quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

JARRA COM RAMINHOS DA MINHA OLIVEIRA


“Ao entardecer, quando a pomba voltou, trouxe uma folha nova de oliveira no bico. Noé então soube que as águas tinham diminuído sobre a terra.”

Hoje cortei alguns ramos da minha oliveira, a árvore que vai crescendo em minha casa. Já tem um tronco lenhoso com alguma grossura. Em tempos foi uma bonsai que libertei. Viverá depois de mim e espero que continue a engrossar e a encher-se de minúsculas flores e de negros frutos quando eu já não a vir.



terça-feira, 23 de novembro de 2021

O RAP DAS CONVERSAS EM FAMÍLIA

Afundada no marasmo televisivo noturno procurava qualquer coisa que pudesse entreter-me uns minutos antes que o sono me obrigasse a ir para a cama. Tarefa difícil porque talvez eu seja uma telespectadora também difícil.

No desenrolar do zapping descobri que havia um programa de “humor” na SIC com aquele RAP que nunca apreciei. Mas enfim… humor faz falta.
Parei uns minutos a ouvir. Que tristeza! As gargalhadas de uma vasta assistência, arrancadas seguramente por letreiros que diziam “RISO”, alertavam o espectador para o facto de que se tratava de um programa de humor, coisa de que ninguém suspeitaria.
Lembrei-me das “Conversas em família”, de tempos remotos. O que o RAP debitava, com tiques repetitivos e enfadonhos, tinha tanta graça como as palavras do professor. Esse procurava alertar a audiência para os perigos do comunismo. O RAP para os perigos deste governo.
À medida que o cabelo lhe vai caindo vê-se apenas a ambição que vai crescendo naquela cabeça e ocupando o lugar do humor, da sabedoria e da inteligência. Sim, porque, meus amigos, a fama que este homem ganhou de ser inteligente espanta-me. Eu sei que na terra dos cegos quem tem um olho é rei. Mas estou prestes a descobrir que quem é cego também.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

"O DESPERTAR DOS MÁGICOS"

Que Louis Pauwels e Jacques Bergier me desculpem por me apossar do título do seu bestseller “Le Matin des Magiciens”. Em abono da verdade desta obra que li e apreciei há muitos anos apenas restou o título.

 Agora sirvo-me dele para designar este renascer da vida que se convencionou chamar DESCONFINAMENTO e que se desdobra em sessões de apresentação de obras literárias e não só, concertos, inaugurações, corridas, caminhadas, promessas de mudança de vida, promessas de salvação, promessas de amor, numa ânsia de recuperar o tempo perdido.

Tão forte é a noção que este período de “isolamento” nos deu da fragilidade da Vida que um assomo de loucura assola o planeta. Mas também um grito de liberdade que nos garante que essa mesma Vida permanece para além de nós. Os mágicos somos nós porque temos a suprema honra de possuir Vida mesmo que durante um tempo limitado.  




quarta-feira, 6 de outubro de 2021

CORONAVÍRUS (COVID-19): ORIGEM, SINAIS, SINTOMAS E TRATAMENTO

Tanto alarido para saber a origem deste vírus que nos tem ameaçado o planeta, tanta corrida às vacinas quando a resposta está num filme que vi ontem à noite na RTP MEMÓRIA.

“Cassandra Crossing” é o título, o elenco é de cortar a respiração, o que aliás se insere no tema.

Imaginem que uns terroristas assaltam a sede da OMS na Suíça, para a mandar pelos ares. Perguntar-me-ão o que os move e a mando de quem atuam. A resposta não nos é dada, porque acontece um incidente terrível. Entre o tiroteio, penetram numa sala onde estão guardados terríveis vírus de uma espécie de gripe que ataca o sistema respiratório e é fatal. Tomam literalmente banho nesse líquido.

Um dos facínoras acaba vítima do vírus e o outro foge para um comboio que sai (não percebi bem donde) e que atravessa a Europa (também não percebi bem o percurso, mas era extenso) com destino a Estocolmo.

Aqui entra o Burt Lancaster em ação e, usando uma estratégia militarista, consegue isolar o comboio onde o facínora já contagiou uma série de passageiros.

O Burt resolve (porque não vê outra solução) mandar o comboio para o tal Cassandra Crossing, sítio perigosíssimo, com uma ponte muito comprida que já não é usada desde 1948.

