vou, primeiro havemos de nos encontrar no inferno? Ora essa, muito obrigada, gostava imenso, mas estou com as dores de parto? Oh, sim, dancemos — é tão agradável encontrar um homem que não se importa de ser contagiado pelo meu tifo?

Não, não podia fazer outra coisa senão dizer: estou encantada.

Bem, vamos acabar com isto. Pois bem, Cannonball, vamos por esses campos fora. Ganhaste a partida; és tu quem guia." (…)

UM MODELO DE COMO NÃO SE DEVE FAZER TELEVISÃO

 "CAMILLE CLAUDEL", um documentário, que passou na RTP2, sobre a genial escultora.

Um modelo de como não se deve fazer televisão. Um modelo de pedantismo serôdio.
Pretensamente erudito, cheio de música sacra, de fragmentos de uma peça de teatro (que talvez fosse interessante) mas totalmente descontextualizada, entre frases patéticas e hipócritas.
As mulheres naquela época (finais do séc. XIX) não tinham direito a exprimir o seu génio e, embora o documentário quisesse redimir Rodin, a verdade é que ele foi um dos inimigos de Camille, sua ex-amante e rival artística. Rodin sentiu-se ameaçado pelo talento dessa mulher que não conseguiu transformar em eterna discípula e serva e pressionou o ministro de belas artes a cancelar os pagamentos das suas obras em bronze, condenando-a à miséria.
Camille era odiada pela família, pela sua piedosa mãe e pelo seu piedoso irmão, Paul Claudel. Mantiveram-na sem dinheiro, até a levarem à loucura. Depois, encerraram-na num hospital psiquiátrico onde viveu 30 anos, proibida de modelar, de esculpir, de se exprimir. Até ao extremo de a proibirem de escrever cartas. Um médico, o Dr. Brunet, ainda mandou uma carta à mãe de Camille pedindo que tentasse reintegrar a filha no convívio familiar, porque ela não estava louca, mas nunca recebeu resposta.
Camille era um gênio, mas era mulher e nunca conseguiu afirmar-se em vida. Apenas o seu pai a ajudava e compreendia. Morreu cedo e deixou-a exposta ao preconceito. Aa 90 peças da sua obra que lhe sobreviveram permitem-nos, graças a Deus, reconhecer o seu génio, apesar de Paul Claudel, apesar de Rodin.
Não será este documentário pretensioso e pedante que limpará o crime desses dois homens, porque felizmente ficaram provas. Quantas mulheres não terão sido sufocadas, quantas não terão visto o seu talento destruído, sem que o crime dessa destruição tivesse deixado rasto?



domingo, 29 de dezembro de 2024

PONTO DE VISTA


Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
(…)
Na obra “Non (Nu)”, Ionesco (dramaturgo nascido na Roménia, naturalizado francês) expressa, com humor e teatralidade, as suas opiniões sobre a crítica literária. Para ele, no campo da crítica literária todas as opiniões são válidas. Sem o humor deste dramaturgo, sinto que todos os acontecimentos maiores ou menores da atualidade permitem interpretações diversas e podem ser observados em diferentes ângulos mais ou menos visíveis.
Esta condição que permite uma subjetividade tantas vezes orientada por uma objetividade premeditada é cada vez mais evidente para o cidadão em geral que pressente, por trás do que lhe é transmitido como a verdade das verdades, múltiplas nuances e múltiplas inverdades. Este fenómeno que sempre existiu, mas que se tornou numa autêntica praga gera a dúvida e a descrença, nuns casos desejada por fazedores de opinião, noutros frustrada. Caso para concluir como Ionesco que no campo da realidade social e política todas as opiniões são válidas? Ou como diz de uma forma tão clarividente Gedeão: “eu vejo no mundo escolhos onde outros, com outros olhos, não veem escolhos nenhuns”.