O drama adensa-se, mas no comboio vão a SOPHIA LOREN E O MARIDO QUE É UM MÉDICO FAMOSÍSSIMO (não sei o nome do ator) que ajudam os enfermos com muitos beijos e abraços. Eles são imunes ao bicho, porque como explica o sapiente médico: “SÓ ATACA ALGUNS, NÃO SE SABE PORQUÊ”. E DESCOBRE MAIS QUE HÁ CURA SE SE SUJEITAR OS PACIENTES A UMA DOSE MACIÇA DE OXIGÉNIO.

A ponte é um perigo mortal e, depois de muitos tiros e grandes peripécias, o médico e a Sophia conseguem dividir o comboio a meio e só a parte da locomotiva com MUITAS!!! carruagens atravessa a ponte que se desfaz em pedaços e elas também.

Calma! O Burt também pensou que o assunto estava resolvido, mas não, porque afinal, nas carruagens que se salvaram ia praticamente toda a gente, que desatou a correr pelos campos fora, jurando nunca mais fazer viagens de comboio.

Moralidade: O BURT FOI PARA CASA A PENSAR QUE TINHA ERRADICADO O MAL DA FACE DA TERRA, MAS OS PASSAGEIROS LEVAVAM O VÍRUS E ESPALHARAM-NO PELO MUNDO.

Mas a cura é fácil. No comboio só morreram dois, de causas secundárias, como explicou o médico, olhando os falecidos. NÃO FOI DO VÍRUS. (o comboio foi entaipado e mandavam oxigénio para as carruagens o que salvou o pessoal)





terça-feira, 5 de outubro de 2021

O CHEIRO COM QUE SE NASCE

"Parasitas" é um dos melhores filmes que poderá ver este ano, e certamente o mais louco," Sarah Marrs, em 2019.
Concordo com a opinião desta jornalista. Este é um filme em camadas que se vai digerindo lentamente. Não tem aqueles tiques, clichés e banalidades a que nos vamos (ou não) habituando. É diferente. Entre a comédia, o drama e o thriller, esta feroz crítica à sociedade capitalista coreana adapta-se a todas as outras sociedades capitalistas asiáticas e, mudando ligeiramente o cenário, às ocidentais.
Não, não é um filme de tese ou de rebuscada reflexões em que nos perdemos ou adormecemos!
É uma história que nos prende até pela imprevisibilidade das situações que nos apresenta. É uma história como um bolo, construída em camadas.
Não vou contar o enredo, mas as três camadas são bem visíveis: uma subterrânea, semelhante a um túmulo, o dos vivos-mortos; outra, ainda subterrânea, a cave, com meia janela para a rua, por onde se vêem as pernas das pessoas que passam, o lixo a ser despejado, e alguém que urina a um canto, justamente junto da janela. Finalmente chegamos à camada do sol, da belíssima arquitetura, da música, da arte, das terapias. dos jardins e do ar livre.
Como diz uma personagem do filme: a pobreza enruga-nos. O dinheiro passa-nos a ferro. Liberta-nos daquelas rugas da alma que nos impedem de apreciar uma bela música, um excelente quadro, uma paisagem. em suma, que nos impedem descobrir a beleza da vida.
Mas a pobreza é um cheiro que se agarra às pessoas e que os ricos detetam com apurado olfacto.

terça-feira, 27 de julho de 2021

A NOVA RENASCENÇA

2000, entrada de mais um século.

Muito se escreveu no patamar e na entrada deste novo século. Os profetas, astrólogos e outros humanos clarividentes saudaram o nascimento da era do Aquário com todas as maravilhas e grandezas que ela arrastaria. O Homem do 21 seria azul, fraterno e pacífico.  

De santo, poeta e louco todos nós temos um pouco. Por isso, passados 21 anos sobre essa majestosa entrada de mais um túnel do corredor do tempo, atrevo-me a comparar este século 21 com uma nova Idade Média, na esperança de que, sob esta capa de mediocridade, violência e fanatismo, forças de luz (linguagem esotérica) e de sabedoria (bis) estejam a fermentar e um novo Renascimento artístico e cultural desabroche. Pois nesta grande paisagem feita de fragmentos e de lixo, a qualidade e a beleza estão soterradas sob a intransigência, a obstinação, a cegueira e a ambição do lucro que ergue em altares bezerros de oiro e queima na fogueira os arautos de um tempo que há-de vir. O som ensurdecedor das palmas contrasta com a fímbria do silêncio dos que não ousam nem podem fazer frente a esta onda gigante.

Qual será a nova Itália que nos trará essa Renascença?  Que Galileu será obrigado a negar o seu pensamento? Que escribas e iluministas continuam seu trabalho em recônditos lugares onde não chegam os jornais, as televisões, nem a internet? Ou será a rede virtual que liga os homens de todos os credos o seu veículo?

Não sei responder. Mas estou certo que ela está em gestação e desabrochará quando de nós só restar o pó.

Onde recolhi esta informação? Na minha bola de cristal, pois claro. 



segunda-feira, 26 de julho de 2021

QUANDO O FRANCISCO TINHA DOIS ANOS: NA MINHA BOCA

O Francisco não se cala um minuto. Sentado atrás de mim no carro vai palrando. Às vezes nem compreendo os longos discursos que ele faz. Mas tudo o deslumbra como se o mundo fosse um baú maravilhoso recheado de coisas fantásticas.

Hoje fica encantado ao descobrir que há água para limpar os vidros do carro.
- O teu carro tem água?
- Muita água, Francisco, para lavar os vidros que estão muito sujos.
- Leva à lavagem.
- Claro que sim. Já foste à lavagem com o papá?
Segue-se uma longa e complexa explicação sobre o local onde o papá leva o carro à lavagem que termina com a pergunta:
- E tu?
- A minha lavagem é perto da escola do Francisco.
- Gostas da lavagem verde? - pergunta ele.
Primeiro digo que não, mas como ele insiste na pergunta digo que sim.
- E da encarnada? E da amarela? E da azul? E da preta?
Fico baralhada, mas penso que ele viu lavagens de diferentes cores no YouTube.
- Onde é que o Francisco viu essas lavagens? No YouTube?
- Não.
- Então?
- Na minha boca.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

RESPEITO!

Ontem ao rever mais um episódio das "Inesquecíveis viagens de comboio", voltei à Colômbia. Já lá tinha estado, mas um pouco distraída.

A Colômbia, esse país de má fama, do narcotráfico, dos gangues e dos ladrões, o lado que nós conhecemos e que nos é vendido com meticuloso afã.
A Colômbia, um país de gente trabalhadora, que planta café e bananas em íngremes e deslizantes encostas, que transporta às costas fardos pesadíssimos, que calcorreia quilómetros, que vive subjugado pelo gigante americano que lhe suga a riqueza, o trabalho e o suor, tal como outrora a cristianíssima Espanha destruiu a sua cultura e pilhou as suas terras.
Phillipe não consegue perceber o amor que os colombianos continuam a dedicar a Paulo Escobar. Mas eu acho que os compreendo, apesar de todos os crimes que a traficância de droga provocou. Ele fez frente ao estrangeiro, ele esteve muitas vezes ao lado desta gente pisada e sofredora. E mais ninguém fez isso.
A grandeza dos incas sobreviveu na arte e neste magnífico povo. Quando comeres uma banana da Colômbia, quando beberes uma chávena de café da Colômbia, lembra-te desta gente que dobra "a espinha" e transforma o corpo em guindaste para que te delicies com os seus sabores, degustes as suas ostras cantantes, e ostentes as suas cristalinas esmeraldas.
RESPEITO!



quinta-feira, 1 de julho de 2021

CRIME, DIGO EU

A RTP2 TAMBÈM NOS OFERECE GRANDES PASTELÕES (para não usar uma palavra mais suja mas adequada)

Durante muitos anos deliciei-me com os livros da Agatha Christhie. Talvez fosse uma forma da alienação, dirão os intelectuais puros, mas eu lá me fui alienando.

Histórias com muitas personagens. ambientes sofisticados, casas senhoriais muito British, uma complicada rede de acontecimentos e um assassino insuspeito. A meio da acção lá ia adivinhando ou tentando adivinhar quem seria o escolhido.

Mas nos "Diez negritos", porque o li em espanhol, não consegui.

Passados tantos anos, a RTP2 brinda-nos com a adaptação à época moderna desta história, "No Início, Eram Dez...", feita por um grupo de idiotas franceses.

Numa ilha tropical... vista do céu.