Talvez não seja esta a conclusão que eu pretendia. Na verdade, preferia que a perplexidade perante as variadas leituras de determinados acontecimentos levasse as pessoas a uma busca em diferentes fontes de informação, já que observar “in loco” é impossível para quase todos nós e para a maioria senão totalidade dos acontecimentos. 




terça-feira, 29 de outubro de 2024

REVISÃO CURRICULAR AVANÇA JÁ NO PRÓXIMO ANO LETIVO

Estando a ler no DN o artigo com este título, detive-me, em especial, na revisão do currículo de Português, Língua Materna, embora o artigo do DN dê particular ênfase ao ensino da História, o que poderá fazer sentido, mas nunca lecionei esta disciplina e ignoro os seus problemas específicos. É certo que há muitos anos atrás, segui um aluno do Secundário (então numa escola em que se testavam novos programas) e fiquei encantada com o que aprendi sobre a forma de olhar os acontecimentos numa perspetiva sincrónica e global. Neste nível etário e de ensino, a História (século XX) era então abordada nessa perspetiva, apresentando todos os factos e situações que ocorriam na Europa e no mundo, num corte transversal que permitia perceber como se relacionavam entre si.

Sobre o ensino do Português realço a opinião de Paulo Guinote que transcrevo em parte “(é preciso) ... uma visão mais prática do ensino da língua mais centrada na escrita criativa. Bem sei que vou ser acusado de reacionário por muitos académicos especialistas, mas sendo prático, acho que é preciso voltar ao hábito da “redação temática”, que organiza o pensamento e promove flexão e criatividade.” Resumindo, ESCREVAM, PORRA!

Segui o percurso curricular dos meus netos mais velhos, muitas horas dedicadas a conteúdos gramaticais de difícil nomenclatura e utilidade nula. E escrever, népia… Até acho que certas noções gramaticais são absolutamente necessárias, para explicar a falta de correção de um texto. Os Picassos da escrita nascem de uma aprendizagem leve, solta e constante.

Também João Pedro Aido, presidente da Associação do Professores de Português, refere um reforço da escrita criativa nos ensinos básico e secundário e ainda aponta para “um ensino da literatura menos académico e tradicional (porque) cristalizar o texto literário em conteúdos programáticos não leva os alunos a lerem obras nem a fazerem apreciações críticas pessoais.” Defende ainda “uma maior liberdade de escolha dos autores a estudar, uma lista maior e mais atualizada…”

Nem imaginam como concordo com esta liberdade de escolha de autores. Farta de ver crianças e adolescentes vacinados contra a leitura porque lhes impingem umas obras muito literárias, de autores nacionais que “temos de respeitar” e as editoras precisam de vender. A custo, lá foram entrando alguns autores estrangeiros, mas nenhuma preocupação com aquilo que se escolhe para o aluno ler. Está no programa, catrapuz, vai comprar. Se lês ou não isso aí já não é importante. É preciso que a editora venda.

Por favor, arranjem estratégias e textos que permitam aos alunos descobrir que ler um livro pode ser uma aventura. Arranjem professores também e sobretudo soltem-se, carago!




quinta-feira, 3 de outubro de 2024

CAMINHOS DA MEMÓRIA

Ontem, fui conhecer a pala do Centro de Arte Moderna.

Sim, é uma obra de extremo bom gosto e arrojada sob o ponto de vista arquitetónico. Parafraseando o nosso “saudoso” presidente: “Só tenho um adjetivo para exprimir o que senti: GOSTEI.”
Mas aquilo que me ficou no coração foi um SABOR ANTIGO que encontrei na parte nova do jardim, que ainda está a ser terminada: VIOLETAS SELVAGENS, AVENCAS, UM LAGO COM CADEIRINHAS À VOLTA
Num ligeiro declive, violetas selvagens, as verdadeiras, as perfumadas, misturavam-se com as avencas. Tinham sido trazidas do poço do esquecimento para a luz do dia.
Tanta gente ignora que o perfume da violeta não foi inventado num laboratório, mas é o desta minúscula e tímida florzinha. Já não há na rua as "violeteras" a vender raminhos, nem se usa oferecer um raminho delas.
E o perfume do frasquinho que a minha mãe guardava na cómoda voltou intenso.
As avencas, milhares de folhinhas frágeis, minúsculas, onde os matizes de verde se multiplicam e o dourado do outono cria novos coloridos, também me trouxeram de volta o laguinho do nosso quintal nos Açores.
E, depois no novo jardim havia um lago, com cadeiras de metal à volta.
Ah, jardins da minha infância com lagos, peixes, pedras, tufos de vegetação, lagartos e cadeiras onde a tarde mansa se recostava, voltai!





domingo, 1 de setembro de 2024

A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ERNESTO

Não reparo muito em outdoors nem noutras coisas. Nunca seria boa testemunha para o inspetor Poirot. Ontem, porém, reparei num outdoor com um slogan pleno de inspiração e percebi a importância de vários aspetos do cenário “parapolítico” (neologismo) ou o backstage (estrangeirismo) da política.