- "Ó pá arranja umas centenas de velas, umas bonecas velhas,, uns terços, umas velharias de vudu, muitas folhas, umas mulheres boas, pelo menos um indivíduo de tez escura para dar um ar cosmopolita, mais uns idiotas, uns tantos bichos tenebrosos: aranhas, escorpiões, cobras, etc., vai aos adereços e traz todo o lixo que encontrares.

Arranja uns sons tenebrosos, gritos, ranger de dentes e de correntes, suspiros e suspeitas, ribombar de trovões... Mistura tudo numa caldeirada.

Aos atores nem precisas de pagar, porque pouco têm a dizer, mas muito têm de correr e o exercício só faz bem. Correm em grupo que assim recebem todos por igual, sendo que temos de considerar o número de episódios em que aparecem. Os que morrem mais cedo ganham menos, percebido?

Tá PRONTO. Manda prò ar!"

Lá se foram os meus diez negritos. Dá-se um prémio a quem conseguir ver todos os episódios.

terça-feira, 29 de junho de 2021

DECIDIR NO MUNDO DOS POKÉMON

Ontem, o Francisco introduziu-me ao mundo dos Pokémon.

Encontrei-o a atravessar o parque com o irmão. Segurava nas mãos, com cuidado, uma caixinha de folha.
- Que bonita caixinha, Francisco.
Esta foi a senha de entrada no mundo dos Pokémon!
“São cartas dos Pokémon “preciosas e raras” … etc., etc.
As do arco-íris são as mais valiosas, mas há muitas outras nesse mundo complexo criado pelos japoneses onde sete cartas de Pokémon TCG valem mais do que um carro dos baratos, está claro.
Então já perdida em tanta informação longa e complexa, à mistura com palavras inglesas, ouço o Francisco dizer:
“Mas eu decidi…”
Aquele dez reis de gente que fala que se desunha, que paga em sacos peados e não quer que ninguém o ajude, já decide.
Compreendo. Francisco, queres ser igual aos teus heróis, o pai e o irmão mais velho.



domingo, 27 de junho de 2021

A NOSSA VELHA E QUERIDA ALIADA

Desde a época do Tratado de Methuen que a nossa "aliada" Inglaterra nos tem brindado com dedicação e carinho enternecedores.

Pese embora quem veja aspetos positivos no referido tratado, eu só consigo enxergar o atraso a que este tratado votou o país e como, ironia das ironias, no Tratado dos Panos e Vinho nós ficamos sem os panos e sem o vinho, porque os ingleses logo foram ocupar as opíparas quintas do Douro, bem instalados, nutridos e enriquecidos.

Isto é o que eu enxergo, mas os ingleses enxergaram isto mesmo e mais. Enxergaram um povo de analfabetos governado por um grupo de aristocratas que só queria engordar os seus proventos, e dominado por um clero que lhes ensinava a obediência e o valor do sifrimento para lhes garantir um lugarzinho no céu.

Portanto, esta vida não interessava, só a que vinha a seguir. O 007 ainda não tinha descoberto que só se vive 2 vezes e naquela época só se vivia 1. Portanto era penar e aguardar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SOBRE O DESAPARECIMENTO DAS LIVRARIAS (consaiderações ao correr da pena)

Silenciosamente ou com um discreto ruído há muito tempo que as livrarias têm vindo a fechar. Não é um fenómeno lisboeta ou português. O mesmo acontece em toda a Europa e provavelmente em todo o mundo.

O livro em papel continua, no entanto, a ter o seu lugar de destaque, mas é quase sempre vendido online, através das grandes distribuidoras internacionais e nacionais, enquanto existir público que valorize a sua existência.
A mesma hecatombe atingiu as pequenas e médias editoras, absorvidas pelos grandes grupos ou simplesmente abandonadas. A Europa-América cuja livraria na Av. Marquês de Tomar, em Lisboa, organizou todo o tipo de estratégias para se manter, acabou por sucumbir.
Dar importância ao livro e através dele a de todos os que escrevem passa pela sua divulgação em clubes de leitura, em tertúlias, em feiras, etc.
Para suster esta mortandade cabe a todos nós desenvolver o gosto pela leitura, mas não como é feito na maioria dos estabelecimentos de ensino, que transforma o ato de ler num pesadelo.
O gosto pela leitura nos mais jovens cria-se não através da imposição de livros eruditos mas começando pelos livros de aventuras, policiais, ficção científica, livros humorísticos, insólitos ou surreais, romances com enredos intrincados, mas sobretudo através de uma grande liberdade de escolha e de troca de opiniões e de sugestões.
Na disciplina de Português, sim, cabem alguns clássicos e é importante que os alunos tenham uma noção da nossa história literária e de textos dos nossos grandes autores.
A minha censura vai sobretudo para os chamados livros de leitura obrigatória que a maior parte das vezes não passam de mais um truque para a super-editora vender uma carrada de livros. E se o livro é chato, como tantas vezes acontece, há já um série de resumos e de respostas na Internet que permite contornar o sacrifício. Felizmente parece-me que há já muitas escolas que rompem essas imposições e escolhem com liberdade.
E por favor não se esqueçam da leitura em voz alta feita por uma pessoa de carne e osso. Uma forma de aliciar os jovens para a leitura.

sábado, 1 de maio de 2021

MUGUET, LA FLEUR DE L´AMITIÉ

O muguet é uma flor dicreta, rara em cultivo ao ar livre, pouco apreciada entre nós. É a flor da amizade, dizem os franceses.
Realmente, a amizade é DISCRETA, RARA e PERFUMADA, como esta flor.
O meu comentário não envolve remoque ou censura, porque a amizade, tal como o amor, faz-nos sofrer quando vemos os nossos amigos doentes, ameaçados, tristes. O nosso coração não suporta esse infinito sofrimento. Vamos, pois, selecionando os amigos, aqueles a quem a vida nos foi ligando, através de um cordão tecido no passar dos dias, dos meses e dos anos.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

HERMAN JOSÉ, O PROFETA OU O VISIONÁRIO

 



Muitos Portugueses (senão todos) se riram com as personagens dos shows do Herman José: do diácono Remédios, passando pela Maximiana, o José Esteves, o Melga, o Tony Silva, a Filipa Vasconcelos, a Marilu, a fadista Dona Maria Francisca Calçada Pardoca de Carriche, o Nelo (e Idália), etc. etc., a tantas outras caricaturas a traço grosso da realidade lusa.

Não pensávamos que as caricaturas se transformassem em realidade e o nosso quotidiano fosse invadido por elas. Não pensávamos que as íamos encontrar na rua ou a falarem em programas "sérios" de televisão.

Por isso, o Herman José perdeu ao audiência. Que significado tem um José Esteves quando qualquer talk show futebolístico tem um conjunto de José Esteves, a Marilu se senta no café ao nosso lado e as suas conversas são decalcadas da personagem televisiva, o Melga não pára de melgar, o Tony Silva multiplicou-se por 1000 e há dinheiro para todos? De resto os meus leitores facilmente farão a transposição entre a caricatura e a realidade.

Sim, somos assim, irremediavemente provincianos. Só nos falta tomar o chá de luvas. Portugal tornou-se num Herman show.

terça-feira, 6 de abril de 2021

SOBRE OVELHAS E CABRAS E RESPETIVAS FAMÍLIAS

ETIMOLOGIA

Uma parte destes dados baseia-se no Atlas Linguístico da Península Ibérica, de Luís Filipe Lindley Cintra e Otero Alvarez.

 Os três nomes para a cria de carneiro e ovelha:

anho, do latim agnus 

cordeiro, do latim vulgar cordarius (ou chordariu), derivado de cordus (ou chordu), “tardio”, “tardio em nascer”, porque os agni cordi eram os cordeiros nascidos tardiamente, em fevereiro em vez de novembro ou dezembro. 

borrego deriva de borra, “lã grosseira”, do latim tardio burra ou burru, através do castelhano borrego

Estes nomes variam de acordo com a região do país. Na Beira Alta diz-se “anho”.

Ovelha, do latim ovicula, diminutivo de ovis, portanto “ovelhinha”.

Carneiro, do latim “carnariu, “de boa carne”.

Cabra, do latim "capra".

Cabrito, diminutivo de “cabra”, cria do bode e da cabra.

Bode, palavra de origem incerta, o macho da cabra, também chamado cabrão.

Bode expiatório, o bode que, na festa das expiações, os judeus expulsavam para o deserto, depois de o terem carregado com as maldições que queriam desviar do seu povo.

A FAMÍLIA DA OVELHA E A DA CABRA

Enquanto a família da ovelha é um símbolo de pureza (agnus dei, a ovelha do presépio, tudo brancura e inocência) ou de riqueza (o carneiro), a desgraçada família da cabra tem não só o cabrão, como o bode expiatório, como está associado em diferentes culturas às forças da “libido”, logo malignas, ligadas com o demónio e a feitiçaria (A Dama de Pé de Cabra, de Alexandre Herculano, os judeus em Gil Vicente e não só, etc.)