Eis o slogan: “Com Cotrim, SIM”.  Logo ali a minha inspiração de grande fazedora de campanhas políticas me segredou: “Com Durão, NÃO”, “Com Inês, TALVEZ”, “Com Rangel papas sem MEL”, “Com Ventura não se ATURA”, “Com Coelho é só FOLHELHO”, “Com Marcelo nem de CHINELO”, “Com Cavaco mete pró SACO” e outros slogans de grande fulgor inspiracional.

Mas o slogan que despoletou esta catadupa de talento também me chamou a atenção para a importância do nome de um político. Nunca escolhas LACERDA e outra rimas duvidosas para não acabares num outdoor transformado em anedota para crianças.



 

terça-feira, 30 de julho de 2024

NOTAS OLÍMPICAS 2024

À noite vejo excertos do que foi o dia olímpico.

1. Não aguento ver a ginástica feminina ou masculina. Então os saltos! E a trave, meu Deus! Estou sempre à espera que caiam, que atravessem disparados a sala, que tenha de vir uma equipa de socorristas levantá-los do chão. Não percebo os décimos que perdem porque uma perna estava 2mm afastada da outra, porque não ganharam altura, etc. etc. Eu dava uma medalha de ouro a todos.

2. Então procuro outro desporto. Não tenho paciência para ver duas "atletas" a bater numa bolinha de um lado para o outro de uma mesa, durante horas. Não tenho paciência para ver as ondas daquele sítio maravilhoso cujas praias vão desaparecer debaixo de água porque a calota polar está a derreter e só os picos apetitosamente verdes ficarão a espreitar os nadadores agarrados a uma prancha.

2. Então salto para a natação. Está calor e é um desporto refrescante, além disso, percebo que o Joaquim chegou primeiro do que o Eustáquio e a Filipa se destacou das outras nadadoras. E ontem vi a Itália a ganhar a sua primeira medalha olímpica com um IMPERADOR ROMANO renascido, um DEUS do Olimpo. Que rapaz mais bonito: o formato do rosto, os olhos azuis grandiosos, o nariz e a boca desenhados com cinzel, os cabelos. De lá de cima dos seus quase dois metros, ele tinha descido do Olimpo, para garantir que estes jogos eram mesmo olímpicos. Era o Antinoos do imperador Adriano, o Apolo dos deuses celestiais. Thomas Ceccon, para mim nem precisavas de nadar. Os deuses do Olimpo ganham sempre medalhas de ouro. 






segunda-feira, 15 de julho de 2024

😉CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DO PORTUGUESINHO

Se o Português teve origem no latim, o Portuguesinho teve origem no Português, daí poder-se concluir que um é filho e outro neto da língua que se falava em Roma e arredores.


Apesar das semelhanças que levam muitas pessoas a afirmar que são ambas a mesma língua, o Portuguesinho, ainda em formação, já tem regras próprias. Por exemplo, podemos dizer referindo-nos a uma bela jovem ou a um belo jovem: “Que rico CORPINHO!”, mas jamais a um idoso. Sem ter pretensões em compilar as novas regras deste neoportuguês, atrevo-me a enumerar algumas.

1. Portuguesinho para idosos: REGRA: COM IDOSOS/AS, usar obrigatoriamente todos os “substantivos” e, quando possível, advérbios e adjetivos com o sufixo -inho/-inha. Ex: “Então dormiu um SONINHO? Está bem DISPOSTINHA e DESCANSADINHA? Vamos lá sentar-nos na CADEIRINHA. Não se esqueça da BENGALINHA. Vamos já trazer o LANCHINHO e vamos pô-lo na MESINHA! Penteio-lhe o CABELINHO antes do PASSEIOZINHO…”, etc. Nesta língua existem também vocativos específicos para idosos e idosas: Ex: Meu querido/ Minha querida, Meu amor, Minha filha, ou simplesmente Querido/ Querida, Ó Filho/Ó Filha!