Sobre o bode podia escrever-se um tratado. As forças da libido sempre foram mal vistas pelos puros, embora sejam elas que nos ligam à vida.

Deixa lá, CABRA! Resistente e heroica CABRA, eu sou CABRAL como tu.  

 



 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

O INVENTOR DA RODA

Ele é a síntese da banalidade, o génio do lugar-comum, o inventor da roda, o homem que nos conta as novidades do ano passado como se fossem um "furo" jornalístico que ele conseguiu, o homem que nos quer maravilhar com a sua ciência de almanaque.

Ele tem um grande número de seguidores que se sentem ofuscados com tanta "sabedoria", que o veneram e beijam o chão que pisa, o que nos deixa sem fé alguma na Humanidade.



domingo, 28 de março de 2021

DIA DO LIVRO PORTUGUÊS (26 de MARÇO)


Nesta data, li entre muitos oportunos e enriquecedores posts uma série de ataques ao que hoje se escreve e se publica. Estas críticas que negam tudo o que se faz ou a maioria das coisas que acontecem na nossa época não são originais. Creio que aconteceram ao longo dos tempos, sem FB, Twitter, Instagram, LinkedIn, etc. Hoje, como sempre, estas críticas assentam numa complexidade de razões, de que destaco apenas a rejeição ou incompreensão das mudanças lentas ou rápidas da sociedade.

!. In diebus illi (aqui está o busílis da questão), também muitos críticos protegeram a entrada no templo da arte a nomes que a história viria a recuperar, assim como incensaram outros que a história mais cedo ou mais tarde esqueceria. Lembro-me de Pinheiro Chagas, um grande ícone, do insigne Júlio Dantas, do mais modesto Tomaz de Figueiredo e tantos outros nomes que a memória apagou.
Outros, pelo contrário, foram quase esquecidos (por falar em esquecimento, também eu me esqueço de muitos nomes. Fruto da idade) e sobre eles caiu o rótulo de “indignos” de figurarem na história da literatura. O exemplo que me ocorre de imediato é o de Alexandre Dumas, o homem que deliciou e delicia milhares senão milhões de leitores com a sua obra. Tão indigno era este exímio contador de histórias que, na sua época, não teve direito a ser sepultado, no Panteão Nacional, ao lado dos grandes. Só graças a Jacques Chirac aí entraria, embora continue a ser considerado pelos guardiões do mausoléu dos “puros” um escritor menor, que jamais citariam como fazendo parte das suas leituras. No entanto, o genial Victor Hugo prezava-o como grande escritor, o que não acontecia com outros “clássicos” da época.

2. Este fenómeno de rejeição ou de “capelinha” ocorre em todos os ramos da arte. E o exemplo clássico é o de Van Gogh, o pintor louco, que jamais poderia ter sucesso, com os seus círculos alucinados e pouco “dignos” de figurarem numa história da arte que se preze. Após a sua morte transformou-se numa verdadeira mina de ouro. Afinal os círculos alucinados também eram arte.

3. Voltando à nossa época e a todas as épocas, quantos não terão sido esmagados para não entrarem na sacrossanta galeria dos nomes artísticos. Em Portugal tivemos uma tímida, mas genial tentativa de introduzir o slang no romance. Céus! Que indignidade. Parados no tempo não permitimos que os parâmetros literários mudem. Enquanto em muitos países, Estados Unidos, Reino Unido, França, etc., as inovações literárias vão fazendo o seu percurso, nós permanecemos ajoelhados, orando.

4. Hoje temos em Portugal uma geração mais nova que escreve e é digna de ser lida. Deixemos que ela se alargue e que os nossos jovens não sintam medo de não escreverem de acordo com os padrões e ideias de uma preclara elite. O tempo inexoravelmente os julgará, mas ficaremos seguramente mais ricos. Não se sintam tão incomodados por haver tantas publicações. Umas terão qualidade outras não, mas a fogueira da inquisição ou a dos nazis já não existem. Repito, o tempo roda e das sementes lançadas à terra só algumas vingarão, o que não impede a sementeira.