2. Portuguesinho para bebés e crianças pequenas (exclusivo): REGRA: Com bebés e crianças pequenas é de uso obrigatório o sufixo -inho/-inha na HISTORINHA e para designar partes do corpo. Ex: NARIZINHO, BOCHECHINHAS, CARINHA, MÃOZINHAS, DEDINHOS, PEZINHOS (este nome, por exemplo, é uma exceção porque também se usa para idosos que tenham dificuldade em caminhar ou outro mal relativo aos pés).

Incentiva-se o contributo de todos na elaboração de uma gramática desta língua que já tem uns anos.



sábado, 15 de junho de 2024

AOS POETAS QUE AINDA SE VESTEM DE POETAS, AOS FILÓSOFOS QUE AINDA SE VESTEM DE FILÓSOFOS, AOS ARTISTAS QUE SE VESTEM DE ARTISTAS, AOS CIENTISTAS LOUCOS QUE SE VESTEM DE CIENTISTAS LOUCOS...


Eu sou de um tempo em que havia uma farda para os Poetas, os Filósofos, os Artistas e os Cientistas Loucos e, assim, quando íamos na rua, olhávamos e dizíamos aquele é Poeta ou é Filósofo (a farda era parecida) ou Artista (a farda mais bonita era a dos Artistas). O Cientista Louco era diferente de todos os outros e era fácil de reconhecer, mas já nesse tempo eram raros.
Hoje, restam poucos exemplares desses grupos, e as pessoas sentem-se perdidas. Os Poetas ficaram ermos de si próprios e os Filósofos foram obrigados a despir a farda e a misturar-se com a gente comum. Os Cientistas Loucos transformaram-se em engenheiros.
Os jovens não são como eu era e já não os reconhecem na rua. Os jovens preferem ter alma de viajantes e partir num barco à descoberta de um mundo por descobrir.
Ah, mas ficaram os Artistas, os únicos cuja farda é a própria pele do corpo e não precisam de se arranjar antes de sair à rua, porque eles também navegam num barco à descoberta de um mundo por descobrir.



IMAGEM DE UM POETA COM FARDA

domingo, 25 de fevereiro de 2024

HAJA DEUS

 Pego no livro. Na capa, o título, o nome da autora e em destaque - "Obra recomendada pelas metas curriculares de Português para o 4º ano de escolaridade. Plano nacional de leitura."

Vamos ler, penso eu. O número de páginas coloridas de entrada não me agrada. Umas frases poéticas de cliché e uma declaração em página com fundo branco: Por vontade expressa da autora, o texto desta obra não adopta as normas do Acordo Ortográfico de 1990. Continuo. Páginas com fundo azul claro, cinzento claro, rosa claro em que texto é aberto em caracteres brancos. O texto é longo e (desculpem) pateta.
Que sorte que eu tive! Quando andava no quarto ano lia textos com letras pretas sobre fundo branco. Os textos eram escritos com a Ortografia que a professora me ensinava. Foi no 4º ano (4ª classe como se chamava então) que me apaixonei pela leitura ao ler textos que falavam de búfalos, de caçadas, de desertos e tinham descrições extensas que me faziam sonhar. Não lia textos patetas sobre a bruxa boa que saltava de flor em flor.
No 5º ano (então primeiro de um novo ciclo) deslumbrei me com o terceiro bloco de "O Suave Milagre", com "A Aia" e com a descrição da subida para Tormes de "A Cidade e as Serras" ("Serra bendita entre as serras!"). As histórias tinham sempre uma ponta de mistério e de aventura que me faziam ler sem parar. O suspense era tanto que às vezes tinha de ir espreitar o fim.
Que sorte que eu tive de não darem a ler estes textos xaroposos, tão mal apresentados que exigem um bom par de óculos ou uma lupa e uma infinita paciência. (Não menciono autor nem editora, mas são proeminentes. Haja Deus!)

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

O TRIO DOS QUATRO

Não via há muitos anos as notícias nos canais da TV portuguesa, mas ultimamente espreito e sigo caminho. Vejo pouca televisão, em geral para descomprimir um pouco o que é difícil. Leio as notícias de várias fontes noticiosas estrangeiras durante o dia e quando me interessa algum artigo de opinião.