5. Quanto aos clássicos, abençoados sejam, e jamais esquecidos.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

OS ESPECIALISTAS

 Este post é uma homenagem aos PROFESSORES. Como em todas as classes há alguns que não merecem ser referidos com letra grande, mas isso acontece em todas as classes profissionais.

O Professor é um semeador. Deita a semente à terra e gosta de a ver desabrochar. Imaginem um semeador no seu gesto bendito. Imaginem um campo. O campo pode ser de terra negra e fofa, de terra seca ou cheio de rochas.  Todos exigem esforço e o semeador precisa de se concentrar no trabalho. Agora imaginem de cada lado do campo um bando de gente com fisgas prontas a atirar pedras, armas de fogo, bombos de festa, numa gritaria infernal.

Os da fisga atiram pedras e gritam vai por outro lado. Os da pistola apontam aos pés do semeador para o obrigar a mudar o rumo. Os do bombo gritam sentenças sobre como se deve semear. Todos acham que o semeador não faz florescer as pedras, nem obtém grandes resultados no terreno ressequido porque não ouve as frases que lhe gritam nem segue o caminho que lhe sugerem. E semear é fácil, dizem eles. Estes são os especialistas.

Agrupam-se em camadas. Na camada superior temos aqueles que floresceram com os mestrados e doutoramentos nas chamadas Ciências da Educação. Este grupo subdivide-se nos que têm e continuam a ter experiência directa com os alunos e que afinal até percebem alguma coisa do assunto, e os que, atingido esse grau, nunca mais tiveram experiência com alunos ou, em verdade, nunca na vida a tiveram e apenas contactaram com alunos do ensino superior (na maioria das vezes, um contacto de terceiro grau). Para estes as facilidades da função do professor de qualquer nível de ensino são imensas e poderosas e na sua boca o professor é um verdadeiro prestidigitador.

Vem agora a segunda camada de especialistas. Os licenciados e doutorados noutras áreas, que também fizeram estudos, sabem falar e sabem escrever e, que raio! ensinar é uma tarefa que não mudou assim tanto. Por isso, também têm opinião sobre a matéria e ideias revolucionárias sobre o assunto. Peroram a toda a hora na televisão, na rádio, nos jornais. São assertivos, patetas e perigosos.

Vem finalmente a terceira camada, a dos bombos e da gritaria, ou seja, o resto da população. Porque ter opiniões sobre o que ensinar ou como ensinar toda a gente pode ter: os pais, os avós, os encarregados de educação, o merceeiro, o taxista, o motorista, o limpa-chaminés, o oftalmologista, o pediatra, o carpinteiro, o canalizador ou picheleiro, etc., etc.

No cartoon figuram apenas os especialistas da primeira camada.

SER PROFESSOR não é fácil. Refiro-me obviamente àqueles que o são e são muitos.




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

CALENDÁRIO, MULHERES GORDAS E FUTEBOL

 

Pois hoje tive mesmo de fazer companhia ao  Francisco. Nas longas horas ele ia falando.

Francisco: O meu telemóvel tem um catálogo.

Avó: Um catálogo?

Francisco; Sim, mas não é como o do Natal.

Avó: Então?

Francisco: (Apontando a janela) É dos dias que passam. (Mostra-me um calendário)

Mais adiante, o Francisco oferece-me uma pulseira improvisada.

Avó: Não quero, Francisco.

Francisco: Porquê?

Avó: Por causa da doença. A doença não faz mal aos meninos pequeninos como tu, mas faz mal às velhotas como a avó.

Francisco: Tu não és velhota (Grande sorriso da avó), mas és gorda (Avó com a alma de rastos). Mas não és gorda como as senhoras que andam na rua. (Segue-se uma longa divagação sobre as mulheres gordas que conhece e as que viu num vídeo que tinham uma barriga, que me parecia que estavam grávidas. E vai por ali fora numa conferência sobre as mulheres gordas)

Mais adiante:

 Francisco: Queres ver futebol?

Avó: Uuuum…

Francisco liga a televisão e lá estamos nós num canal de desporto.

Avó: De que clube és?

Francisco: De todos.

Entusiasmado vai ao quarto e entra por ali adentro com uma bola a gritar que é o Ronaldo. Longa explicação sobre quem é o Ronaldo. Depois continua a jogar numa perspetiva crítica. Sempre que vai buscar a bola debaixo de uma cadeira:

Francisco: Não está bem. O futebol joga-se com os pés.