Em tempos, (creio que há seis anos ou mais) seguia o eixo do mal e outro programa do mesmo tipo na TVI cujo nome me não ocorre, mas desisti por não suportar tanta baboseira. Ontem, reincidi, porque liguei exatamente quando o dito eixo estava a começar.

Acalmem-se. nem metade vi, mas pasmei com a alegria daqueles “inimputáveis” sobre a crise em que o país está mergulhado e o retrocesso que dela virá. Não merecem qualquer respeito os comentários de chacha do Pedro Marques Lopes que além de patetas não tinham sequer um fio lógico, a alegria exuberante do idolatrado Daniel de Oliveira face a esta crise e ao desmoronar da esquerda (que para ele é direita), e as profecias de calamidade da Clara Ferreira Alves. O único que mostrou alguma preocupação e seriedade nas palavras foi o quarto comentador, o representante da direita cujo nome esqueci. Este quarteto palrador não tem nada a ver com esta crise, passem embora os artigos demolidores do Oliveira contra o António Costa e o governo, as palavras arrasadoras dos outros, e toda a campanha violenta contra este governo que os quatro conduzem há anos. Nós temos responsabilidade porque fomos votar. Eles não, porque com o seu olho desvendador já sabiam o que ia acontecer.

E falam das eleições na Holanda (Credo! Abrenúncio!) com mal-escondido agrado (“Eu bem tinha dito! “Claro, o Ventura vai vencer!” “Nós já sabíamos.”) E esfregam as mãos de contentes, porque o Ventura nunca terá melhores arautos e o emprego deles está garantido. Com estes comentadores sem qualquer formação ou informação a não ser a conversa de café, a extrema-direita está garantida porque bem ou mal ela exprime preocupação com a crise e, embora enganadoras e perigosas, apresenta alternativas e também adora estes patetas de esquerda e de extrema-esquerda que não têm responsabilidade por nada.



terça-feira, 7 de novembro de 2023

SONHAR É FÁCIL - Duas histórias com UN happy end

 A senhora mora numa Junta de Freguesia lisboeta, com muito comércio e escritórios, aonde a EMEL ainda não tinha chegado e isso deixava-a desesperada. Caminhava para a Junta de freguesia e fazia um pé de vento, exigindo que a sua reivindicação fosse atendida, moveu céus e terra, convencida que uma vez a EMEL instalada ia ter um lugar de estacionamento privativo.

 

A EMEL chegou finalmente. Agora a denodada senhora tem sempre o carro na garagem.

— Nunca tenho lugar. Quando há um lugar, aparece sempre alguém e eu não posso sair para lado nenhum, só à noite e mesmo à noite é difícil.

— Ah, pois é. A quem o diz.

 

Esta outra rotunda senhora mais o estimado marido, ambos velhos a cair da tripeça. estavam hoje radiantes. Na Note do Fonte Nova ofereciam champanhe e marisco a quem quisesse celebrar com eles a demissão do Governo de António Costa, convencidos que a inflação vai acabar, os médicos e todo o pessoal de saúde vão ter aumentos supimpas e horários fantásticos, um fila interminável de empregos vai surgir, os professores vão subir tantos escalões que correm o risco de pousar numa nuvem, a ordem vai reinar, os imigrantes não põe cá mais o pé, a TAP vai ser sucesso, as casas vão ser baratas para quem as alugar, se forem eles os inquilinos, mas caras se forem os proprietários, os bancos vão distribuir os lucros pelos clientes, enfim…

— A pouca vergonha vai acabar!

— Ah, pois vai! A quem o diz,




sexta-feira, 13 de outubro de 2023

E, NO ENTANTO, AMBOS “FALAM DO SEU PRÓPRIO TEMPO

 

"Um teatro, uma literatura, uma expressão artística que não fale do seu próprio tempo não tem relevância." Dario Fo

 

Quem sou eu para contrariar o teu ímpeto revolucionário, ó Dario, mas, para mim, tudo fala do "seu próprio tempo", nem que seja através da mediocridade ou da banalidade. A literatura de cordel, os textos gongóricos e inflamados do séc. XIX (e não só), o Dantas, os dantinhas e os dantescos, as telas poeirentas e esquecidas, as partituras que as traças vão devorando ou já devoraram, o teatro das feiras e do adro das igrejas, tudo fala da sua época.

 

Pois tudo que o ser humano produz, e que é ou pretende ser arte, espelha uma vivência, uma inspiração, um desejo de comunicar, uma vaidade, ou um pedido de ajuda.

 

Conhecida ou ignorada, a produção “artística” de uma época traduz a realidade de uma forma subtil, mordaz, incisiva, ou sem força ou interesse, mas nela tanta informação sobre uma comunidade, uma cultura, um lugar, um período no tempo.

 

O mérito de um legado requer o reconhecimento dos que o observam, dos que o analisam, promovem ou ignoram.  Só alguns conseguem atingir o alvo com tal impacto que permanecem e cabem na tua frase, Dario.

 

Mas se muitos alcançam relevância mesmo que assente na mediocridade, (morra o Dantas! Pim!), outros vivem na obscuridade apesar do brilho do que produzem. Talvez venham a ser descobertos mais tarde, ou não. Não é verdade, ó Vincent?

 

E, no entanto, ambos “falam do seu próprio tempo”, ó se falam!

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Novíssima Cartilha Ilustrada", uma sátira à "Cartilha Escolar (Ler, Escrever e Contar), de Domingos Cerqueira,(1912).

Uma paródia, de Pedro Monteiro e de Rodrigo Monteiro, ao método designado analítico-sintético, usado nas cartilhas de de aprendizagem da leitura e da escrita adotadas no início do séc. XX para alunos da 1ª classe. O conceito de livro único ainda não existia. Vai chegar no tempo de Salazar com o célebre "Livro da Primeira Classe". No período da República havia pois várias cartilhas e todas enfermavam dos aspetos ridículos que Pedro e Rodrigo Monteiro satirizam de uma forma excelente. 

Como hoje é o dia em que se celebra a implantação da República, queria apenas lembrar que, apesar dos aspetos realmente absurdos destes livros, foi feito, neste período, um esforço notável de construção de escolas e de alfabetização de um país praticamente constituído por analfabetos. Este esforço foi depois continuado no período salazarista com uma mais bem montada estratégia de separação de classes e de formação de um grupo de trabalhadores submissos e disciplinados. "O Livro da Primeira Classe", publicado em 1941 (apesar de haver tanta gente, incluindo o próprio Ministério da Educação que ignora a data exata dessa publicação) é um exemplo de um livro que serve de uma forma certeira e despudorada um objetivo. Até as maravilhosas ilustrações de Raquel Roque Gameiro, a quem presto a minha homenagem, contribuem de uma forma eficaz para jamais o esquecermos. Mas, na verdade, e aprendi a ler por esse livro, o que nos fica na memória são essas imagens belíssimas e alguns poemas ingénuos. Só muito mais tarde me apercebi do conteúdo ideológico do livro. E isso talvez se deva ao facto de as pessoas viverem de tal modo imersas na beleza estética do próprio livro que ficavam indiferentes ao seu conteúdo. Eu andava num colégio de freirinhas que nos levavam a desfiles e paradas. Içava a bandeira nacional, vestida com a farda da mocidade portuguesa, no dia 1 de dezembro, porque era loirinha e bonita e isso condizia melhor com o aparato do momento. Mas, questões de feitio, nada daquilo me tocava, nem as missas, nem as paradas, nem os hinos. Ficava tudo à flor da pele. 




DE NOVO "PARASITAS" OU A TECNOLOGIA COMO UMA ARMA


Vou voltar aos "Parasitas". Insólito e profundamente "metafórico" (uma das palavras mais usadas neste filme). O telemóvel aparece como uma arma - uma pistola ou uma metralhadora que te manieta e te impede de fugir.
Imaginem dizer "Mãos ao ar!", apontando um telemóvel.




quarta-feira, 13 de setembro de 2023

UM MUNDO EXTREMAMENTE COMPLEXO

 Ontem assisti a uma grande parte do debate na RTP1 sobre a crise do jornalismo. Só desisti quando se começou a tornar obsessiva na minha mente a imagem de um grupo de aves de grandes e afiados bicos a tentarem com golpes certeiros partir uma pedra, talvez um ónix ou um diamante.

As aves eram os convidados, os golpes certeiros as intervenções. Todas acertavam na pedra. A pedra era a complexidade do mundo em que vivemos e a insolubilidade do problema que discutiam.